sábado, maio 19, 2007

Lula e a economia

Carlos Sardenber, Portal G1
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Observações sobre a entrevista de Lula:
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1. Dólar – o presidente garantiu que o câmbio continua flutuante e isso significa que o Banco Central não vai fixar e defender uma meta para a cotação do dólar. A prova de que é assim: o dólar caiu hoje abaixo dos dois reais e o BC comprou a moeda americana a R$ 1,98. Ou seja, aceitou a cotação abaixo dos dois reais, que muitos diziam ser o piso para o BC.
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2. O que se pode fazer diante do dólar barato? O Brasil, disse Lula, deve aumentar as suas importações, gastar os dólares, comprar máquinas, equipamentos e software para melhorar a produtividade da economia. Trata-se de uma excelente idéia. De fato, comparado com outros países mais estáveis e mais dinâmicos, o comércio externo brasileiro (exportações mais importações) ainda é muito pequeno em relação ao tamanho de nossa economia.
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Mas Lula cometeu uma contradição. Disse que, para ajudar setores industriais mais afetados pela competição de importados mais baratos, poderia aumentar as alíquotas de importação, como já fez no caso dos têxteis. Ora, então é para importar menos ou mais?
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Lula disse também que o governo pensa em reduzir impostos para setores também mais afetados com importações baratas. Tudo bem, isso quebra um galho. Mas o problema de competitividade do Brasil é a carga tributária geral muito elevada e, sobretudo, crescente.
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3. Inflação – o presidente comemorou a inflação baixa, disse que se trata de uma conquista dos mais pobres, que quem vive de salário conhece o efeito destruidor da inflação, de modo que ele não vai fazer nada que possa atrapalhar esse avanço. É uma análise perfeita. Só os ricos conseguem driblar a inflação.
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4. Juros e Banco Central – Lula disse que os juros vão continuar caindo de forma prudente e manifestou confiança no BC. Disse que não vai propor uma lei de autonomia do BC, mas garantiu que, no seu governo, o Banco é autônomo. Contou que muita gente pede para ele interferir no BC e forçar uma redução extra dos juros, admitiu que ele mesmo às vezes sente vontade de fazer isso – mas assegurou que não vai fazer. Dentro em pouco, disse, os juros estarão baixos e ninguém mais reclamará disso.
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Aqui, é uma no cravo e outra na ferradura. Dar autonomia ao BC e considerar que essa autonomia é positiva, está muito bem. Mas por que não colocá-la na lei? Os países que fizeram há anos tiveram ganhos de credibilidade.
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Lula não disse, mas ele não propõe a lei de autonomia do BC pelo mesmo motivo que FHC não propôs: porque acha que o Congresso derrubará o projeto. E aí seria pior.
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5. Investimentos em infra-estrutura – o presidente não tocou no ponto essencial e que, aliás, quase não foi levantado nas perguntas: o governo não tem o dinheiro para os investimentos necessários e não está avançando na alternativa, que seria abrir espaço para o investimento privado.
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Exemplo: disse que não dá para transferir mais vôos de Congonhas para Guarulhos porque este aeroporto precisa de uma terceira pista, para a qual não há dinheiro. Ora, o setor privado tem dinheiro, mas não tem como investir lá.

COMENTANDO A NOTÍCIA: Na verdade, os investimentos na infra-estrutura de pendem tanto do governo quanto da iniciativa privada. Mas a cada um cabe um papel distinto: o dinheiro para bancar as obras quem tem não é o governo, é a iniciativa privada. Porém, esta só aceitará participar da empreitada na medida que o governo puder oferecer, de um crédito, acesso a crédito mais barato. Aqui é até fácil: bastaria abrir linhas de créditos especiais via BNDES. E o governo até anda nesta direção. As amarras encontram-se em outra ponta, que são as garantias de retorno dos investimentos. Nenhum empresário se arrisca em aventuras por puro patriotismo. Não existe isto. Empresário quer ver o que ganhará na aventura. E assim precisa o governo ter em mente que, além, muito além da segurança jurídica que possa apresentar na parceria, precisará contribuir também a desoneração indispensável para que o lucro não seja tragada pela volúpia tributária do estado perdulário que não contém seus gastos mais elementares. Portanto, sem oferecer nada em troca, as obras permanecerão no papel. Lula precisa entender de uma vez por todas o mundo em que vive. Somos capitalistas, e portanto, quem dispõem de capital, precisa ter garantias de lucros em seus investimentos. O dinheiro se multiplica pela ação do trabalho, e não por amor à pátria amada. Tanto que assim é que vários empresários brasileiros estão investindo seu dinheiro em outros países onde estas garantias estão muito mais presentes do que no Brasil.