sexta-feira, março 16, 2007

Adeus, Márcio Thomaz Bastos. A Justiça o saúda à distância

Reinaldo Azevedo

Na sexta-feira, Tarso Genro, ministro das Relações Institucionais, será anunciado o novo ministro da Justiça. Substitui Márcio Thomaz Bastos. Sai o criminalista, entra o advogado trabalhista, ou ex, já convertido há tempos à política. Lula chegou a pensar em Genro para uma cadeira no STF. Melhor na Justiça, que é cargo político. O do Supremo não deixa de ser — mas ali se exige algum apuro técnico. Foi mais sensato.
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Bastos sai levando consigo uma espécie de memória do aviltamento jurídico do país, de que ele foi uma peça central. Os efeitos práticos de seus atos ainda estão todos aí. A meu juízo, foi mais importante para o governo Lula do que Antonio Palocci. O ex-ministro da Fazenda (que lançou um livro; veja abaixo) garantiu a estabilidade econômica, é verdade. Suas escolhas talvez estejam na base da reeleição de Lula se formos mirar apenas a economia. Mas foi o já quase ex-ministro da Justiça quem apontou os caminhos jurídicos — ou que margeavam o terreno jurídico — para Lula se livrar da acusação de um crime de responsabilidade.
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É claro que os sucessivos erros das oposições — sobretudo sua covardia na hora crucial — contaram bastante. Mas o toque de gênio, um gênio não necessariamente a serviço da boa ordem jurídica, foi mesmo de Márcio Thomaz Bastos. Foi ele quem escolheu a Estratégia Dalva de Oliveira de Defesa. Consiste em proclamar ao mundo: “Errei, sim/ manchei o teu nome/ mas foste tu mesmo o culpado”. Foi o que fez Lula. Ainda que este “eu” não tenha sido ele próprio, mas o partido, o PT. O criminalista quem decidiu: assuma-se o crime eleitoral; o resto se resolve. E, como vimos, se resolveu. As pegadas do Ministério da Justiça também foram encontradas no episódio da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo, lembram-se? Mas foram se apagando com o tempo.
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A Bastos também se deve a criação do mito de uma Polícia Federal eficiente, ocupada, não raro, em prender alguns figurões da sociedade, como se deixasse carimbado: “No governo do PT, os ricos também choram”. A incapacidade da PF em produzir provas nas investigações de crimes políticos foi, na gestão Bastos, inversamente proporcional ao alarido com que se prenderam uma dona de butique ou o dono de uma cervejaria. Se a prisão era merecida, nada a reclamar. Não reclamo desse particular, mas do outro, onde estão os impunes.
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Devemos também ao ministro da Justiça a absoluta inação do governo no que diz respeito à Segurança Pública. Entrou na Justiça prometendo criar cinco presídios federais. Saiu deixando apenas um, ainda não completamente ocupado. Não é que faltem bandidos no Brasil, como sabemos. Falta competência. Em quatro anos, extremou-se o quadro da violência no país contra o cidadão comum, como estamos cansados de ver. Bastos nos pediu paciência, se disse contrário à legislação do pânico, combateu a tese do endurecimento das penas. E tudo ficou por isso mesmo.
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Sua ação mais vistosa na área foi a inútil Força Nacional de Segurança. Qualquer dúvida sobre a sua eficiência, perguntem ao Rio de Janeiro. Sob a gestão de Bastos, os fundos de segurança foram contingenciados na limite da indigência, a começar do Fundo Penitenciário. São Paulo, em particular, conhece a sua “dedicação” à causa. Também devemos ao apoio do governo a votação de um plebiscito para se proibir a venda legal de armas, embora as ilegais atravessem tanto a fronteira seca como a molhada sem qualquer dificuldade. Não deixa de ser irônico que corra do cargo no momento em que Rio, por exemplo, vive a sensação de estar conflagrado. É a prova sangrenta da incompetência do ministro da Justiça.
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E quem entra? Adversários de Tarso Genro — inclusive aqueles dentro do PT — o chamam de Rolando Lero, referência a uma personagem da Escolinha do Professor Raimundo que era notório pelo discurso um tanto empolado, sem qualquer compromisso com a precisão. Talvez haja nisso certa dureza. Mas todos sabemos que Tarso é aquele petista que, diante dos descalabros de Dirceu, Delúbio e sua turma, passou a defender a “refundação” do PT (o que ele prega ainda hoje). Mas a campanha eleitoral começou, com as oposições lembrando a obra do partido, e Tarso começou a gritar: “Golpe, golpe de Estado!”. Imaginem! É o petista que, no dia 19 de janeiro de 1999, no 19º dia do segundo mandato de FHC, defendeu a sua renúncia e a realização de eleições gerais.
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A Justiça ganha? Não creio. Não me parece ser um executivo mais eficiente do que Bastos. Também não o vejo especialmente preocupado com o tema da pasta que mais preocupa os brasileiros: a segurança pública. Com ele, o Ministério da Justiça estará apenas mais enfronhado no dia-a-dia da política e mais poroso às pressões dos partidos. Acreditem: isso ainda é um tanto melhor do que o distanciamento olímpico de Bastos. Ele também não é dotado daquela “genialidade” do antecessor. Mas tenho a certeza de que, se Lula precisar, Bastos continuará a socorrê-lo com a sua reputação de criminalista imbatível.
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