sexta-feira, janeiro 19, 2007

Os bravos também mentem

Por Giulio Sanmartini, de Belluno (Itália) , Observatório de Imprensa

Quando comecei em jornalismo, um dos maiores sonhos de grande parte de meus colegas era ser correspondente de guerra. Na época, era a parte heróica da profissão: tomávamos por base Rubem Braga, correspondente do Diário Carioca junto à Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra, no teatro de operações da Itália.

Mas nem todos os correspondente ativeram-se a contar os fatos reais; foram influenciados pela própria posição política, muitas vezes faltando com a verdade. Um exemplo típico pode ser encontrado na Guerra Civil espanhola (1936-1939). Jamais outra concentrou tantas cabeças coroadas do jornalismo mundial, de André Malraux (1901-1976) a Ernest Hemingway (1899-1961), de Arthur Koestler (1905-1983) a John Dos Passos (1896-1970), de Ilya Ehrenburg (1891-1967) a George Orwell (1903-1950).

A Guerra Civil espanhola colocou Mussolini e Hitler de um lado contra Stalin do outro (ainda era desconhecido no mundo o que acontecia na União Soviética stalinista). Este cenário contrapôs fascismo e democracia. Tratou-se, então, de um momento de escolher posições.

Da Europa e das Américas, milhares de jovens confluíram voluntariamente à Espanha, prontos a lutar e a morrer pelo triunfo da democracia ou do comunismo. Naquela época, o poder de fascínio do ideal comunista tinha conquistado não somente operários e camponeses, mas sobretudo os intelectuais progressistas, que sempre representaram a presa mais fácil de ser seduzida pelo novo que avançava.

"Muito brando"
O destino desse conflito foi diferente de todos os outros. Ao fim de cada guerra, as mentiras dos derrotados são desmascaradas enquanto as dos vencedores tornam-se história. Na Espanha aconteceu o contrário: já que a imprensa internacional, democrática e comunista, estava unanimemente alinhada contra os insurgidos e seus aliados nazistas e fascistas, a luta sangrenta e desesperada dos defensores da República espanhola foi transformada numa romântica epopéia enquanto a vitória conseguida pelos adversários tornou-se "de triste memória".

Hoje, porém, com maior conhecimento dos fatos, pode-se afirmar que se os adversários de Franco tivessem vencido, seria como cair da panela na brasa.

A grande contribuição para confundir os acontecimentos foi a dos correspondentes de guerra. Estes, segundo suas posições ideológicas, construíram cenários fantasiosos e contrastantes. A ideologia é sempre inimiga da verdade. Os correspondente citados escreviam com o coração e não com os olhos, contando aquilo que pensavam e não o que viam. Todos se empenharam com paixão e com paixão mentiram – faziam até disputas de quem mentia mais.
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Arthur Koestler, que depois se tornou um campeão do anticomunismo com o livro O zero e o infinito (Darkness at noon), na época era agente do Comintern infiltrado numa agência jornalística britânica e recebia ordens do comunista Willi Müezenberg (1889-1940). Este, jogando seus textos no lixo, gritava-lhe: "Muito brando, muito objetivo. Conta que os fascistas esmagam os prisioneiros com carros blindados, que os queimam com gasolina. Faça com que todos os leitores prendam a respiração". E mostrava o recorte de um jornal "inimigo" alemão contando que a milícia "vermelha" distribui bônus no valor de uma peseta, e que cada bônus dava direito a um estupro. Em Málaga, a viúva de um franquista tinha sido estripada e junto ao seu cadáver encontraram 64 bônus. Willi, agitando o tal recorte aos gritos, dizia: "Veja como fazem os inimigos e aprenda companheiro. Isso é jornalismo. Isso é propaganda".
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Notoriedade e sucesso
Até hoje quem entra no Harry’s Bar de Veneza o faz com um silêncio reverente. Este era o local em que Hemingway embriagava-se de martinis secos jogando os copos no Gran Canale. Pois é, até o mítico autor de Por quem os sinos dobram cometeu seus escorregões. Noticiava a iminente vitória republicana menos de dois meses antes daquela de Franco. Suas matérias omitiam as execuções que os comunistas impunham aos anarquistas.
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As carnificinas reais abundavam em ambas as partes, mas as descrições jornalísticas muitas vezes exageravam a "verdade", como numa crônica do estadunidense Jay Allen:
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"Mulheres e homens na arena, em fila e com os braços levantados. Às quatro da manhã as metralhadores dos franquistas começaram a atirar. Atirarão por ininterruptas doze horas. Mil e oitocentas pessoas foram fuziladas. No final o rio de sangue tinha um palmo de altura. Há muito mais sangue no corpo humano do que se possa imaginar".
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O único a mover-se contra a corrente foi George Orwell, que procurou revelar e indicar com exatidão as causas da vitória de Franco. No seu livro Homenagem à Catalunha acusa a esquerda radical de não ter querido reconhecer que o totalitarismo não existia somente à direita; de ter ignorado que o verdadeiro inimigo de Stalin não era Franco, mas a própria esquerda radical; e que os comunistas estavam mais preocupados em desbaratar os radicais de esquerda que em vencer o franquismo.
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De certo a notoriedade e o sucesso nem sempre acompanham a verdade. Como lembrou um dia o jornalista francês Lucien Bodard (1914-1998), autor de artigos exageradamente romanceados sobre a revolução em São Domingos: "Caros colegas, sempre terei mais leitores que vocês".