Por Marcelo Onaga, EXAME
“Nas últimas décadas, o México tem funcionado como uma espécie de laboratório à distância para a economia brasileira. Práticas adotadas pelos mexicanos tornaram-se exemplos para várias medidas implantadas mais tarde por aqui. Exemplos nem sempre sadios, é bom lembrar -- caso do desastrado calote na dívida externa, decretado em 1982 pelo então presidente José López Portillo, e copiado cinco anos depois pelo brasileiro José Sarney. Bem mais positiva foi a inspiração mexicana, no final dos anos 90, para a adoção pelo Brasil do regime de câmbio flutuante e metas de inflação após a conturbada desvalorização do real, um script semelhante ao seguido com sucesso pelo país vizinho anos antes. Agora, em meio ao intenso debate sobre a possibilidade de o Brasil conquistar o grau de investimento concedido pelas agências de avaliação de risco, o México volta a ser lembrado como modelo do que pode ocorrer na economia brasileira (...)”.
“(...) Ostentando o grau de investimento desde março de 2000, quando a agência Moody's reconheceu um aumento em sua capacidade de honrar compromissos, o México é um exemplo de que estabilidade econômica e credibilidade trazem grandes benefícios, como a queda acentuada dos juros. Mas que, sozinhas, essas melhorias não têm a capacidade de fazer a economia crescer de forma sustentável e prolongada. Desde que atingiu o grau de investimento, o México viu sua taxa básica de juro cair dos cerca de 20% ao ano no começo de 2000 para 7,5% em março deste ano. A taxa real, descontada a inflação, está em torno de 3,5% ao ano, semelhante à de muitos países desenvolvidos. Juros nesse patamar habitam os sonhos de muitos economistas e empresários brasileiros, que vêem nas taxas baixas a panacéia para problemas como o fraco crescimento da economia do país. O caso mexicano, no entanto, mostra que não é bem assim. O produto interno bruto (PIB) do México cresceu, em média, 2,9% nos últimos sete anos, já sob os efeitos da obtenção do grau de investimento. Menos que os já pífios 3,1% do Brasil no período e metade dos cerca de 6% da média dos países emergentes(...)”
“(...) Não é simples comparar diferentes países e tentar tirar ensinamentos que possam ser transportados para outra realidade. A economia brasileira é mais bem estruturada, sofisticada e diversificada, tanto em termos de atividades quanto de mercados consumidores. Os mexicanos dependem fundamentalmente da exploração de petróleo -- na verdade, de uma única empresa, a estatal Pemex, responsável por 40% da receita do governo. Para agravar o quadro, a Pemex passa atualmente por uma crise de produção, já que os gastos do governo em outras áreas têm drenado recursos de investimentos em novos poços. As diferenças surgem também nos mercados acionários. Enquanto a bolsa brasileira conta com 415 empresas listadas, há apenas 133 companhias de capital aberto no México. "Além disso, as dez maiores empresas concentram 75% do que é movimentado pela bolsa local", diz Cassiana Fernandez, economista da gestora de recursos Mauá Investimentos. "No Brasil, as dez maiores respondem por menos da metade do movimento."
(...) Cuidados à parte na hora de traçar paralelos, o fato é que o México emite sinais que merecem uma análise cuidadosa por parte dos brasileiros. Nos últimos anos, os mexicanos sentiram na pele os dois lados da globalização -- tanto os enormes benefícios que ela propicia como os muitos desafios que impõe. Depois de passar décadas patinando num misto de autoritarismo e populismo econômico, o governo mexicano deu uma guinada em 1994 com a assinatura do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, da sigla em inglês). O Nafta foi decisivo para que o país saísse de uma profunda crise econômica e atraísse empresas interessadas em investir em seu território, de olho na mão-de-obra mais barata que a de Estados Unidos e Canadá, os outros membros do bloco. O investimento estrangeiro direto triplicou, saindo de cerca de 4 bilhões de dólares em 1993 para 12 bilhões em 1994. Hoje, está na casa dos 19 bilhões de dólares, praticamente o mesmo volume captado pelo Brasil. Com a criação do Nafta, empresas condenadas ao nanismo pelo precário mercado mexicano tornaram-se potências. Caso da Mabe, hoje maior fabricante de eletrodomésticos de linha branca da América Latina, com faturamento de 3,5 bilhões de dólares. Há 20 anos, a receita da Mabe, que só vendia aos mexicanos, não chegava a 100 milhões de dólares. Mais da metade das vendas atuais da empresa, pouco mais de 1,8 bilhão de dólares, é para Estados Unidos e Canadá. Outro 1,1 bilhão sai de países da América Latina. O mercado mexicano representa apenas 14% do faturamento, com 500 milhões de dólares (...)”.
