Marcos Guterman, Estadão online
Mangabeira Unger, titular da Secretaria de Planejamento de Longo Prazo da Presidência da República, afirmou que as Forças Armadas brasileiras “não podem existir para ajudar outra potência a policiar o mundo”, e sim “para defender o Brasil”. Ainda que o filósofo tenha negado, fica difícil desvincular sua declaração do fato de que o Brasil mantém tropas no Haiti – e isso revela, ao fim e ao cabo, que a retórica antiamericana no país é mais forte do que se supunha.
A presente crise haitiana se acentuou em fevereiro de 2004, quando grupos armados de oposição ao presidente Aristide iniciaram uma revolta. Antes que os choques se transformassem em conflito generalizado, Aristide abandonou o Haiti. Naquele momento, EUA e França já estavam com tropas no país, com autorização da ONU, para controlar a situação. Mais tarde, Aristide disse que não renunciou, e sim foi derrubado num golpe de Estado patrocinado por americanos e franceses.
A denúncia foi um prato cheio para quem já estava inclinado liminarmente a acusar os EUA de intervir no Haiti. Mas esse tipo de antiamericanismo é tosco, porque desconsidera, por exemplo, as motivações do próprio Aristide, sem mencionar o perigo iminente de um banho de sangue no Haiti. O caso de Unger é mais, por assim dizer, sofisticado. Ele segue uma espécie de tradição nas relações diplomáticas brasileiras com Washington, qual seja, a de que o Brasil deve sempre ser o contraponto dos EUA.
Na história republicana do Brasil, houve apenas dois momentos claros de alinhamento automático com os EUA – no início do século 20 e em alguns anos do regime militar. Pode-se mencionar também a intensa relação entre Bill Clinton e FHC, mas aí não era diplomacia, e sim camaradagem. Com Bush, o mesmo FHC criticou duramente os EUA, em famoso discurso na França, um mês depois do 11 de Setembro, no qual sublinhou que “a barbárie não é somente a covardia do terrorismo, mas também a intolerância ou a imposição de políticas unilaterais em escala planetária”. Os EUA haviam acabado de sofrer o maior atentado terrorista da história, mas o presidente brasileiro julgou por bem sugerir que uma parte da culpa pelo episódio cabia à vítima.
Esse tipo de reação, assim como a de Unger, embute a visão segundo a qual o Brasil é potência mundial indiscutível, em posição de exercer influência crítica sobre os EUA e de liderar outras nações com a missão de ditar a agenda na relação com Washington. Um simples exame das transações econômicas entre os dois países, no entanto, mostra considerável dependência do Brasil em relação aos EUA, e não o contrário.
Em lugar de aceitar sua posição de figurante no cenário hemisférico e aproveitar-se dos bons negócios com os EUA que certamente adviriam disso, o Brasil prefere o “nacionalismo negativo” de que falava o chanceler San Tiago Dantas, isto é, uma atitude intransigente em relação aos americanos, como forma de confrontar a hegemonia de Washington.
Isso faz o Brasil passar certos constrangimentos, como quando propõe um modelo de reforma “democrática” da ONU – intenção incompatível com a necessidade pragmática de equilíbrio geopolítico de poder, salvaguardado pelas potências integrantes do Conselho de Segurança. Ou quando um ministro de Estado acredita que, ao liderar a missão de paz da ONU no Haiti, o Brasil esteja atuando na verdade como “polícia” a serviço dos EUA.
Episódios como a declaração de Unger apenas reforçam a sensação de que o Brasil tem dificuldades para compreender questões de segurança internacional e as tarefas precípuas das grandes potências, entre as quais está, sim, a de “policiar” o mundo. Se o Brasil tiver realmente o desejo de ser uma dessas potências, é bom que contenha os arroubos juvenis e comece a aceitar o mundo como ele é.
Mangabeira Unger, titular da Secretaria de Planejamento de Longo Prazo da Presidência da República, afirmou que as Forças Armadas brasileiras “não podem existir para ajudar outra potência a policiar o mundo”, e sim “para defender o Brasil”. Ainda que o filósofo tenha negado, fica difícil desvincular sua declaração do fato de que o Brasil mantém tropas no Haiti – e isso revela, ao fim e ao cabo, que a retórica antiamericana no país é mais forte do que se supunha.
A presente crise haitiana se acentuou em fevereiro de 2004, quando grupos armados de oposição ao presidente Aristide iniciaram uma revolta. Antes que os choques se transformassem em conflito generalizado, Aristide abandonou o Haiti. Naquele momento, EUA e França já estavam com tropas no país, com autorização da ONU, para controlar a situação. Mais tarde, Aristide disse que não renunciou, e sim foi derrubado num golpe de Estado patrocinado por americanos e franceses.
A denúncia foi um prato cheio para quem já estava inclinado liminarmente a acusar os EUA de intervir no Haiti. Mas esse tipo de antiamericanismo é tosco, porque desconsidera, por exemplo, as motivações do próprio Aristide, sem mencionar o perigo iminente de um banho de sangue no Haiti. O caso de Unger é mais, por assim dizer, sofisticado. Ele segue uma espécie de tradição nas relações diplomáticas brasileiras com Washington, qual seja, a de que o Brasil deve sempre ser o contraponto dos EUA.
Na história republicana do Brasil, houve apenas dois momentos claros de alinhamento automático com os EUA – no início do século 20 e em alguns anos do regime militar. Pode-se mencionar também a intensa relação entre Bill Clinton e FHC, mas aí não era diplomacia, e sim camaradagem. Com Bush, o mesmo FHC criticou duramente os EUA, em famoso discurso na França, um mês depois do 11 de Setembro, no qual sublinhou que “a barbárie não é somente a covardia do terrorismo, mas também a intolerância ou a imposição de políticas unilaterais em escala planetária”. Os EUA haviam acabado de sofrer o maior atentado terrorista da história, mas o presidente brasileiro julgou por bem sugerir que uma parte da culpa pelo episódio cabia à vítima.
Esse tipo de reação, assim como a de Unger, embute a visão segundo a qual o Brasil é potência mundial indiscutível, em posição de exercer influência crítica sobre os EUA e de liderar outras nações com a missão de ditar a agenda na relação com Washington. Um simples exame das transações econômicas entre os dois países, no entanto, mostra considerável dependência do Brasil em relação aos EUA, e não o contrário.
Em lugar de aceitar sua posição de figurante no cenário hemisférico e aproveitar-se dos bons negócios com os EUA que certamente adviriam disso, o Brasil prefere o “nacionalismo negativo” de que falava o chanceler San Tiago Dantas, isto é, uma atitude intransigente em relação aos americanos, como forma de confrontar a hegemonia de Washington.
Isso faz o Brasil passar certos constrangimentos, como quando propõe um modelo de reforma “democrática” da ONU – intenção incompatível com a necessidade pragmática de equilíbrio geopolítico de poder, salvaguardado pelas potências integrantes do Conselho de Segurança. Ou quando um ministro de Estado acredita que, ao liderar a missão de paz da ONU no Haiti, o Brasil esteja atuando na verdade como “polícia” a serviço dos EUA.
Episódios como a declaração de Unger apenas reforçam a sensação de que o Brasil tem dificuldades para compreender questões de segurança internacional e as tarefas precípuas das grandes potências, entre as quais está, sim, a de “policiar” o mundo. Se o Brasil tiver realmente o desejo de ser uma dessas potências, é bom que contenha os arroubos juvenis e comece a aceitar o mundo como ele é.