domingo, abril 22, 2007

Cadeia para 33 inocentes

Augusto Nunes, Sete Dias, Jornal do Brasil

Só nos últimos dois anos, informou no Estadão de domingo passado a jornalista Angélica Santa Cruz, a Justiça brasileira admitiu formalmente ter condenado à prisão 30 homens e três mulheres que não cometeram crime algum. Faltaram três meses para que as penas aplicadas aos 33 inocentes somassem 33 anos.

Descontados os 36 meses de gaiola impostos pela juíza Denise Frossard, faz exatamente 33 anos que Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães, espanca a lei em liberdade. Começou nos anos 70 torturando presos políticos em quartéis. Ainda oficial do Exército, associou-se a delinqüentes paisanos. Expulso, abrigou-se nas malocas do bicho. Chegara à caciquia quando a juíza o surpreendeu.

Para condenados sem culpa, cada dia na prisão é uma ferida que não cicatriza: raríssimas vítimas de erros judiciários retomam a vida dramaticamente interrompida. Nada fizeram de errado, mas sentem vergonha. Para pecadores militantes, temporadas na cadeia são medalhas, se contadas em dias, ou condecorações, quando duram meses.

Em 1996, ao recuperar a liberdade confiscada três anos antes, o Capitão Guimarães tinha o sorriso de quem previa merecidas promoções por tempo de prisão. Recebido pelos comparsas com honras de herói de guerra, logo percebeu que não demoraria a alcançar o generalato.

O patrono de escola de samba primeiro assumiu a presidência perpétua da Liga Independente das Escolas de Samba. Era o começo da escalada. Na semana passada, a ofensiva concebida para desmontar a máfia dos caça-níqueis encontrou-o num dos cumes da cordilheira criminosa.

Os domínios da quadrilha vão muito além da jogatina eletrônica. O alto comando, formado por 25 figurões, inclui delegados, empresários, advogados, políticos e desembargadores. Todos se subordinam a três generais, os Tios. Um é o Capitão Guimarães. Está em excelente companhia.

O trio é completado por prontuários igualmente notáveis. Aniz Abrahão David, o Anísio da Beija-Flor, foi um dos desbravadores das trilhas que ligaram as bancas de bicho dos subúrbios a eldorados feitos de armas e drogas. Antonio Petrus, o Turcão, assumiu a poltrona do patriarca depois da morte de Castor de Andrade.

Os planos urdidos pelos três comandantes foram executados com audácia e determinação pela alta oficialidade. Todos foram presos na semana passada. Todos acreditam que não passarão muitas noites na cela. O Capitão Guimarães nem se licenciou da presidência da Liesa. Acha que logo estará cuidando do Carnaval de 2008 na Sapucaí.

"Nem um nome honrado vou conseguir deixar para meu filho", amargura-se um dos 33 condenados sem culpa localizados pelo Estadão. Júlio Guimarães Sobreira, sobrinho do Tio, já descobriu que ser herdeiro do Capitão pode ser perigoso, mas é bom negócio. Também capturado no primeiro dia da Operação Furacão, Sobreira tinha R$ 9 milhões escondidos numa parede falsa do apartamento.

A geração das crianças massacradas
"No Rio, a morte chega mais cedo", informou no começo da semana a primeira página do jornal The Washington Post. Chega mesmo, atesta a longa reportagem do correspondente Monte Reel, robustecida por depoimentos de crianças recrutadas por quadrilhas e algumas comparações perturbadoras. De 2002 a 2006, por exemplo, a violência crônica em Israel e nos territórios ocupados matou 729 menores judeus e palestinos. Nesse mesmo período, 1.857 menores foram assassinados no Rio de Janeiro. Mais que o dobro.
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A matança dos meninos sugere que a guerra do Rio cruzou a última fronteira. Mas as Forças Armadas do Brasil só estão autorizadas a agir nas favelas do Haiti.

Brincando com fogo
Nos 15.500 mil hectares do Campo de Treinamento Marechal Hermes, ao norte de Santa Catarina, tropas do Exército se aperfeiçoam no uso de fuzis, explosivos, tanques ou canhões. Os mandarins do MST enquadraram a área militar na categoria de “propriedade improdutiva” e decidiram invadi-la. Má idéia. Trataram de desmontar as barracas de lona preta antes que a turma das barracas de lona verde-oliva começasse a mostrar que tipo de atividade se pratica diariamente naquelas terras.
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Cabôco Perguntadô
Em novembro de 2005, o professor Mangabeira Unger resumiu o que pensa do presidente Lula num artigo na Folha de S.Paulo. Trecho: "Avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância, mostrou-se inapto para o cargo que o povo lhe confiou".

Como Unger acaba de virar ministro, o Cabôco quer saber se as opiniões do professor, como os medicamentos, têm prazo de validade.
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Yolhesman Crisbelles
O troféu da semana vai para o delegado federal Carlos Pereira da Silva, pela frase com que tentou explicar a origem dos US$ 60 mil encontrados em sua casa pelos investigadores engajados na Operação Furacão:
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Minha mãe vendeu um apartamento em Copacabana e pediu que eu guardasse o dinheiro.

A mãe parece confiar bastante no filho delegado. A polícia não confia nem um pouco. Apreendeu a bolada e levou o banqueiro amador para conversar na cadeia.