quinta-feira, maio 03, 2007

O jeito trocista do governo

por Villas-bôas Corrêa, no Jornal do Brasil

Devagar, devagarzinho, com paradas para o descanso e o fim de semana na Granja do Torto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai compondo o governo para o segundo mandato e burila o estilo do repeteco.
.
A montagem para a arrancada dos grandes planos ainda este ano e nos próximos três impôs barganhas políticas para cimentar a base parlamentar de apoio. Ora, a base está aí, sólida como a pedra da Gávea, com adesões preciosas que custaram ministérios, secretarias, autarquias e o rateio dos valorizados cargos no segundo escalão.
.
Depois, de onde se espera e, também, de onde nada se espera, pipocam as crises. Para colar os cacos da confusão armada no Ministério do Meio Ambiente pela tinhosa ministra Marina Silva foi preciso habilidade e paciência. O foco que ainda lateja fixou-se no Ibama com a anunciada saída do seu presidente, Marcus Barros, e que provocou o pedido de afastamento dos diretores, com ele solidários.
.
Da disposição radical de extinguir o órgão, temperada pelo risco das repercussões internacionais, Lula balança no meio: insiste nas licenças para a construção das usinas hidrelétricas na bacia amazônica e tenta frear a influência das ONGs no Ibama e junto à ministra Marina Silva. O tempo passa, engole os prazos para o início das obras e a geringonça dá voltas, não sai do lugar.
.
O mal-estar contamina áreas do governo, atinge em cheio a ministra Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil e se propaga pela fatia oficial responsável pelo êxito do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), que não pode esperar mais.
.
Se o presidente mantém o sorriso, esbanja confiança e tranqüilidade, o reverso da medalha renova advertências. O Executivo não está sozinho no pântano: conta com a companhia dos 81 senadores e 513 deputados federais que representam 1% da população, segundo o índice vexaminoso das últimas pesquisas.
.
O Judiciário amarga o constrangimento das denúncias que atingem ministros com a revelação, pela Polícia Federal, das conversas gravadas entre o ministro Paulo Medina, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), com o advogado Eduardo Almeida de Mello, ex-diretor do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais, em que discute e antecipa o voto que deveria dar no pedido de habeas corpus em favor de diretor do Minas Tênis Clube, de Belo Horizonte, denunciado por usar carteira falsa de policial.
.
Com tantos problemas a apoquentá-lo, o presidente Lula deu tratos à bola e encontrou a saída pela vereda da singularidade. Como o seu ministério é do modelo do coração de mãe - que tem sempre lugar para mais um - o presidente rendeu-se à trela do professor Mangabeira Unger, no embalo emotivo pela reconciliação que apagou ofensas e agravos dos mais contundentes e decidiu presenteá-lo com o crachá de ministro.
.
De 35 ministros e secretários, o pulo para 36 foi selado na hora. A facilidade da improvisação antecipou-se aos eventuais embaraços: Mangabeira Unger foi sagrado ministro-secretário da Secretaria de Ações a Longo Prazo. Como presidente de honra do PRB, partido aliado e ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, divide o mimo com o Bispo Macedo e o vice José de Alencar.
.
De quê vai cuidar o secretário e a Secretaria não se sabe. Mas, na toada do longo prazo, a posse foi adiada lá para o fim do mês, depois da volta do catedrático de rápida viagem aos Estados Unidos para licenciar-se nas universidades em que é professor há dezenas de anos.
.
Longo prazo para o governo com três anos e oito meses do segundo mandato soa tão estranho como o sotaque do titular, que fala o português do turista americano perdido em Copacabana.