quarta-feira, março 14, 2007

Vidas perdidas, política errada

Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa

O secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame - TRIBUNA DA IMPRENSA de 8/03 -, afirmou que vai incluir nas estatísticas da violência no estado as vítimas de balas perdidas. A declaração é incrível, prejudica o governo Sergio Cabral junto à opinião pública, revela tácita e claramente que a repressão policial está fracassando.

Claro. Não pode haver outra interpretação. E vale acentuar que entre as vítimas existem as fatais, as gravemente lesionadas, as que sofreram ferimentos de vários tipos. De que adianta colocá-las em quadros numéricos. São inocentes, não poderiam ter sofrido as conseqüências dos enfrentamentos entre as forças policiais e os bandidos.

Inocentes, este o princípio maior, não podem morrer ou sofrer. E morreram e sofreram em vão. Porque os problemas que existem em torno da guerra urbana que se trava na cidade, alarmando e aterrorizando a população carioca, permanecem. As ações de força estão levando o fogo cruzado nas ruas próximas às subidas de morros. Não tem cabimento.

Mantém-se tiroteios de horas e horas, paralisa-se atividades produtivas, produz-se o pânico, sem resultado, quando deveria ser feito apenas o cerco às áreas críticas sem colocar em risco a integridade e a existência de número enorme de pessoas. A cidade está, inclusive, ficando traumatizada com a sucessão de desfechos de sangue e mutilação. Intervenções dessa forma não valem o risco. Prejudicam muito mais do que ajudam, tumultuam muito mais do que resolvem. Derrubam a imagem do governo e da própria polícia.

Todos sabem o tipo de domínio que prevalece nas favelas e o comércio que se desenvolve lá. Afirma-se sempre que o Rio não produz armas e tóxico, portanto a entrada de drogas e armamentos é culpa da falta de policiamento nas fronteiras, nos aeroportos, portos, terminais rodoviários e ferroviários. Muito bem. Mas como chegam ao topo dos morros?

Claro que têm de atravessar as ruas da cidade e depois passar pelas ruelas onde residem mais de 1 milhão e 200 mil pessoas, das quais noventa e cinco por cento, pelo menos, são trabalhadores e absolutamente honestas. As drogas sobem durante o dia, as armas também. O dinheiro, produto da sinistra comercialização, desce à noite pelas ladeiras íngremes da incerteza. Não adianta tentar ocupar fisicamente esses espaços, inclusive porque as balas vêm de cima. Um risco enorme para as tropas da PM, para as forças policiais civis, sejam federais ou estaduais, em perigo iminente para os moradores e também para as pessoas que são obrigadas a atravessar os becos atingidos pelo fogo cruzado.

Tudo isso para quê? Para nada. Dessa espécie de confronto é que surgem as balas perdidas, como acontece na guerra. Não importa que as balas perdidas sejam das armas da polícia ou do crime. Importa é que elas se tornam fatidicamente inevitáveis nos confrontos que se desenrolam diariamente em vários bairros da cidade. A estratégia da Secretaria de Segurança está equivocada. Bastaria realizar-se um cerco em torno dos pontos convulsionados. A PM não precisaria subir as encostas onde mora a pobreza. Os bandidos é que teriam que descer tentando a ruptura do cerco. A batalha assim seria travada em outras bases sem a inadmissível morte de inocentes.

Como está ocorrendo, os moradores terminam identificando a polícia como agente da insegurança e do medo. Não pode ser assim. É preciso mudar.

Os inocentes não podem se transformar em vítimas. Não faz sentido, não tem cabimento. Pois se são inocentes, não têm culpa de nada, como podem ser punidas? E são punidas tragicamente de várias maneiras. Basta a simples colocação desses argumentos para se ver o que efetivamente se está praticando. É algo desumano o que acontece.

Os habitantes do Rio já não acreditam em mais nada, já que perderam o direito de transitar livremente e uma parte ponderável não sabe se estará viva no dia seguinte. O secretário José Mariano Beltrame, ao ser escolhido pelo governador, representou uma esperança em matéria de polícia inteligente, investigativa, eficiente, justa, capaz de fazer um mapeamento da violência, como foi feito em Nova York pelo prefeito Rudolf Giulliani.

Mas está partindo para um confronto frontal e total, à base da troca de força e potência de fogo, deixando a inteligência e a importância da informação precisa para segundo plano. Assim não vai alcançar o êxito que todos nós aguardamos. Evidentemente, temos que reconhecer a dificuldade de sua tarefa. Mas não se pode, pelos exemplos acontecidos, concordar tenha ele enveredado pelo caminho que adotou na busca do êxito no combate ao crime e aos criminosos.

A criminalidade possui muitos disfarces, os labirintos das favelas não são apenas geográficos, são igualmente de percepção. A guerra aberta, pública, só pode ser desencadeada em último caso, na defesa da vida dos seres humanos e da propriedade quando estiver ameaçada pelo vandalismo e pela força bruta. Não pode ser uma rotina.

A lógica que sempre predomina em tudo indica rumos diversos daquele em que se coloca o secretário Beltrame. As últimas mortes e mutilações ocorridas na cidade são suficientes para provar que ele precisa reformular sua atuação. É urgentíssimo que faça isso. Inocentes não podem morrer ou ser mutilados. É o absurdo dos absurdos.