domingo, agosto 12, 2007

As velhas lições da sabedoria

Villas-Bôas Corrêa , Jornal do Brasil

Remexendo na estante das velharias, encontrei um pequeno livro de 103 páginas da Livraria Pioneira Editora de São Paulo, datado de 1957, na 5ª edição e que à época alcançou enorme sucesso internacional. O título cutucará na memória dos que passaram pela faixa dos 70: A Lei de Parkinson, da autoria do professor Northcote Parkinson, que alcançou notoriedade como historiador, especializado em história econômica e sociologia, e é a fonte da Escola do Absurdo.

A tradução impecável de Silveira Sampaio desencadeia lembranças do autor de peças de sucesso para teatro e televisão, pioneiro como entrevistador bem-humorado e culto. Morreu moço e não deixou substituto.

Voltemos ao fio da meada. A Lei de Parkinson é um achado genial de transparente simplicidade. Não cabe em definição linear, vai sendo desenrolada no carretel de máximas, axiomas e exemplos que sustentam a tese da sólida burrice da burocracia autofecundante, expansiva e que se infiltra em todos os ramos da administração pública ou privada.

Nas primeiras linhas passa o seu recado: "O trabalho aumenta a fim de preencher o tempo disponível para sua conclusão. A prova disso é que o homem mais atarefado é aquele que dispõe de horas vagas". No jogo dos paradoxos, desdobra o raciocínio: "Admitindo-se que o trabalho (e especialmente o trabalho com papéis) é elástico na sua exigência de tempo, é claro que haverá pequena ou nenhuma relação entre o trabalho a ser feito e a quantidade de pessoas a executá-lo". Adiante: "O fato é que o número de funcionários e a quantidade de serviço não estão relacionados entre si. A elevação do total de empregados é governada pela Lei de Parkinson; e seria a mesma, quer o volume de serviço aumentasse, diminuísse ou mesmo desaparecesse".

Enumera as duas "forças motivo" representadas por verdades quase axiomáticas: 1) Um chefe de seção está sempre disposto a aumentar o número dos seus subordinados, desde que não sejam seus rivais; 2) Os chefes de seção inventam trabalho uns para os outros".

Convém saltar algumas páginas para aterrissar no espaço exato de maior interesse e suas implicações com o inchaço do governo do presidente Lula.

Ao analisar os esforços feitos para salvar o Conselho Privado durante o Reinado da Rainha Elizabeth I, em 1939, o autor baseia-se na comparação com o Secretariado dos Estados Unidos, que "tinha o número apropriado de cinco membros em 1789, ainda apenas sete em 1840, nove em 1901, 10 em 1913, 11 em 1945, e então, contra toda a tradição, tinha voltado novamente para 10 em 1953".

Fecha o raciocínio: "O estudo do exemplo britânico sugere que o ponto de ineficiência de um gabinete é alcançado quando o número de membros excede 20 ou 21. O Conselho da Coroa, o Conselho do Rei, o Conselho Privado tinham cada um a marca dos 20 quando seu declínio começou".

E arremata: "Estamos tentados a concluir que os gabinetes, comitês e comissões de mais de 21 estão começando a perder a realidade do poder e aqueles com número maior já a perderam há muito tempo".

Ninguém mais fala no professor Parkinson e na sua sátira ao lado ridículo e inchaços da burocracia e da administração pública.

Mas o bom senso não caduca. O ministério do presidente Lula, com a criação de mais uma secretaria com status ministerial, de encomenda para o professor Mangabeira Unger programar o futuro na visão profética de décadas, está quase alcançando o recorde de 30 titulares.

É muito, é um desperdício de gente e de dispersão de recursos. Com 10, 12 ministros, a julgar pelo volume do serviço, o governo daria conta do recado.