O vazamento progressivo e direcionado de detalhes das caixas-pretas do Airbus da TAM que bateu num prédio e matou 199 pessoas e a transformação da publicidade da agonia dos pilotos em espetáculo político puseram em xeque não só a credibilidade das autoridades do Brasil perante entidades aeronáuticas do mundo todo, mas também a posição do país na política internacional.
A pressa em se apontar culpados pela maior tragédia da aviação brasileira somou-se aos interesses do governo Lula, da empresa aérea e da fabricante do avião em se eximirem da responsabilidade pelas mortes.
Apesar de as investigações estarem longe de terminar - para se ter uma idéia, as do acidente com o Fokker 100 da TAM, em 1996, não foram concluídas - a hipótese mais ventilada pelo vazamento das caixas-pretas, a do posicionamento incorreto dos manetes, é a de um erro que comandantes de A320 consideram improbabilíssimo de acontecer a dois pilotos experientes.
- O país está desacreditado. Se o Brasil não cumpre o que assinou na Convenção de Chicago (que determinou o uso exclusivo das informações de caixas-pretas para as investigações dos acidentes aéreos), vai cumprir, por exemplo, o que assinou na OMC (Organização Mundial do Comércio)? - questiona o comandante Ronaldo Jenkins, coordenador da Comissão de Segurança de Vôo do Sindicato Nacional das Empresas Aéreas (Snea).
O imbroglio começou poucos dias depois do acidente, quando os deputados Marco Maia (PT-RS) e Efraim Filho (DEM-PB), da CPI do Apagão Aéreo, foram a Washington acompanhar a entrega das caixas-pretas à National Transportation Safety Bureau (NTSB).
À época, declararam de lá mesmo que, segundo os dados, o piloto não havia tentado arremeter. Tiveram de pedir desculpas, depois de um puxão de orelha técnico do brigadeiro Jorge Kersul, chefe do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa).
- Esses vazamentos vão atrapalhar as investigações até o final. O valor técnico das transcrições divulgadas na CPI é nulo, porque elas foram "traduzidas" para o inglês e retraduzidas para o português. E ficar tecendo cenários hipotéticos à medida que surge cada nova informação vai contra o método correto, que é o inverso: criteriosa eliminação de hipóteses - critica Élnio Borges, membro do Conselho Diretor do Sindicato Nacional dos Aeronautas.
O tom melodramático da sessão de quarta-feira, quando a deputada Luciana Genro (PSOL-RS) leu a transcrição da conversa entre os pilotos momentos antes do acidente, incomodou o jurista Fábio Konder Comparato, presidente da Comissão Nacional de Defesa da Democracia da OAB. A sessão foi convocada porque partes do diálogo haviam vazado por fontes que não os parlamentares.
- Essa curiosidade mórbida dos agentes públicos é uma imoralidade, um desrespeito à memória e à família dos pilotos. Se houve caráter político, é uma perversão a mais. Houve falta grave, que deveria ser analisada pelo Conselho de Ética da Câmara - exige o jurista.
As últimas palavras do vice-presidente da comissão, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ex-aliado de Anthony Garotinho e um dos principais negociadores de cargos no governo, diante das câmeras na fatídica sessão são emblemáticas:
- Não gostaria de ter presenciado este momento - balbuciou, com voz embargada.
A pressa em se apontar culpados pela maior tragédia da aviação brasileira somou-se aos interesses do governo Lula, da empresa aérea e da fabricante do avião em se eximirem da responsabilidade pelas mortes.
Apesar de as investigações estarem longe de terminar - para se ter uma idéia, as do acidente com o Fokker 100 da TAM, em 1996, não foram concluídas - a hipótese mais ventilada pelo vazamento das caixas-pretas, a do posicionamento incorreto dos manetes, é a de um erro que comandantes de A320 consideram improbabilíssimo de acontecer a dois pilotos experientes.
- O país está desacreditado. Se o Brasil não cumpre o que assinou na Convenção de Chicago (que determinou o uso exclusivo das informações de caixas-pretas para as investigações dos acidentes aéreos), vai cumprir, por exemplo, o que assinou na OMC (Organização Mundial do Comércio)? - questiona o comandante Ronaldo Jenkins, coordenador da Comissão de Segurança de Vôo do Sindicato Nacional das Empresas Aéreas (Snea).
O imbroglio começou poucos dias depois do acidente, quando os deputados Marco Maia (PT-RS) e Efraim Filho (DEM-PB), da CPI do Apagão Aéreo, foram a Washington acompanhar a entrega das caixas-pretas à National Transportation Safety Bureau (NTSB).
À época, declararam de lá mesmo que, segundo os dados, o piloto não havia tentado arremeter. Tiveram de pedir desculpas, depois de um puxão de orelha técnico do brigadeiro Jorge Kersul, chefe do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa).
- Esses vazamentos vão atrapalhar as investigações até o final. O valor técnico das transcrições divulgadas na CPI é nulo, porque elas foram "traduzidas" para o inglês e retraduzidas para o português. E ficar tecendo cenários hipotéticos à medida que surge cada nova informação vai contra o método correto, que é o inverso: criteriosa eliminação de hipóteses - critica Élnio Borges, membro do Conselho Diretor do Sindicato Nacional dos Aeronautas.
O tom melodramático da sessão de quarta-feira, quando a deputada Luciana Genro (PSOL-RS) leu a transcrição da conversa entre os pilotos momentos antes do acidente, incomodou o jurista Fábio Konder Comparato, presidente da Comissão Nacional de Defesa da Democracia da OAB. A sessão foi convocada porque partes do diálogo haviam vazado por fontes que não os parlamentares.
- Essa curiosidade mórbida dos agentes públicos é uma imoralidade, um desrespeito à memória e à família dos pilotos. Se houve caráter político, é uma perversão a mais. Houve falta grave, que deveria ser analisada pelo Conselho de Ética da Câmara - exige o jurista.
As últimas palavras do vice-presidente da comissão, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ex-aliado de Anthony Garotinho e um dos principais negociadores de cargos no governo, diante das câmeras na fatídica sessão são emblemáticas:
- Não gostaria de ter presenciado este momento - balbuciou, com voz embargada.
COMENTANDO A NOTÍCIA: Não me surpreenderia se, por detrás destes vazamentos, não se encontrem digitais do Palácio Planalto. A forma como as informações foram sendo "liberadas" parecem seguir um certo roteiro, como se alguém estivesse pilotando as informações, buscando criar um certo clima de culpabilidade ora dos pilotos, ora da empresa fabricante, afastando assim qualquer vestígio de culpabilidade do governo Lula. Sei não, mas estes vazamentos seguem uma sequência determinada demais para só serem só "vazamentos" inocentes.