domingo, novembro 05, 2006

A pasta de dentes não volta para o tubo

Por Carlos Chagas
Publicado na Tribuna da Imprensa

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Por que Lula venceu? Porque teve mais votos do que Alckmin, é óbvio. Haverá, porém, que garimpar a vitória do presidente. Ele chegou a tirar votos do adversário, dados no primeiro turno, da mesma forma como se tornou o herdeiro quase único dos votos de Heloísa Helena e Cristovam Buarque.

O principal fator da reeleição surge como conseqüência. Lula venceu porque as eleições dividiram o País em dois: os pobres votaram nele e os ricos, em Alckmin. A divisão pode ser notada até na geografia. O Norte, o Nordeste e as regiões mais pobres do Centro-Oeste e do Sudeste ficaram com o candidato do PT. O Sul e a maior parte do Sudeste preferiram o ex-governador de São Paulo.

Resultado foi óbvio

Trata-se de uma divisão perigosa. Os pobres identificaram no presidente Lula alguém como eles. Os ricos buscaram um candidato que pode não ser necessariamente rico, em termos pessoais, mas veio identificado com as elites.

Aliás, ironicamente, Lula deve ser classificado como um ex-pobre, tendo em vista que possui três apartamentos e investimentos na bolsa de valores. Alckmin jamais pronunciou uma palavra contra as elites, ainda que tentasse cooptar as massas. Já Lula desenvolveu toda a campanha do segundo turno batendo firme nos ricos, dizendo até que a Avenida Paulista era o reduto de seu adversário.

Como as massas empobrecidas são maioria, o resultado foi óbvio. Mesmo tentando desmentir ter criado essa divisão, o presidente reeleito não conseguiu livrar-se dela. Nos dois discursos feitos logo após a proclamação da vitória, foi claro ao acentuar que governaria para o andar de baixo, não para o de cima.

Nada há a opor, diante da disposição de fazer mais pelos desafortunados, mas a pergunta que fica é se a nação está disposta a esquecer essa exposição explícita de suas entranhas. Mesmo vinda dos tempos de Pedro Álvares Cabral, a divisão entre ricos e pobres aflorou através da campanha da reeleição.

Algumas conseqüências advirão breve. Os pobres vão cobrar, senão diretamente, pelo menos através dos movimentos sociais. Os sem-terra saíram na frente, até rompendo o pacto de não invadir propriedades antes das eleições. Outros similares já se preparam, como os sem-teto, os sem-emprego e, mesmo, os sem-esperança. Apesar do recolhimento da CUT, as outras centrais sindicais já esquentam os motores para botar os operários na rua, estimulando greves.

No reverso da medalha, defendem-se as elites. Será o novo Lula renascido das urnas diferente daquele que as beneficiou durante quatro anos? E se for, como reagirão? Que efeitos causaria nelas uma reforma fiscal capaz de sacrificar ainda mais as classes favorecidas, a começar pelos bancos e os especuladores? Fará o que o presidente? É impossível fazer voltar a pasta de dentes, depois que ela sai do tubo. Dizer que tudo não passou de um expediente eleitoral não dá.

Sem adversários?

Declarou Lula, conhecidos os resultados da eleição, que não terá mais adversários. Pediu a compreensão das oposições e se disse disposto a conversar com todos. Não haverá partido político que ele deixe de procurar. Até dezembro, terá dialogado com todos os segmentos da sociedade, para compor uma agenda nacional focando o crescimento econômico e a justiça social.

Não vetará ninguém, e quem não quiser que explique por quê. A teoria é perfeita, falta esperar pela prática. O "alto tucanato" não parece disposto a aceitar a trégua, muito menos os caciques liberais. É verdade que se arriscam a ficar pendurados no pincel, porque suas bases pensam diferente.

Mas é preciso saber se o presidente aceitará de fato sugestões ou se tentará impor pratos-feitos a seus interlocutores. Não se conversa sem uma agenda prévia um roteiro de decisões a tomar, esperando-se que já não tenham sido tomadas no Planalto ou, pior, nos conciliábulos do que sobrou do PT.

Quando, no auge da euforia eleitoral, o ministro Tarso Genro apregoou ter "acabado a era Palocci", terá desagradado muito mais as oposições do que o próprio presidente Lula, que, aliás, não gostou da frase. Se for para mudar o modelo econômico, o novo governo pode esperar a elevação da temperatura. Mas se for para preservá-lo integralmente, como explicar ao eleitorado?