terça-feira, janeiro 02, 2007

Indústria tem pior resultado da década

Por Marcelo Billi, na Folha de S.Paulo
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Vendas e margens de lucro em queda fizeram do primeiro semestre deste ano o pior da década para o setor industrial. Grandes e pequenas empresas do setor nem sequer conseguiram atingir rentabilidade que superasse o custo de capital, medido como rentabilidade das aplicações financeiras. Para o segundo semestre, as estimativas são que o cenário será tão ruim quanto o dos seis primeiros meses de 2006.
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Os balanços de 1.338 empresas do setor industrial analisados no “Painel de Competitividade Fiesp-Serasa” mostra que, apesar da queda dos juros, investir no setor produtivo ainda é praticamente sinônimo de perder dinheiro.
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O setor como um todo não dá prejuízo, pelo contrário, a rentabilidade é positiva em todos os anos desde 2001, ano em que começou o acompanhamento do estudo da Fiesp-Serasa. Mas a rentabilidade da indústria é, em média, inferior ao custo do capital. Ou seja, quem investiu R$ 1 na atividade industrial poderia ganhar mais se tivesse decidido deixar o dinheiro no mercado financeiro.
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O levantamento considera os balanços do primeiro semestre, mas, diz a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), pouco mudou desde então. “Nós fazemos um monitoramento. Os juros caíram, mas o ‘spread’ bancário, não. A queda não chegou ao consumidor final. Só as grandes empresas têm acesso ao financiamento. Nossa percepção é que, no segundo semestre, pouca coisa vai mudar em relação ao primeiro”, diz José Ricardo Roriz Coelho, diretor do Departamento de Competitividade da Fiesp. “Os mesmos elementos que contribuíram para o baixo crescimento econômico na primeira metade do ano continuam presentes”, conclui o painel.
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Desempenho fraco
São várias as razões para o desempenho fraco do setor, e elas são diferentes dependendo do tamanho das empresas. Para as grandes, o problema foi o câmbio e a conseqüente dificuldade para exportar e para redirecionar a produção para o mercado interno. As vendas das grandes empresas caíram 7,4%. Para compensar, as empresas tentaram reduzir custos, mas conseguiram redução, em média, de 5%. Resultado: queda na rentabilidade sobre o patrimônio, que havia sido de 10,8% no semestre que terminou em junho de 2005 e baixou 34%, chegando a 7,1% no primeiro semestre deste ano.
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O ano de 2006 foi ruim para as grandes empresas em vários sentidos. As vendas caíram pela primeira vez na década. De 2001 a 2005, as vendas subiram, em média 6,3% ao ano, sempre comparando os resultados dos primeiros semestres. O primeiro semestre de 2006 também registra a menor margem de lucro da década para as grandes empresas do setor industrial.
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Neste ano, a margem de lucro ficou em 14,3%, contra resultado de 17,3% no ano passado. Por fim, a queda nas vendas foi superior à capacidade de reduzir custos e compensar as perdas. Assim, a relação entre a despesas operacional e o faturamento foi a maior desde junho de 2002.
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O cenário não é tão desastroso para as pequenas e médias empresas. Mas explique-se: desde 2001 elas têm enfrentado situações muito mais dramáticas do que as enfrentadas pelas grandes empresas. Enquanto as grandes registraram vendas crescentes em todo o período 2001-2005 e só enfrentaram retração neste ano, as PMEs (pequenas e médias empresas) enfrentaram um início de década bem mais turbulento.
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Os três primeiros anos desta década foram de estagnação para as PMEs industriais. Estagnação que foi interrompida pelos bons resultados de 2004, ano de melhor rentabilidade para as pequenas e médias. 2005, novamente, foi ano de retração e, em 2006, graças à capacidade de redução de custos, as PMEs não registraram queda tão grande de rentabilidade quanto as grandes empresas.
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Rentabilidade
Na média, a rentabilidade sobre o patrimônio das PMEs industriais era de 7,1% no primeiro semestre de 2005 e baixou para 6,4% em 2006. A queda é menos pronunciada do que nos casos das grandes empresas porque PMEs conseguiram reduzir mais os custos, compensando parte importante da queda de 4,8% nas vendas.
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O câmbio, que prejudicou as exportações, é apontado como grande obstáculo para a grande indústria – a indústria não conseguiu manter a rentabilidade das exportações tampouco redirecionar a produção para o mercado interno e ainda sofreu a concorrência dos importados mais baratos. As pequenas empresas, por sua vez, sofrem mais por conta de aspectos internos, sendo o alto custo do crédito o grande inibidor para o crescimento das PMEs, diz o estudo da Fiesp-Serasa.
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Os dados dos balanços mostram que enquanto as despesas financeiras líquidas representam 71% do lucro líquido das pequenas e médias empresas, para as grandes essa proporção é de apenas 16%. “As pequenas e médias empresas não crescem porque o crédito é caro e raro”, relata o documento.