Arnaldo Jabor , Jornal A Gazeta (Cuiabá/MT)
No corredor da casa de minha infância, no Rocha, na antiga rua Guimarães, hoje Almirante Ari Parreiras, no fundo do corredor brilhava uma pequena imagem de Santa Terezinha do Menino Jesus, que minha mãe adorava. Com uma braçada de rosas no peito, um crucifixo na mão esquerda, ela está até hoje aqui, agora, na minha mesa, ao lado do computador. Não tem mais que um palmo de altura, está descorada pelo tempo mas, na época, ela era fosforescente. Sim, uma tinta especial dava-lhe uma aura esverdeada que iluminava fracamente o fundo do corredor tão longo, como uma promessa de milagre, de esperança. Olho a pequena estatueta na minha mão. É tão pobrezinha, de massa, mas veio da França - vejo no pedestal. O rosto da santinha está quase apagado, mas seus olhos são nítidos, dois pontos negros fixados no chão, a cabeça baixa, triste, não por ela mesma, mas como deprimida pelo mundo organizado à sua volta, nos objetos de minha mesa: o roteador wireless, o celular carregando, os fios do Ipod, numa estranha convivência que a faz, coitadinha, inatual e deslocada.
Santa Terezinha me conecta, para usar uma palavra moderna, cria um "link" entre mim e meu passado. E lembro-me que, ela se iluminava no centro de minha infância profunda, uma infância de fugas do mundo real, pois eu fugia de alguma coisa triste, muito triste que pressentia nas casas, nos vizinhos, nos amigos de meus pais, nas falas obvias e batidas, no dia-a-dia sem grandeza do bairro, como se todos obedecessem às ordens banais de chefes ignorantes e leis ridículas. Da luz de Santa Terezinha que me olha agora, apagadinha, eu fui em busca de outras luzes que me livrassem da vida mortiça do subúrbio. Lembro-me quando conheci o cinema, no Cine Palácio Vitória, que resplandecia na esquina da rua Conselheiro Mayrink, e do qual nada resta. Na escuridão, fugia para dentro dos filmes, como o "Ladrão de Bagdá", dos filmes com as odaliscas de pernas lindas, os faroestes de Randolph Scott, Tarzan.
Depois, no fim das matinês, esperava, como um pedinte, os fotogramas coloridos, restos de películas que arrebentavam nos projetores a carvão e que o velho projecionista do Palácio Vitória me dava, no caminho de casa. Eu olhava os fotogramas contra o sol, promessas de aventuras, múmias sinistras e rostos de princesas, cavalos a galope e beijos na boca e eles me levavam para longe da minha rua. Quando passava com meu pai no velho Ford 46 em frente ao morro da Mangueira, que eu achava sujo e quebrado, eu não entendia aquilo e lhe perguntava porque não "consertavam" o morro e meu pai não respondia. Eu vivia assim, vendo a vida meio de fora, com medo de cair naquele mundo que eu não entendia, que me era nebuloso, inexplicável.
Até que um dia, assisti a um teatrinho de praça. Era uma pecinha vagabunda, nem sei onde era, uma quermesse, algo assim, em que as marionetes, os bonecos pulavam, berravam e se esfaqueavam com uma estranha crueldade, uma violência espantosa para um teatro infantil. A loura boneca mamulenga caía morta, gritando sob a faca do amante, que lhe arrancava um coração de pedra vermelha. Havia uma verdade naqueles brutos mamulengos que me abriu uma clareza na alma, alguma coisa que escondiam de mim. Até hoje me lembro daquele coração arrancado.
Uma outra vez, lembro-me de uma visão melancólica e inesquecível. Nas ruas do Rio andava um velhinho preto, quase um anão, que tocava discos com canções em 78 rotações numa "vitrola": canções românticas, trechos de operetas, valsas vienenses, para ouvintes que lhe pingavam tostões. Chamava-se Camundongo (quem se lembra?), e tinha um velho caminhãozinho, um triciclo que ele improvisara e que ele movia com pedais. Tocava musica nas ruas, Francisco Alves, Orlando Silva...por vinténs...Na solidão lírica daquele Camundongo, no assassinato da boneca loura, senti que queria voar para longe, junto aos urubus que via flutuando à distancia, "dormindo na perna do vento" como me disse Tom Jobim muitos anos depois. Eu percebi que queria uma outra tristeza, mas não a tristeza geral de todo mundo que eu conhecia. Olho Santa Terezinha aqui na mesa e me lembro disso... Se escrevo sobre essas ínfimas lembranças, não é por falta de assunto, não..
