terça-feira, fevereiro 06, 2007

Importação tira quase 2 pontos do PIB

Fernando Canzian, Folha de São Paulo
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Parte significativa do PIB (Produto Interno Bruto) está "vazando" para fora do país. Em vez de crescer estimados 2,8% em 2006, o Brasil poderia ter batido em até 4,5% se a crescente demanda interna não estivesse sendo atendida tão fortemente pelas importações.

O volume de compras de produtos de fora aumentou 16% no ano passado. Só em bens de consumo, o salto foi de 74%. Isso significa que o consumidor brasileiro ajudou no crescimento do PIB dos países que exportam para o Brasil.Rebeca Palis, gerente de Contas Nacionais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), afirma que o segundo semestre de 2006 marcou "uma reversão total" negativa do setor externo sobre o PIB. No ano passado, pela primeira vez no governo Lula, as importações contribuíram negativamente no PIB.
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As importações não são ruins para o Brasil, que tem uma das economias mais fechadas do mundo. Elas ajudam a controlar a inflação pela competição com produtos nacionais e a modernizar as empresas.
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O problema é que, apesar de o ritmo do volume das importações estar crescendo muito acima do das exportações (16% contra 3%, respectivamente), o real continua se valorizando.
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Dólar barato
Em outros momentos, essa diferença entre o crescimento maior das importações e menor das exportações faria o dólar ficar mais caro.
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Isso inibiria aos poucos as compras externas e estimularia os setores exportadores nacionais, ajudando o PIB a crescer.
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Isso não aconteceu e não deve mudar por duas razões:
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1) As exportações que mais crescem no Brasil são de commodities e de produtos básicos que têm mantido seus preços fortemente valorizados.Ou seja, o preço alto desses produtos compensou o pequeno aumento em volume das exportações. Enquanto a quantidade exportada cresceu só 3% em 2006, o aumento em valores chegou a 12,5%.
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2) O Brasil continua praticando o maior juro real do mundo, o que atrai uma quantidade enorme de dólares de investidores que lucram no país.Economistas e empresários ouvidos pela Folha não acreditam em reversão dessa tendência. As importações continuarão crescendo, e os preços dos exportados e os juros manterão os saldos comerciais elevados e o dólar abaixo de R$ 2,20.
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Na semana passada, apesar do anúncio de um salto de 31% nos valores importados em janeiro, o dólar caiu a R$ 2,10, a menor cotação em oito meses.A tendência é que o "vazamento" do PIB continue sendo o "vilão" do crescimento.
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Troca por importados
O resultado do setor de máquinas e equipamentos de 2006 já mostrou que está havendo uma forte substituição de investimentos na produção interna por importados.
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Ao contrário do que era esperado, pela primeira vez em seis anos, caiu em 2006 o consumo total de máquinas no Brasil.
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Para o economista Paulo Miguel, da Quest Investimentos, nesse cenário, programas de estímulo à atividade econômica como o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) equivalem a "pisar no acelerador de um carro atolado".
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"Qualquer crescimento a mais na demanda interna continuará beneficiando em boa medida os países que exportam para o Brasil", afirma.
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Em 2006, bastante estimulado por programas sociais, o consumo das famílias cresceu 3,6%, e o PIB, 2,3% (até setembro). A diferença entre os dois percentuais foi, basicamente, atendida pelos importados.
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Estudo da MCM Consultores mostra que, em 2006, 14 setores afetados pelas importações perderam R$ 19,6 bilhões em produção local. Na área de eletrônicos, a queda foi de 8% por conta dos importados. Na de equipamentos de transportes, 6,2%. Na têxtil, 3,8%.
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A saída para conter esse "vazamento", enquanto os preços de commodities e os juros sustentarem o saldo comercial e o real valorizado, seria tornar as empresas brasileiras tão competitivas quanto as dos países de onde o Brasil importa.
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Para isso, seriam necessários cortes de impostos para as empresas bem maiores do que os previstos no PAC: foram cerca de R$ 6 bilhões, para uma carga tributária de mais de R$ 800 bilhões, o que dá menos de 0,7%.