“(...) A abertura comercial e a estabilidade econômica permitiram que o México galgasse posições nos mercados internacionais e atingisse o sonhado grau de investimento. Os capitais fluíram com mais intensidade, a taxa de juro caiu e o país viveu uma verdadeira revolução em alguns setores, como o imobiliário. Mais recentemente, porém, a globalização mostrou sua outra face, mais temível. Produtos chineses passaram a invadir o mercado americano, destino de 86% das exportações do México. Com isso, a capacidade de o país crescer ficou reduzida. A sensação atual é que será muito difícil, no curto prazo, reconquistar competitividade frente aos rivais asiáticos(...)”.
“(...) No que diz respeito à abertura comercial, o Brasil tem sido muito mais tímido do que o México. "O governo brasileiro prefere negociar com a Bolívia, e sair perdendo, a negociar com os Estados Unidos", diz o economista Paulo Leme, diretor para mercados emergentes do banco Goldman Sachs nos Estados Unidos. O principal mercado comum do qual o Brasil participa, o Mercosul, vai de mal a pior. E hoje ninguém mais sequer discute a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), que abriria o mercado americano às empresas brasileiras. "A falta de mais acordos limita nossa capacidade de crescer", diz Leme. Por outro lado, o Brasil tem uma pauta de exportações bem mais diversificada geograficamente, sem nem sombra da dependência mexicana de um único mercado. Além disso, o Brasil tem na China não apenas um competidor incansável mas também um importante mercado, para onde se exportam de minério de ferro da Vale a aviões da Embraer(...)”
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“(...) "A falta de reformas é o principal fator que impediu um crescimento mais vigoroso da economia mexicana", diz Luis Rubio, do Cidac. A previdenciária já foi aprovada no início do ano e a fiscal e a trabalhista devem sair até julho. Um desafio que ainda precisa ser enfrentado é o combate a monopólios e oligopólios em setores cruciais, que vão desde o energético até o de telefonia, passando pelos de cimento, cerveja e farinha de milho. Um estudo recente da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta que as tarifas de banda larga no México são as mais altas de países membros da OCDE, e as de telefone, tanto fixo como celular, estão entre as três mais caras(...)”.
“(...) Resumo da ópera: a principal mensagem que o México envia ao Brasil é que, por mais importante que seja, o grau de investimento não é capaz de destravar uma economia pouco competitiva. Nesse caso, somente reformas econômicas profundas podem dar conta do recado. "O México já engatou a quarta marcha, enquanto o Brasil ainda está em ponto morto", afirma Paulo Leme, referindo-se à demora do governo brasileiro em aprovar reformas estruturais. "Se nada for feito nesse sentido, os efeitos de um eventual alcance do grau de investimento serão mínimos"(...)”.
Reportagem completa clique aqui (assinantes).
“Nas últimas décadas, o México tem funcionado como uma espécie de laboratório à distância para a economia brasileira. Práticas adotadas pelos mexicanos tornaram-se exemplos para várias medidas implantadas mais tarde por aqui. Exemplos nem sempre sadios, é bom lembrar -- caso do desastrado calote na dívida externa, decretado em 1982 pelo então presidente José López Portillo, e copiado cinco anos depois pelo brasileiro José Sarney. Bem mais positiva foi a inspiração mexicana, no final dos anos 90, para a adoção pelo Brasil do regime de câmbio flutuante e metas de inflação após a conturbada desvalorização do real, um script semelhante ao seguido com sucesso pelo país vizinho anos antes. Agora, em meio ao intenso debate sobre a possibilidade de o Brasil conquistar o grau de investimento concedido pelas agências de avaliação de risco, o México volta a ser lembrado como modelo do que pode ocorrer na economia brasileira (...)”.
“(...) Ostentando o grau de investimento desde março de 2000, quando a agência Moody's reconheceu um aumento em sua capacidade de honrar compromissos, o México é um exemplo de que estabilidade econômica e credibilidade trazem grandes benefícios, como a queda acentuada dos juros. Mas que, sozinhas, essas melhorias não têm a capacidade de fazer a economia crescer de forma sustentável e prolongada. Desde que atingiu o grau de investimento, o México viu sua taxa básica de juro cair dos cerca de 20% ao ano no começo de 2000 para 7,5% em março deste ano. A taxa real, descontada a inflação, está em torno de 3,5% ao ano, semelhante à de muitos países desenvolvidos. Juros nesse patamar habitam os sonhos de muitos economistas e empresários brasileiros, que vêem nas taxas baixas a panacéia para problemas como o fraco crescimento da economia do país. O caso mexicano, no entanto, mostra que não é bem assim. O produto interno bruto (PIB) do México cresceu, em média, 2,9% nos últimos sete anos, já sob os efeitos da obtenção do grau de investimento. Menos que os já pífios 3,1% do Brasil no período e metade dos cerca de 6% da média dos países emergentes(...)”