Ao contrário, tenho muitos assuntos nesse Brasil de hoje. Mas são assuntos torpes, imundos, são tragédias sociais e culturais insolúveis, são ameaças, perigos, vergonhas, feias coisas que não agüento mais denunciar. E penso: que pediria à Santa Terezinha, com sua luz remota de minha infância? Não pediria a uma santa tão delicada a prisão para vagabundos, justiça para criminosos, vergonha na cara para cínicos e canalhas do Senado, as reformas inadiáveis que os imbecis sindicalistas se recusam a fazer, por estupidez e oportunismo. Nada disso ficaria bem diante de uma imagem tão frágil. Mas pediria o quê?
Já que não temos futuro, acho que pediria a volta ao passado. Alem de impedir o futuro, estão destruindo nosso passado. Estão matando as calmas tardes do subúrbio, apagando a ingenuidade dos comportamentos. Chego a sentir saudades até da precariedade de nossa vida antiga, de um mundo como menos gente louca e má. "Ah! Você por acaso quer a volta do atraso, da miséria terrivel de antes?" dirão alguns. Não, claro que não. Mas quero a volta de um alguma coisa perdida nesse pais, alguma coisa delicada que sumiu, minha santa, estou com saudades dos amores impossíveis, dos lugares-comuns, dos pactos de morte, do rubor nas faces, do chorinho e chorões, dos prantos convulsivos, dos valores toscos da classe media, do moralismo bobo, do português do botequim, do gato de armazém, do romantismo ridículo, dos pudores, dos desmaios das mulheres, das virgens nas luas de mel, de tudo que era baldio, de tudo que soava ingênuo, do futebol no radio do porteiro, das tardes cinzas, dos banhos de mar, dos carnavais sem massas, pediria sim, até a volta das ilusões. Isso eu pediria, sim, à minha Santa Terezinha, que conservo até hoje em minha mesa, com devoção de ateu.
No corredor da casa de minha infância, no Rocha, na antiga rua Guimarães, hoje Almirante Ari Parreiras, no fundo do corredor brilhava uma pequena imagem de Santa Terezinha do Menino Jesus, que minha mãe adorava. Com uma braçada de rosas no peito, um crucifixo na mão esquerda, ela está até hoje aqui, agora, na minha mesa, ao lado do computador. Não tem mais que um palmo de altura, está descorada pelo tempo mas, na época, ela era fosforescente. Sim, uma tinta especial dava-lhe uma aura esverdeada que iluminava fracamente o fundo do corredor tão longo, como uma promessa de milagre, de esperança. Olho a pequena estatueta na minha mão. É tão pobrezinha, de massa, mas veio da França - vejo no pedestal. O rosto da santinha está quase apagado, mas seus olhos são nítidos, dois pontos negros fixados no chão, a cabeça baixa, triste, não por ela mesma, mas como deprimida pelo mundo organizado à sua volta, nos objetos de minha mesa: o roteador wireless, o celular carregando, os fios do Ipod, numa estranha convivência que a faz, coitadinha, inatual e deslocada.
Santa Terezinha me conecta, para usar uma palavra moderna, cria um "link" entre mim e meu passado. E lembro-me que, ela se iluminava no centro de minha infância profunda, uma infância de fugas do mundo real, pois eu fugia de alguma coisa triste, muito triste que pressentia nas casas, nos vizinhos, nos amigos de meus pais, nas falas obvias e batidas, no dia-a-dia sem grandeza do bairro, como se todos obedecessem às ordens banais de chefes ignorantes e leis ridículas. Da luz de Santa Terezinha que me olha agora, apagadinha, eu fui em busca de outras luzes que me livrassem da vida mortiça do subúrbio. Lembro-me quando conheci o cinema, no Cine Palácio Vitória, que resplandecia na esquina da rua Conselheiro Mayrink, e do qual nada resta. Na escuridão, fugia para dentro dos filmes, como o "Ladrão de Bagdá", dos filmes com as odaliscas de pernas lindas, os faroestes de Randolph Scott, Tarzan.
