Por J. R. Guzzo, Vida Real, Revista EXAME
Ao aceitar a denúncia feita pelo procurador-geral da República contra alguns dos principais caciques da legenda, o Supremo Tribunal Federal evidenciou o estado de agonia terminal em que se encontra o Partido dos Trabalhadores
Acaba de ser passado pelo Supremo Tribunal Federal o atestado de óbito do PT na condição de partido político que tinha como compromissos, assumidos na sua fundação, em 1980, defender os trabalhadores, promover o socialismo e lutar pela causa do bem em geral. Com a decisão de aceitar a denúncia feita pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, contra 40 peixes graúdos do partido, do governo e do seu sistema de apoio, o STF deixa à vista de todos, enfim, as realidades de uma organização que após lutar por mais de 20 anos para conquistar o poder foi a pique assim que chegou lá.
Continua a existir e continua mandando no governo, faz discurso e se reúne em convenção nacional, mas transformou-se em outra coisa. Sua marca principal, hoje, é ter na condição de réus, como corruptores ativos e quadrilheiros, um dos seus ex-presidentes e aquele que foi o mais importante ministro do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva -- além de estar associado, considerando-se o conjunto dos 40 denunciados, na prática de sete diferentes crimes previstos no Código Penal Brasileiro. No resto do tempo, dedica-se a arrumar empregos públicos para a companheirada, atender clientes e colocar-se a serviço do senador Renan Calheiros.
O Partido dos Trabalhadores entrou em agonia terminal quando um assessor graduado do ex-ministro José Dirceu, o homem mais forte do governo Lula, foi filmado tratando de receber propina de empresários do jogo. Entrou nessa agonia porque quis: em vez de repudiar com clareza a conduta do assessor e adotar uma postura de vigilância máxima para evitar a repetição de episódios do mesmo tipo, o governo e o PT optaram por formar uma barreira de proteção em torno do ex-ministro Dirceu. Fizeram isso por considerar que a "oposição de direita", apoiada pela "mídia" e pelas "elites", estava querendo aproveitar o caso para desestabilizar o governo. A partir daí não havia mais conserto possível para o estrago. A atitude de empurrar tudo para baixo do tapete foi interpretada como uma licença geral para delinqüir -- e, inevitavelmente, a casa acabou caindo. Caiu no dia em que apareceu para todo o Brasil a foto de um diretor dos Correios recebendo e colocando no bolso um pacotinho de dinheiro dado a ele por um corruptor ativo. Daí passou-se ao mensalão, aos caixa 2 e à seqüência de crimes que desembocaram, enfim, na decisão tomada pelo STF na semana passada.
Durante todo esse período o PT não mudou nada e não esqueceu nada. Ficou, sempre, na mesma recusa em reconhecer a realidade e na mesma insistência em jogar a culpa nos outros. Contava, no fundo, com a impunidade, que é a regra no sistema judiciário do Brasil, onde a lei não atinge praticamente nunca os que têm influência e dinheiro para pagar advogados caros, como, aliás, os que desfilaram em defesa dos 40 diante do STF. Acabou dando tudo errado, duas vezes. Em primeiro lugar porque todos acabaram indiciados. Em segundo lugar porque desta vez, definitivamente, não vai dar para dizer que o governo es tá sendo vítima de uma conspiração. Não foi a mídia, a oposição de direita ou o movimento Cansei que nomearam seis dos dez ministros do STF que aceitaram a denúncia -- foi o próprio presidente Lula, que, por sinal, acaba de nomear um sétimo membro para a Corte Suprema. Também foi Lula, e mais ninguém, quem nomeou para seu cargo o autor da denúncia, o procurador-geral Antonio Fernando de Souza. Os adversários do governo, portanto, não têm nada a ver com o que aconteceu. Como sair de uma sinuca dessas?
O episódio, naturalmente, não está encerrado. Agora os réus terão de ser julgados e para haver condenações suas culpas terão de ser provadas. Começa a fase do agravo de desembargo contra o embargo de desagravo, com todas as protelações garantidas pelo delirante sistema legal em vigor no país, e nem Deus sabe quando isso tudo vai acabar; pelo modo de operar da Justiça brasileira, um processo contra a base aliada do faraó Ramsés I estaria rolando até hoje. Desta vez, porém, os vagares do sistema judiciário não interessam a uma boa parte dos réus -- ao contrário, são uma trava em suas carreiras políticas. Além disso, o simples fato de a história toda não ter sido enterrada já está de bom tamanho. É o que dá, no momento.
