terça-feira, agosto 14, 2007

Terceiro mandato

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

BRASÍLIA - Não adianta buscar sinais de fumaça porque o homem fuma escondido, mas parece claro que, à medida que o tempo passa, mais se solidifica entre seus auxiliares palacianos a inevitabilidade do terceiro mandato. Inexiste, nas hostes do PT, um candidato natural, alguém de que se fale ser o candidato inconteste à sucessão de Lula. Poderiam ter sido José Dirceu ou Antônio Palocci, não fossem as artes do destino que levaram à defenestração de ambos. Olhando-se do planalto, nota-se como a planície é estéril.

Ao mesmo tempo, poucos acreditam que o candidato poderá surgir de outro partido. O petismo rejeita, desde já, Ciro Gomes, Aécio Neves (se tiver entrado para o PMDB) e, com maiores razões, Nelson Jobim. Lula colocaria o PT em frangalhos caso traduzisse em fatos a enganosa ilusão de apoiar alguém de fora.

Sendo assim, registram-se duas vertentes na legenda unificada pela obstinação de permanecer 20 ou 30 anos no poder: os que acreditam em milagres, imaginando possível a vitória de Marta Suplicy, Tarso Genro ou Jacques Wagner, e os dispostos a sacrificar a lei e a ética, pregando um terceiro mandato.

Não foi sem motivo que levantaram a abominável sugestão de se convocar uma Constituinte Exclusiva, a ser eleita junto com prefeitos e vereadores, em 2008. Acima e além da fidelidade partidária, do financiamento público das campanhas, da votação em listas partidárias e da cláusula de barreira, seria incluído o fim da reeleição com o respectivo aumento dos mandatos presidenciais, de quatro para cinco anos. Nessa hipótese, conforme juristas de aluguel já preparados para exarar seus pareceres, zeraria tudo.

Começaríamos nova etapa, uma Nova República. E se o apagador limpou o quadro-negro, todos os brasileiros poderiam concorrer. Com Constituinte Exclusiva ou sem ela, a proposta começa a pegar feito sarampo nos tempos em que não havia vacina...

Calvície enrustida
Se arrependimento fizesse cair cabelo, o presidente Lula estaria careca. Porque raras vezes em nossa História recente viu-se igual festival de fisiologismo explícito. De um lado estão os partidos da base oficial, no Congresso. De outro, o Palácio do Planalto. Encontram-se empenhados em triste queda de braço em torno de nomeações para diretorias de empresas estatais e para a administração federal direta, em troca da garantia da aprovação de projetos de interesse do governo.

Não fosse o horror do tráfego aéreo, mais a crise que envolve o senador Renan Calheiros e a desmoralização das instituições políticas, teria alcançado índices jamais vistos no noticiário. A gente se pergunta como o presidente deixou-se envolver nessa trama do "toma lá, dá cá", loteando o Executivo para manter ilusória maioria no Legislativo.

Com raras exceções, os dirigentes partidários perderam a compostura, na medida em que ameaçam não votar propostas de interesse nacional se não receberem compensações, expressas na designação de apadrinhados para o exercício de funções que não se encontram preparados para exercer. Há quem suponha Lula no limite de sua capacidade de ceder a tantas pressões. Deveria pagar para ver.

Queimaram tudo
A história é velha, mas merece ser recontada. No auge da expansão árabe, lá pelos anos setecentos depois de Cristo, o general Ibn-El-Abbas iniciou a conquista do Egito para o Islã. Avançou feito faca na manteiga pelo continente africano, queimando e arrasando o que via pela frente.

Deteve-se, porém, às portas de Alexandria. Era a capital do mundo. Diante da fabulosa biblioteca, considerada a maior da época, contendo até originais de Homero, o general hesitou. Mandou um correio a Bagdá, consultando o califa sobre o que fazer. A resposta veio logo: "Se todos esses escritos concordam com o Alcorão, devem ser queimados porque são supérfluos. Se discordam, também devem ser queimados por serem perniciosos..."

Conta a crônica que durante meses os fornos das mil termas de Alexandria foram alimentados pelo acervo da biblioteca. Por que se repete essa história? Porque o PT encontra-se às vésperas da maior de suas convenções, quando deverá consagrar o princípio já posto em prática há algum tempo, de que o Brasil divide-se entre antes e depois de sua chegada ao poder. Tudo o que havia antes em matéria de prática política é supérfluo. E tudo o que virá depois será pernicioso, caso desenvolvido fora das diretrizes do partido. A pergunta que se faz é se o califa deu as ordens.