Depois, no fim das matinês, esperava, como um pedinte, os fotogramas coloridos, restos de películas que arrebentavam nos projetores a carvão e que o velho projecionista do Palácio Vitória me dava, no caminho de casa. Eu olhava os fotogramas contra o sol, promessas de aventuras, múmias sinistras e rostos de princesas, cavalos a galope e beijos na boca e eles me levavam para longe da minha rua. Quando passava com meu pai no velho Ford 46 em frente ao morro da Mangueira, que eu achava sujo e quebrado, eu não entendia aquilo e lhe perguntava porque não "consertavam" o morro e meu pai não respondia. Eu vivia assim, vendo a vida meio de fora, com medo de cair naquele mundo que eu não entendia, que me era nebuloso, inexplicável.
Até que um dia, assisti a um teatrinho de praça. Era uma pecinha vagabunda, nem sei onde era, uma quermesse, algo assim, em que as marionetes, os bonecos pulavam, berravam e se esfaqueavam com uma estranha crueldade, uma violência espantosa para um teatro infantil. A loura boneca mamulenga caía morta, gritando sob a faca do amante, que lhe arrancava um coração de pedra vermelha. Havia uma verdade naqueles brutos mamulengos que me abriu uma clareza na alma, alguma coisa que escondiam de mim. Até hoje me lembro daquele coração arrancado.
Uma outra vez, lembro-me de uma visão melancólica e inesquecível. Nas ruas do Rio andava um velhinho preto, quase um anão, que tocava discos com canções em 78 rotações numa "vitrola": canções românticas, trechos de operetas, valsas vienenses, para ouvintes que lhe pingavam tostões. Chamava-se Camundongo (quem se lembra?), e tinha um velho caminhãozinho, um triciclo que ele improvisara e que ele movia com pedais. Tocava musica nas ruas, Francisco Alves, Orlando Silva...por vinténs...Na solidão lírica daquele Camundongo, no assassinato da boneca loura, senti que queria voar para longe, junto aos urubus que via flutuando à distancia, "dormindo na perna do vento" como me disse Tom Jobim muitos anos depois. Eu percebi que queria uma outra tristeza, mas não a tristeza geral de todo mundo que eu conhecia. Olho Santa Terezinha aqui na mesa e me lembro disso... Se escrevo sobre essas ínfimas lembranças, não é por falta de assunto, não..
Ao contrário, tenho muitos assuntos nesse Brasil de hoje. Mas são assuntos torpes, imundos, são tragédias sociais e culturais insolúveis, são ameaças, perigos, vergonhas, feias coisas que não agüento mais denunciar. E penso: que pediria à Santa Terezinha, com sua luz remota de minha infância? Não pediria a uma santa tão delicada a prisão para vagabundos, justiça para criminosos, vergonha na cara para cínicos e canalhas do Senado, as reformas inadiáveis que os imbecis sindicalistas se recusam a fazer, por estupidez e oportunismo. Nada disso ficaria bem diante de uma imagem tão frágil. Mas pediria o quê?
Já que não temos futuro, acho que pediria a volta ao passado. Alem de impedir o futuro, estão destruindo nosso passado. Estão matando as calmas tardes do subúrbio, apagando a ingenuidade dos comportamentos. Chego a sentir saudades até da precariedade de nossa vida antiga, de um mundo como menos gente louca e má. "Ah! Você por acaso quer a volta do atraso, da miséria terrivel de antes?" dirão alguns. Não, claro que não. Mas quero a volta de um alguma coisa perdida nesse pais, alguma coisa delicada que sumiu, minha santa, estou com saudades dos amores impossíveis, dos lugares-comuns, dos pactos de morte, do rubor nas faces, do chorinho e chorões, dos prantos convulsivos, dos valores toscos da classe media, do moralismo bobo, do português do botequim, do gato de armazém, do romantismo ridículo, dos pudores, dos desmaios das mulheres, das virgens nas luas de mel, de tudo que era baldio, de tudo que soava ingênuo, do futebol no radio do porteiro, das tardes cinzas, dos banhos de mar, dos carnavais sem massas, pediria sim, até a volta das ilusões. Isso eu pediria, sim, à minha Santa Terezinha, que conservo até hoje em minha mesa, com devoção de ateu.