“(...) Não é simples comparar diferentes países e tentar tirar ensinamentos que possam ser transportados para outra realidade. A economia brasileira é mais bem estruturada, sofisticada e diversificada, tanto em termos de atividades quanto de mercados consumidores. Os mexicanos dependem fundamentalmente da exploração de petróleo -- na verdade, de uma única empresa, a estatal Pemex, responsável por 40% da receita do governo. Para agravar o quadro, a Pemex passa atualmente por uma crise de produção, já que os gastos do governo em outras áreas têm drenado recursos de investimentos em novos poços. As diferenças surgem também nos mercados acionários. Enquanto a bolsa brasileira conta com 415 empresas listadas, há apenas 133 companhias de capital aberto no México. "Além disso, as dez maiores empresas concentram 75% do que é movimentado pela bolsa local", diz Cassiana Fernandez, economista da gestora de recursos Mauá Investimentos. "No Brasil, as dez maiores respondem por menos da metade do movimento."
(...) Cuidados à parte na hora de traçar paralelos, o fato é que o México emite sinais que merecem uma análise cuidadosa por parte dos brasileiros. Nos últimos anos, os mexicanos sentiram na pele os dois lados da globalização -- tanto os enormes benefícios que ela propicia como os muitos desafios que impõe. Depois de passar décadas patinando num misto de autoritarismo e populismo econômico, o governo mexicano deu uma guinada em 1994 com a assinatura do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, da sigla em inglês). O Nafta foi decisivo para que o país saísse de uma profunda crise econômica e atraísse empresas interessadas em investir em seu território, de olho na mão-de-obra mais barata que a de Estados Unidos e Canadá, os outros membros do bloco. O investimento estrangeiro direto triplicou, saindo de cerca de 4 bilhões de dólares em 1993 para 12 bilhões em 1994. Hoje, está na casa dos 19 bilhões de dólares, praticamente o mesmo volume captado pelo Brasil. Com a criação do Nafta, empresas condenadas ao nanismo pelo precário mercado mexicano tornaram-se potências. Caso da Mabe, hoje maior fabricante de eletrodomésticos de linha branca da América Latina, com faturamento de 3,5 bilhões de dólares. Há 20 anos, a receita da Mabe, que só vendia aos mexicanos, não chegava a 100 milhões de dólares. Mais da metade das vendas atuais da empresa, pouco mais de 1,8 bilhão de dólares, é para Estados Unidos e Canadá. Outro 1,1 bilhão sai de países da América Latina. O mercado mexicano representa apenas 14% do faturamento, com 500 milhões de dólares (...)”.
“(...) A abertura comercial e a estabilidade econômica permitiram que o México galgasse posições nos mercados internacionais e atingisse o sonhado grau de investimento. Os capitais fluíram com mais intensidade, a taxa de juro caiu e o país viveu uma verdadeira revolução em alguns setores, como o imobiliário. Mais recentemente, porém, a globalização mostrou sua outra face, mais temível. Produtos chineses passaram a invadir o mercado americano, destino de 86% das exportações do México. Com isso, a capacidade de o país crescer ficou reduzida. A sensação atual é que será muito difícil, no curto prazo, reconquistar competitividade frente aos rivais asiáticos(...)”.
“(...) No que diz respeito à abertura comercial, o Brasil tem sido muito mais tímido do que o México. "O governo brasileiro prefere negociar com a Bolívia, e sair perdendo, a negociar com os Estados Unidos", diz o economista Paulo Leme, diretor para mercados emergentes do banco Goldman Sachs nos Estados Unidos. O principal mercado comum do qual o Brasil participa, o Mercosul, vai de mal a pior. E hoje ninguém mais sequer discute a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), que abriria o mercado americano às empresas brasileiras. "A falta de mais acordos limita nossa capacidade de crescer", diz Leme. Por outro lado, o Brasil tem uma pauta de exportações bem mais diversificada geograficamente, sem nem sombra da dependência mexicana de um único mercado. Além disso, o Brasil tem na China não apenas um competidor incansável mas também um importante mercado, para onde se exportam de minério de ferro da Vale a aviões da Embraer(...)”
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“(...) "A falta de reformas é o principal fator que impediu um crescimento mais vigoroso da economia mexicana", diz Luis Rubio, do Cidac. A previdenciária já foi aprovada no início do ano e a fiscal e a trabalhista devem sair até julho. Um desafio que ainda precisa ser enfrentado é o combate a monopólios e oligopólios em setores cruciais, que vão desde o energético até o de telefonia, passando pelos de cimento, cerveja e farinha de milho. Um estudo recente da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta que as tarifas de banda larga no México são as mais altas de países membros da OCDE, e as de telefone, tanto fixo como celular, estão entre as três mais caras(...)”.
“(...) Resumo da ópera: a principal mensagem que o México envia ao Brasil é que, por mais importante que seja, o grau de investimento não é capaz de destravar uma economia pouco competitiva. Nesse caso, somente reformas econômicas profundas podem dar conta do recado. "O México já engatou a quarta marcha, enquanto o Brasil ainda está em ponto morto", afirma Paulo Leme, referindo-se à demora do governo brasileiro em aprovar reformas estruturais. "Se nada for feito nesse sentido, os efeitos de um eventual alcance do grau de investimento serão mínimos"(...)”.
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