terça-feira, junho 05, 2007

Choque de realidade

Por J. R. Guzzo, Vida Real, Revista Exame

Sempre que recomeça no Brasil a discussão para descobrir se a economia está ou não indo bem e, em qualquer dos casos, por que cresce tão devagar e tão mal, não demora a aparecer um choque de realidade. O último está aí, na forma de mais um escândalo maciço envolvendo uma construtora de obras públicas, contratos para prestar serviços superfaturados ou inexistentes ao governo e a compra por atacado de políticos e altos funcionários da máquina estatal. Algumas dezenas de pessoas foram presas, incluindo o ex-governador do Maranhão José Reinaldo Tavares, e o ministro das Minas e Energia, Silas Rondeau, perdeu o cargo. Que debate econômico pode ser levado a sério quando os fatos deixam claro, de novo, que uma porção cada vez maior do Estado brasileiro está sob o controle de quadrilhas que o assaltam todos os dias, antes, durante e depois do expediente? É mais ou menos como no Brasil da inflação de 40%, 60% ou 80% ao mês. Era inútil, na época, ficar esquentando a cabeça com índices da economia quando o país não conseguia sequer ter uma moeda. É inútil, agora, ficar discutindo política econômica quando não se consegue mais ter um mínimo de proteção ao dinheiro público -- o que transforma numa piada questões como execução do Orçamento, realização de obras públicas, cumprimento de planos, eficácia nos gastos do governo e por aí afora.

Fica mais simples entender o tamanho da confusão quando se constata a presença, nesse episódio, do ex-governador Tavares. É um homem que vem de longe. Numa descrição admirável, o jornalista Jânio de Freitas, da Folha de S.Paulo, resume sua carreira como uma caminhada que o levou "a ministro, a parlamentar, a governador e, nesta semana, à cadeia". Foi Freitas quem descobriu, revelou e comprovou na Folha, há exatamente 20 anos, uma das negociatas mais grotescas já cometidas na administração pública brasileira -- a fraude na licitação da ferrovia Norte­Sul, durante o governo José Sarney, envolvendo contratos no valor de 2,5 bilhões de dólares. O ministro dos Transportes e responsável pela obra era José Reinaldo Tavares. Passados 20 anos, ele está aí outra vez. E, passados 20 anos, a ferrovia ainda não está pronta. É o crescimento à brasileira.