sábado, maio 19, 2007

O dólar a R$ 1,99

José Paulo Kupfer, NoMínimo

Pode-se morrer de sede, por escassez de água, ou morrer afogado, por excesso dela. As razões que, no exemplo mencionado, levam ao óbito são bem diferentes, mas a conseqüência essencial é a mesma. A economia, exatamente por isso, é uma complicação. Se, normalmente, seu problema é superar a escassez, algumas vezes, o problema é evitar o excesso. Nenhuma das duas situações é desejável, embora a segunda, diferentemente da realidade, possa parecer desejável e até mesmo engane os bobos por uns tempos.

A economia brasileira, no momento, está sendo vítima de um excesso de dólares. E o dólar a menos de R$ 1,99, alcançado na terça-feira, 15 de maio, é uma evidência óbvia do fato. A cotação da moeda americana furou a barreira psicológica dos R$ 2 num dia em que o Banco Central praticamente não atuou em defesa de um real menos desvalorizado e a tendência é de uma trajetória de novos recuos do dólar frente o real.

O excesso de dólares deriva da combinação de fatores internos e externos. Do lado externo, um ambiente econômico internacional de imensa liquidez, em cuja base está o déficit externo americano e a demanda da China por commodities agrícolas, energéticas e manufaturadas. Do lado aqui de casa, uma política macroeconômica convencional e absolutamente inadequada para períodos de excesso de divisas.

Essa política tem provocado distorções que aos poucos vão ficando mais claras. Para evitar, com armas convencionais o excesso de dólares, o regime de câmbio, dito flutuante, foi caminhando para um híbrido de câmbio fixo. Que o câmbio é fixo, apesar da teimosia interessada em reafirmar que flutua, provam a evolução da cotação do dólar e a das reservas cambiais. Há um ano que a cotação do dólar praticamente não sai do estreito intervalo entre R$ 2,15 a R$ 2. No mesmo período, em boa parte por conta das intervenções quase diárias do BC no mercado, o volume de reservas simplesmente dobrou. Hoje, o acúmulo de reservas passa de US$ 130 bilhões, faltando pouco para que o Brasil se torne credor líquido em moeda forte, pois a dívida externa total brasileira – pública e privada – não passa de US$ 145 bilhões.

É uma situação em quase tudo inversa ao ocorrido no segundo semestre de 1998 e nos primeiros dias de 1999, quando o regime de câmbio fixo foi finalmente abandonado. O País, que tinha acumulado reservas em torno de US$ 60 bilhões, se viu obrigado a queimá-las, rapidamente, vendendo dólares, na teimosa tentativa de manter um câmbio fixo.

Naquele período, afetados pela crise russa, a terceira grande crise de liquidez internacional em três anos, os investidores recolheram suas aplicações nos mercados emergentes, depositando seus recursos no porto seguro dos mercados maduros dos Estados Unidos e da Europa. Não houve taxa de juros elevada – e aqui elas acabaram chegando a 45% ao ano! – que evitasse a fuga.

No sentido contrário ao da crise de 1998 na economia brasileira, provocada por escassez de divisas, a situação atual é de uma “crise” de excesso de divisas. Em lugar de vender dólares para segurar a cotação, como em 1998, o BC agora compra dólares, com o mesmo objetivo. Em lugar de torrar reservas, agora se acumulam reservas. Onde isso vai parar se nada fora desse programinha convencional for feito?

Estabelecida na sua base como constructo para superar as situações de escassez, a economia não é tão desenvolta quando enfrenta situações de excesso. Suas receitas convencionais não parecem conter convincentes respostas para esse tipo mais raro de problema. A superprodução dos anos 20 do século passado, que desembocou no crash de 1929, é um exemplo eloqüente. Mais recentemente, houve a longa recessão que assolou a economia japonesa, nos anos 90, provocada por um excesso de poupança.

Aplicar, nas situações de excesso, o inverso das receitas recomendadas para situações de escassez, não costuma, infelizmente, ser suficiente. É preciso, além de inverter a equação convencional dos períodos de escassez, inventar saídas novas para os períodos de excesso. Paul Krugman, o respeitado e popular economista que já foi de Yale, MIT e Stanford, ocupando hoje uma cadeira de economia internacional em Princeton, foi o primeiro a defender com veemência a adoção de taxas de juros nominais negativas no Japão, como forma de tirar o país do buraco, “castigando” os poupadores e “estimulando” o consumo. Com taxas de juros abaixo do pé (e outras medidas), o Japão demorou, mas retomou o crescimento. Hoje, mantém juros zero, para evitar novas deflações.

O Brasil vive, atualmente situação de certo modo semelhante, na área cambial. Se as taxas de juros já recuaram bastante, elas não caíram o suficiente para desestimular a arbitragem de taxas entre as daqui e as mais baixas, no mercado internacional – o que não quer somente dizer incentivo ao ingresso de dólares para aplicação direta no mercado financeiro, mas também pelo lado comercial, com as antecipações de contratos de exportação e postergações dos pagamentos de importações. Reduzir os juros, no Brasil de hoje, rapidamente, pelo menos até o ponto em que a arbitragem de taxas perca a atração, pode não ser suficiente. Mas é, não há mais dúvida, uma necessidade urgente.