Marcelo Carneiro da Cunha, Terra Magazine
No livro de Julio Verne 20 Mil Léguas Submarinas, o Nautilus, submarino do Capitão Nemo, tinha um lema: "Mobilis in Mobile". Em bom latim, o que eu duvido que eu, você que me lê ou qualquer pessoa num raio de centenas de quilômetros conheça, isso quer dizer Móvel no Movente; ou seja, ter a capacidade de se manter em movimento no meio de algo que também se move. Isso quer dizer termos a capacidade, de, por exemplo, nos movermos de acordo com a nossa vontade, mesmo rodeados de movimento. Creio que a analogia deve ser que o melhor é que nos movamos como peixes - e não águas-vivas - no mar ao nosso redor.
Se existe uma coisa em movimento, é esse nosso mundo de hoje. Eu li e não sei exatamente onde, que durante a apresentação do primeiro trem ao público, lá por 1838, o Rocket, capaz de atingir inacreditáveis quarenta quilômetros por hora, um dos espectadores teria morrido atropelado simplesmente por não conseguir sair da frente do trem em tempo. Para as pessoas de 1838, quarenta quilômetros por hora era simplesmente uma quantidade exagerada de velocidade, para a qual nenhuma delas - certamente o caso da vítima do atropelamento - poderia estar preparada.
Por milhares de anos, nossa velocidade máxima foi a de um cavalo em corrida, o que nem mesmo o cavalo agüenta por muito tempo. Em cem anos ou pouco mais, fomos do Rocket ao foguete pra valer; do balão cheio de ar quente ao Airbus ou Boeing que em dias com bons ventos chega perto dos mil quilômetros por hora; do ábaco ao computador, passando antes por aquelas calculadoras mecânicas que eu tanto gostava de ver sendo usadas, por algum motivo, em lojas de ferragens.
Talvez por isso nos seja tão paradoxal estarmos, no Brasil desse momento, grudados ao chão e nada móbiles, ou mobilis, perdoem meu latim. Os jornais falam do caos aéreo, mas quem vai até uma aeroporto tentando ser móbile (ou mobilis) se sente num caos terrestre, porque não sabe quando ou se vai sair daquele lugar onde está para o lugar onde gostaria de estar. Não entende exatamente o que está acontecendo, mas sabe muito bem o que pode acontecer se não conseguir se mover - algo que até há pouco tomávamos como certo e assegurado, mais um desses nossos direitos adquiridos que alguma força tenta remover de tempos em tempos.
Eu tenho lá a minha suspeita de que o nosso mundo em movimento se mantém em movimento por detalhe. A gente vai para uma praia na Tailândia achando que volta quando quiser, e vem uma onda gigante e coloca um sério ponto final ou de interrogação em nossa capacidade de decidir o que vai acontecer dali em diante. A gente resolve estar em New Orleans quando passa por ali um furacão chamado Katrina e descobre que os Estados Unidos podem, muito rapidamente, se transformar em algo terceiro-mundista e colocar em dúvida tudo que pensávamos sobre os supostos caras que deveriam saber e controlar o mundo inteiro.
Eu estava em Nova York no dia em que uns terroristas malucos transformaram o movimento de uns aviões no que hoje conhecemos como 11 de setembro, e naquele exato instante toda a minha capacidade de movimento foi literalmente para o espaço.
E vivo num Brasil que não sabe ou consegue manter seus aviões em funcionamento, que não consegue manter as suas estradas em funcionamento, que mantém portos funcionando de um jeito que me parece suspeito (eu moro diante de um porto, e olhando o modo que eles usam pra carregar e descarregar navios, fico pensando e pensando se dez mil chineses com pás não seriam bem mais eficientes). Pior: eu vivo em um Brasil onde quem está encarregado de tomar conta de tanto movimento não parece fazer a menor idéia do que nos mantenha em funcionamento.
É impossível que um suposto Ministro da Defesa não saiba sequer defender o seu emprego ou pelo menos conheça o seu job description (termo super na moda, que significa descrever o que se espera que a gente saiba fazer para ter o nosso emprego, para começo de conversa). A impressão é de que estão colocados em lugares críticos gente que não conseguiria escolher um pé de alface no supermercado, caso tivesse uma remota idéia do que venha a ser um pé de alface.
É impossível entender que se deixe equipamento vital para o controle aéreo ser sucateado, quando sobre dinheiro da Infraero para comprar rampas de acesso aos aviões por dois milhões de reais cada, em Congonhas. É impossível entender como nossos controladores aéreos fazem para controlar o que eles nem conseguem ver direito, caso trágico do avião da Gol, em setembro do ano passado. E é assustador ficar sabendo que eles, na sua maioria, sequer falam ou entendem inglês direito. Fico imaginando um avião vindo direto da China, com o piloto falando o inglês dele e nosso controlador falando o nosso, e me espanta que aparentemente ele encontre e pouse em Guarulhos. Mas que um dia não vai dar certo, não vai.
Nosso movimento, nossa capacidade de ir e voltar, nossa necessidade de estarmos móveis no movente, tudo isso passa a não ser mais do que uma crença, uma vontade de acreditar no que sabemos, de alguma maneira, ser falso. E quando paramos de acreditar, até mesmo Deus morre, se Nietzsche estiver mesmo certo. E se Deus, que é para ser o todo-poderoso mais poderoso que existe, se até ele corre riscos, imaginem a gente aqui, com esse nosso poder todo, em que pé nos encontramos.
