terça-feira, junho 05, 2007

Chávez, parceiro e encrenqueiro

Editorial do Jornal do Brasil

O Brasil deve ser o único país do mundo com dois ministros de Relações Exteriores - um formal e outro informal - que seguem políticas opostas simultaneamente. Enquanto o titular, Celso Amorim, trabalha freneticamente para tornar digerível o sapo em que se transformou o presidente Hugo Chávez para o Brasil, o assessor para assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, tenta convencer a população que o sapo, na realidade, sequer existe. Ou, como garante o presidente Lula, transformou-se em "parceiro". Na verdade, em qualquer hipótese, o que se ensaia é um truque de prestidigitação.

Que o venezuelano extrapolou ao referir-se ao Congresso brasileiro como "papagaio dos EUA", é tão certo quanto foi tímida a reação do governo ao episódio. Afinal, pelo menos aqui, entre os defeitos do Parlamento seguramente não está a subserviência com a qual Chávez conta. É bom lembrar, ainda, que a manifestação grosseira deriva do brutal ataque à liberdade de expressão representado pelo fechamento da rede de tevê independente RCTV.

Marco Aurélio Garcia afirma que, "do ponto de vista legal", o fechamento da RCTV não foi um ato arbitrário. Só uma leitura superficial das intenções de Chávez permitiria a exposição de um sofisma tão insustentável quanto a insistência do próprio Lula em dizer que não fala de assuntos que dizem respeito apenas à Venezuela. Como bem lembrou Augusto Nunes na coluna Sete Dias de domingo, o companheiro do PT esteve num palanque venezuelano, na inauguração de uma ponte no interior daquele país, apoiando o "parceiro" Hugo Chávez.

A estratégia do Itamaraty é a da contenção. Evitar que polêmicas inúteis abram espaço para que a liderança agressiva do regime de Caracas amplie as dificuldades de relacionamento no bloco sul-americano, prejudicando acordos bilaterais que beneficiariam o Brasil em última instância. A mesma tática vem sendo empregada com a Bolívia, com os "excelentes" resultados que o país, em especial a Petrobras, estão colhendo no altiplano, graças à prestimosa consultoria dada a Evo Morales pelo "parceiro" de Lula. Com um amigo assim, ninguém precisa de inimigos.