terça-feira, fevereiro 06, 2007

Mais um bloco em formação?

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

Mesmo sem a emissão de juízos de valor, quantos deputados e senadores prestam contas à Justiça, hoje? Respondendo a inquéritos e processos judiciais, denunciados pelo Ministério Público ou indiciados pela Polícia Federal, são mais de trinta. Importa menos se foram mensaleiros, sanguessugas ou se respondem por outras acusações. Serão páginas viradas, o remédio é esquecer o passado, especialmente agora que dispõem de foro privilegiado no Supremo Tribunal Federal?

Encabeçam a procissão Paulo Maluf, Antônio Palocci, João Paulo Cunha, José Genoíno, José Mentor, Waldemar Costa Neto, Paulo Rocha, Juvenil Alves, Jader Barbalho e muitos outros. Não há que fazer suposições de culpabilidade ou inocência, mas, politicamente, esses parlamentares encontram-se em pé de igualdade com os demais?

Evidente que não. Estão sob suspeição, alguns já foram até parar na cadeia, outros sofreram o constrangimento de freqüentar tribunais. Os novos presidentes da Câmara e do Senado deixaram claro que não mobilizarão o Legislativo para qualquer tipo de cobrança ou ação contra companheiros. Vive-se nova legislatura, onde todos são puros como congregados marianos. Além do mais, os acusados de corrupção votaram e continuam votando...

Aqui para nós, essa postura não contribui para melhorar a imagem do Congresso. Tem saída? Na realidade, tem. Deveriam os deputados e senadores que se encontram sendo processados tomar alguma iniciativa. Defender-se, é claro, como já estão se defendendo através de seus advogados.

Todo mundo é inocente até que se lhe prove a culpa, mas em se tratando do viés político das acusações ficam devendo uma satisfação à sociedade. Seria tolice imaginar um manifesto assinado por todos, declarando-se perseguidos ou injustiçados, coisa na grande maioria dos casos inócua e até mentirosa. Mas bem que poderiam formar um bloco, nesses dias de tantos em formação.

Desta vez, vamos?
Na segunda vez em que se candidatou à presidência, Ademar de Barros criou um slogan que ganhou o País: "Desta vez, vamos!" Acabou não indo, mas até hoje sua campanha é lembrada como uma das mais eficientes de que se tem notícia. Poderia o presidente Lula, neste início de segundo mandato, copiar a exortação. Será que vai mesmo, desta vez, compor o novo ministério? Está prevista para hoje mais uma reunião do conselho político. Os presidentes dos partidos que apóiam o Planalto serão recebidos em conjunto.

Parece óbvio que não será a oportunidade para Lula começar a distribuir ministérios. Essas montagens fazem-se isoladamente. Como nenhum dirigente partidário recebeu até agora o menor sinal para abordar indicações, prevê-se para os próximos dias o início do processo. A novidade está na determinação do presidente de evitar que as conversas redundem em indicações únicas para possíveis ministérios a preencher. Pelo que se ouve, ele pedirá opções variadas, sem decidir nada na hora.

A conclusão, assim, é que atravessaremos senão o samba, ao menos o carnaval. Sem pressa e possivelmente sem que o novo ministério venha a ser anunciado de uma só vez. O conta-gotas vai funcionar, mesmo supondo-se a rápida designação do novo ministro da Justiça, talvez Tarso Genro, tendo em vista ter esticado ao limite máximo o apelo a Márcio Thomaz Bastos para permanecer no cargo. A novela se desdobrará em inúmeros capítulos, até o seu final.

"Público-alvo"
Exegetas do Planalto dedicaram parte do fim de semana a interpretar um parágrafo do discurso de posse de Renan Calheiros. Claro que concordam em que "inexiste democracia sem independência do Legislativo", mas o que significou a afirmação de que "governabilidade não é submissão e boa vontade política não pode ser confundida com obediência"? E o arremate: "Nossos patrões são os brasileiros".

A mensagem não foi gratuita. Houve um endereço, que obviamente não é o gabinete do presidente. As opiniões se dividem: Tarso Genro ou Dilma Rousseff constituíram-se no "público-alvo". Renan tem confidenciado que não indicará ministro, mesmo que venha a ser chamado para isso. Em compensação, não precisa dar aval para ninguém...