(*) Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que será publicado em setembro pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe".
No livro de Julio Verne 20 Mil Léguas Submarinas, o Nautilus, submarino do Capitão Nemo, tinha um lema: "Mobilis in Mobile". Em bom latim, o que eu duvido que eu, você que me lê ou qualquer pessoa num raio de centenas de quilômetros conheça, isso quer dizer Móvel no Movente; ou seja, ter a capacidade de se manter em movimento no meio de algo que também se move. Isso quer dizer termos a capacidade, de, por exemplo, nos movermos de acordo com a nossa vontade, mesmo rodeados de movimento. Creio que a analogia deve ser que o melhor é que nos movamos como peixes - e não águas-vivas - no mar ao nosso redor.
Se existe uma coisa em movimento, é esse nosso mundo de hoje. Eu li e não sei exatamente onde, que durante a apresentação do primeiro trem ao público, lá por 1838, o Rocket, capaz de atingir inacreditáveis quarenta quilômetros por hora, um dos espectadores teria morrido atropelado simplesmente por não conseguir sair da frente do trem em tempo. Para as pessoas de 1838, quarenta quilômetros por hora era simplesmente uma quantidade exagerada de velocidade, para a qual nenhuma delas - certamente o caso da vítima do atropelamento - poderia estar preparada.
Por milhares de anos, nossa velocidade máxima foi a de um cavalo em corrida, o que nem mesmo o cavalo agüenta por muito tempo. Em cem anos ou pouco mais, fomos do Rocket ao foguete pra valer; do balão cheio de ar quente ao Airbus ou Boeing que em dias com bons ventos chega perto dos mil quilômetros por hora; do ábaco ao computador, passando antes por aquelas calculadoras mecânicas que eu tanto gostava de ver sendo usadas, por algum motivo, em lojas de ferragens.
Talvez por isso nos seja tão paradoxal estarmos, no Brasil desse momento, grudados ao chão e nada móbiles, ou mobilis, perdoem meu latim. Os jornais falam do caos aéreo, mas quem vai até uma aeroporto tentando ser móbile (ou mobilis) se sente num caos terrestre, porque não sabe quando ou se vai sair daquele lugar onde está para o lugar onde gostaria de estar. Não entende exatamente o que está acontecendo, mas sabe muito bem o que pode acontecer se não conseguir se mover - algo que até há pouco tomávamos como certo e assegurado, mais um desses nossos direitos adquiridos que alguma força tenta remover de tempos em tempos.
Eu tenho lá a minha suspeita de que o nosso mundo em movimento se mantém em movimento por detalhe. A gente vai para uma praia na Tailândia achando que volta quando quiser, e vem uma onda gigante e coloca um sério ponto final ou de interrogação em nossa capacidade de decidir o que vai acontecer dali em diante. A gente resolve estar em New Orleans quando passa por ali um furacão chamado Katrina e descobre que os Estados Unidos podem, muito rapidamente, se transformar em algo terceiro-mundista e colocar em dúvida tudo que pensávamos sobre os supostos caras que deveriam saber e controlar o mundo inteiro.
Eu estava em Nova York no dia em que uns terroristas malucos transformaram o movimento de uns aviões no que hoje conhecemos como 11 de setembro, e naquele exato instante toda a minha capacidade de movimento foi literalmente para o espaço.
E vivo num Brasil que não sabe ou consegue manter seus aviões em funcionamento, que não consegue manter as suas estradas em funcionamento, que mantém portos funcionando de um jeito que me parece suspeito (eu moro diante de um porto, e olhando o modo que eles usam pra carregar e descarregar navios, fico pensando e pensando se dez mil chineses com pás não seriam bem mais eficientes). Pior: eu vivo em um Brasil onde quem está encarregado de tomar conta de tanto movimento não parece fazer a menor idéia do que nos mantenha em funcionamento.
É impossível que um suposto Ministro da Defesa não saiba sequer defender o seu emprego ou pelo menos conheça o seu job description (termo super na moda, que significa descrever o que se espera que a gente saiba fazer para ter o nosso emprego, para começo de conversa). A impressão é de que estão colocados em lugares críticos gente que não conseguiria escolher um pé de alface no supermercado, caso tivesse uma remota idéia do que venha a ser um pé de alface.
É impossível entender que se deixe equipamento vital para o controle aéreo ser sucateado, quando sobre dinheiro da Infraero para comprar rampas de acesso aos aviões por dois milhões de reais cada, em Congonhas. É impossível entender como nossos controladores aéreos fazem para controlar o que eles nem conseguem ver direito, caso trágico do avião da Gol, em setembro do ano passado. E é assustador ficar sabendo que eles, na sua maioria, sequer falam ou entendem inglês direito. Fico imaginando um avião vindo direto da China, com o piloto falando o inglês dele e nosso controlador falando o nosso, e me espanta que aparentemente ele encontre e pouse em Guarulhos. Mas que um dia não vai dar certo, não vai.
Nosso movimento, nossa capacidade de ir e voltar, nossa necessidade de estarmos móveis no movente, tudo isso passa a não ser mais do que uma crença, uma vontade de acreditar no que sabemos, de alguma maneira, ser falso. E quando paramos de acreditar, até mesmo Deus morre, se Nietzsche estiver mesmo certo. E se Deus, que é para ser o todo-poderoso mais poderoso que existe, se até ele corre riscos, imaginem a gente aqui, com esse nosso poder todo, em que pé nos encontramos.
(*) Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que será publicado em setembro pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe".