sexta-feira, janeiro 19, 2007

A culpa é de quem?

Por Diego Araujo Campos (*), no Instituto Millenium
.
Nos séculos VII e VIII, os árabes mulçumanos conquistaram o Norte africano. O resultado foi a arabização da porção setentrional do continente. Os árabes referiam-se às regiões não-árabes ao Sul do Saara de o país dos negros. Ibn Khaldun, um intelectual árabe do século XIV, foi um dos primeiros a divulgar a noção de que o clima tropical condicionou a formação de uma “raça” negra apática e indolente.
.
O tráfico de escravos africanos foi conduzido inicialmente pelos árabes, na orla da África Oriental, por meio de enclaves no Oceano Índico, como Mogadíscio, na atual Somália. Os traficantes de escravos, árabes ou europeus, não se aventuravam na captura de negros no interior da África. O trabalho de captura de futuros escravos ficava nas mãos dos próprios africanos, o que beneficiava muitas tribos ou clãs que queriam eliminar seus rivais. Assim, muitos reinos e clãs africanos enriqueceram à custa do sofrimento de seus irmãos africanos. Com efeito, reinos negreiros surgiram com o tráfico, configurados em Estados. Estes combatiam pelo controle de zonas de captura e rotas de tráfico negreiro. Destacaram-se como Estados negreiros Benin (o primeiro país a reconhecer a Independência do Brasil), Gana e Nigéria.
.
Agora, cabe-nos perguntar: devemos culpar apenas os europeus pelo tráfico e a escravização de negros africanos? Será que não estaríamos buscando culpados para um problema que, na verdade, foi fruto da característica do sistema mercantilista, e posteriormente capitalista, de lucro a qualquer custo? Será que devemos continuar forjando a idéia de uma África romântica, quase idílica, para criar privilégios para aqueles que buscam uma identidade afro-brasileira? Na atual discussão sobre ações afirmativas, sendo as cotas universitárias as mais famosas no Brasil, muitos se esquecem de que a reparação por erros de antepassados é uma mera busca por privilégios por aqueles que se dizem descendentes de escravos. Ademais, é injusto querermos separar a sociedade brasileira por categorias de cor estanques, ou seja, negros e brancos, como nos EUA.
.
No Brasil, diferentemente do que pregam aqueles que idealizam uma identidade negra afro-brasileira, o preconceito e a discriminação são relativos e circunstanciais, tendendo a ser mais um preconceito de posição social (principalmente pela renda) do que efetivamente de cor. No nosso país, as diferenças de cor são tênues, a ponto de não sabermos quem é mulato e quem é branco, por exemplo. Por isso, as inúmeras pesquisas que tentam quantificar o número de negros, mulatos e negros na sociedade brasileira, não levam em conta que o sistema da autoclassificação impera no país, tornando impossível sabermos o número exato de negros, mulatos e brancos brasileiros.
.
Devemos parar de buscar culpados por erros do passado, e tentar construir uma nação mais justa para todos, evitando o erro que muitos países cometeram: separar os cidadãos por cor, incitando o ódio racial.
.
(*) Por Diego Araujo Campos, mestrando em Ciências Sociais PUC-Rio