Ao aceitar a denúncia feita pelo procurador-geral da República contra alguns dos principais caciques da legenda, o Supremo Tribunal Federal evidenciou o estado de agonia terminal em que se encontra o Partido dos Trabalhadores
Acaba de ser passado pelo Supremo Tribunal Federal o atestado de óbito do PT na condição de partido político que tinha como compromissos, assumidos na sua fundação, em 1980, defender os trabalhadores, promover o socialismo e lutar pela causa do bem em geral. Com a decisão de aceitar a denúncia feita pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, contra 40 peixes graúdos do partido, do governo e do seu sistema de apoio, o STF deixa à vista de todos, enfim, as realidades de uma organização que após lutar por mais de 20 anos para conquistar o poder foi a pique assim que chegou lá.
Continua a existir e continua mandando no governo, faz discurso e se reúne em convenção nacional, mas transformou-se em outra coisa. Sua marca principal, hoje, é ter na condição de réus, como corruptores ativos e quadrilheiros, um dos seus ex-presidentes e aquele que foi o mais importante ministro do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva -- além de estar associado, considerando-se o conjunto dos 40 denunciados, na prática de sete diferentes crimes previstos no Código Penal Brasileiro. No resto do tempo, dedica-se a arrumar empregos públicos para a companheirada, atender clientes e colocar-se a serviço do senador Renan Calheiros.
O Partido dos Trabalhadores entrou em agonia terminal quando um assessor graduado do ex-ministro José Dirceu, o homem mais forte do governo Lula, foi filmado tratando de receber propina de empresários do jogo. Entrou nessa agonia porque quis: em vez de repudiar com clareza a conduta do assessor e adotar uma postura de vigilância máxima para evitar a repetição de episódios do mesmo tipo, o governo e o PT optaram por formar uma barreira de proteção em torno do ex-ministro Dirceu. Fizeram isso por considerar que a "oposição de direita", apoiada pela "mídia" e pelas "elites", estava querendo aproveitar o caso para desestabilizar o governo. A partir daí não havia mais conserto possível para o estrago. A atitude de empurrar tudo para baixo do tapete foi interpretada como uma licença geral para delinqüir -- e, inevitavelmente, a casa acabou caindo. Caiu no dia em que apareceu para todo o Brasil a foto de um diretor dos Correios recebendo e colocando no bolso um pacotinho de dinheiro dado a ele por um corruptor ativo. Daí passou-se ao mensalão, aos caixa 2 e à seqüência de crimes que desembocaram, enfim, na decisão tomada pelo STF na semana passada.
Durante todo esse período o PT não mudou nada e não esqueceu nada. Ficou, sempre, na mesma recusa em reconhecer a realidade e na mesma insistência em jogar a culpa nos outros. Contava, no fundo, com a impunidade, que é a regra no sistema judiciário do Brasil, onde a lei não atinge praticamente nunca os que têm influência e dinheiro para pagar advogados caros, como, aliás, os que desfilaram em defesa dos 40 diante do STF. Acabou dando tudo errado, duas vezes. Em primeiro lugar porque todos acabaram indiciados. Em segundo lugar porque desta vez, definitivamente, não vai dar para dizer que o governo es tá sendo vítima de uma conspiração. Não foi a mídia, a oposição de direita ou o movimento Cansei que nomearam seis dos dez ministros do STF que aceitaram a denúncia -- foi o próprio presidente Lula, que, por sinal, acaba de nomear um sétimo membro para a Corte Suprema. Também foi Lula, e mais ninguém, quem nomeou para seu cargo o autor da denúncia, o procurador-geral Antonio Fernando de Souza. Os adversários do governo, portanto, não têm nada a ver com o que aconteceu. Como sair de uma sinuca dessas?
O episódio, naturalmente, não está encerrado. Agora os réus terão de ser julgados e para haver condenações suas culpas terão de ser provadas. Começa a fase do agravo de desembargo contra o embargo de desagravo, com todas as protelações garantidas pelo delirante sistema legal em vigor no país, e nem Deus sabe quando isso tudo vai acabar; pelo modo de operar da Justiça brasileira, um processo contra a base aliada do faraó Ramsés I estaria rolando até hoje. Desta vez, porém, os vagares do sistema judiciário não interessam a uma boa parte dos réus -- ao contrário, são uma trava em suas carreiras políticas. Além disso, o simples fato de a história toda não ter sido enterrada já está de bom tamanho. É o que dá, no momento.