Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa
Na pequena rua Esteves Junior, perto do Largo do Machado, no Flamengo, no Rio, um velho magro, franzino, frágil, de barbas brancas, arfando e falando coisas incompreensíveis com voz sumida, perseguia um pivete que escapulia com um aparelho de TV.
Um jovem teatrólogo e cineasta paraibano, que morava por ali, na praça São Salvador, e estava indo almoçar no restaurante Lamas, viu, gritou, outras pessoas ajudaram a cercar o pivete, que desapareceu rua afora, mas largou a televisão no chão. Era de uma glória nacional, já a caminho do fim da vida, que se divertia vendo sua TV, posta no parapeito da janela do apartamento.
Ipojuca Pontes ficou amigo do velho, Aparício Torelly, o Barão de Itararé, e passou a pesquisar sua história e sua obra, a coleção completa de seu jornal "A Manha" e de seus clássicos "Almanhaques". Entrevistou irmão, filhos, amigos e contemporâneos de imprensa, como Rubem Braga, Otavio Malta, Magalhães Junior, Joel Silveira, Mario da Silva Brito, Raul Ryff.
Ipojuca
Logo depois, em novembro de 71, o Barão morreu, aos 76 anos. Nasceu em 1895, pai gaúcho, mãe uruguaia. Em dezembro de 81, o diretor Justino Martins sugeriu e Ipojuca escreveu longa matéria para a "Manchete" : - "A Falta Que Faz o Humor do Barão de Itararé". O cartunista Fortuna e o ator Armando Borgus sugeriram que o texto virasse uma peça de teatro.
Na pequena rua Esteves Junior, perto do Largo do Machado, no Flamengo, no Rio, um velho magro, franzino, frágil, de barbas brancas, arfando e falando coisas incompreensíveis com voz sumida, perseguia um pivete que escapulia com um aparelho de TV.
Um jovem teatrólogo e cineasta paraibano, que morava por ali, na praça São Salvador, e estava indo almoçar no restaurante Lamas, viu, gritou, outras pessoas ajudaram a cercar o pivete, que desapareceu rua afora, mas largou a televisão no chão. Era de uma glória nacional, já a caminho do fim da vida, que se divertia vendo sua TV, posta no parapeito da janela do apartamento.
Ipojuca Pontes ficou amigo do velho, Aparício Torelly, o Barão de Itararé, e passou a pesquisar sua história e sua obra, a coleção completa de seu jornal "A Manha" e de seus clássicos "Almanhaques". Entrevistou irmão, filhos, amigos e contemporâneos de imprensa, como Rubem Braga, Otavio Malta, Magalhães Junior, Joel Silveira, Mario da Silva Brito, Raul Ryff.
Ipojuca
Logo depois, em novembro de 71, o Barão morreu, aos 76 anos. Nasceu em 1895, pai gaúcho, mãe uruguaia. Em dezembro de 81, o diretor Justino Martins sugeriu e Ipojuca escreveu longa matéria para a "Manchete" : - "A Falta Que Faz o Humor do Barão de Itararé". O cartunista Fortuna e o ator Armando Borgus sugeriram que o texto virasse uma peça de teatro.
Ipojuca escreveu "A Manha do Barão", um monólogo teatral. E entregou a Chico Anísio. Ninguém melhor para encarnar o sarcasmo político e a genialidade do Barão. Mas Chico Anísio perdeu o texto. E não havia cópia.
Agora, uma bendita e milagreira funcionária da SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais) encontrou nos arquivos o original desaparecido da peça.O momento nacional é perfeito para levá-la ao palco. E vai ser levada.
No Sul
Um humor vindo de longe. No colégio dos jesuítas, em São Leopoldo, aos 10 anos, fez seu primeiro jornal, clandestino, "O Capim Seco", todo escrito por ele e à mão. Em Porto Alegre, publicou um livro de poesia,"Pontas de Cigarro, de Versos Diversos", e criou um jornal de humor, "O Chico".
Estudou medicina, parou no quarto ano: - "O que eu queria era estudar direito : ser contra ou a favor, dependendo de quem estivesse a favor ou contra. Mas meu pai me disse para ser médico, basta assinar receitas e atestados de óbitos. Sabe o que significa as duas cobras que estão no anel do médico? Que o médico cobra duas vezes. Se cura, cobra. Se mata, cobra".
Numa prova, o examinador mostrou-lhe um osso : - "Conhece este osso"? - "Não senhor". - "Então eu lhe apresento : é um fêmur". Ele apertou a ponta do osso : - "Muito prazer". O examinador, já com raiva: -"Quantos rins nós temos"? -"Quatro". -"Quatro"? -"Sim, dois meus e dois seus". Reprovado.
No Rio
Em 25, veio para o Rio, trabalhou no "Globo", que nascia, e no "A Manhã", de Mario Rodrigues, pai do Nelson. Em 26, fundou "A Manha" - "órgão de ataques...de riso", "um jornal que não se vende, apenas se troca... por quinhentos reis". Implacável e profético com os governos e os políticos : - "O mistério de hoje pode ser o ministério de amanhã".
Depois de 30, virou o "Barão de Itararé". Chamava Getúlio de "G.Tulio Dor Nelles Vargas". Em 33, começou no "Jornal do Povo" umas matérias sobre João Candido, o marinheiro negro que liderou a "revolta da chibata", em 1910, contra os castigos corporais na Marinha e por melhores soldos. Só sairam duas. Seqüestrado por oficiais da Marinha, levado para a Barra da Tijuca, espancado e deixado nu, a cabeça raspada, as roupas jogadas na redação. Voltou e pôs uma placa na porta do jornal: - "Entre sem bater".
No PCB
Membro da ANL (Aliança Nacional Libertadora), foi preso no levante comunista de 35. "A Manha" fechou e ele foi para a cadeia, companheiro de Graciliano Ramos e tantos outros na Frei Caneca. Anistiado em 45, agradeceu:
- "Anistia é um ato pelo qual os governos resolvem perdoar generosamente as injustiças e os crimes que eles mesmos cometeram".
"A Manha" voltou e em janeiro de 47 ele se elegeu vereador do Rio pelo PCB, a maior bancada, liderada pelo bravo e inesquecível Agildo Barata. Quando, em 48, o PCB foi posto na ilegalidade e seus representantes, senador, deputados e vereadores, perderam os mandatos, o Barão foi à tribuna:
- "Senhor presidente, senhores vereadores, senhoras e senhores das galerias, neste momento deixo a vida pública para me recolher à privada".
Na história
Entrou na história com suas frases, sabedorias, que o País repete :
- "Temos dois grupos de heróis: os que o País chora por terem morrido e os que o País chora por não terem morrido" - "O voto deve ser rigorosamente secreto : para o eleitor não ter vergonha de seu candidato". - "Prenderam-me por ter conversado com Prestes. Impossível. Com Prestes ninguém conversa. Ele fala sozinho" - "João Neves da Fontoura é como disco voador : pequeno, chato e ninguém acredita nele" - "O Estado Novo é o estado a que chegamos"