Por Malu Gaspar, EXAME
Mercado aquecido, brigas políticas e um programa de remuneração ultrapassado provocam revoada de altos executivos na estatal
Para os que se preocupam apenas com balanços financeiros, os recentes anúncios da Petrobras são eloqüentes. A empresa tem caixa de 10 bilhões de dólares, previsão de investimentos de 112 bilhões em cinco anos, lucros crescentes e títulos negociados na bolsa de Nova York em ritmo de blue chip americana. Em tempos de petróleo em alta e desmandos da PDVSA de Hugo Chávez, a Petrobras tem sido freqüentemente aplaudida por sua história de sucesso entre as petrolíferas estatais, como notou recentemente o diário econômico americano The Wall Street Journal. Seu presidente, José Sérgio Gabrielli, faz planos grandiosos: quer vê-la passar de 14a a quinta maior companhia de energia do mundo até 2020. Tudo muito bom, ótimo mesmo. Mas a extraordinária performance da estatal esconde um aspecto, no mínimo, inquietante. Para sustentar sua expansão, a Petrobras terá de resolver um problema que os grandes números não mostram, mas que pode fazer a diferença num futuro próximo -- a falta de gente qualificada. Nos últimos meses, alguns dos melhores talentos da Petrobras passaram para o setor privado. O movimento, que começou discretamente em 2006, está ganhando força incomum para uma empresa pouco acostumada a perder executivos. E, até agora, não há reação à vista.
O último a deixar a Petrobras foi o gerente executivo de relações com investidores, Raul Campos, que assumiu no dia 27 a diretoria financeira do Sinergy Group, do empresário German Efromovich. Com negócios em aviação, exploração de petróleo e indústria naval, o grupo fatura 1,3 bilhão de dólares e está construindo plataformas e navios para a própria estatal, com a qual trava, inclusive, disputas judiciais sobre valores de contratos. "O desafio na Petrobras agora é de longo prazo, algo com que não me identifico mais", diz Campos, que entrou na empresa duas vezes por concurso público, a última delas há 14 anos. Campos faz parte de uma geração cujos cargos, respeitado o plano de carreira da companhia, só se alcançam após 20 anos de casa. Hoje, na Petrobras, dos 68 000 funcionários, apenas 1 000 atendem aos requisitos para assumir um dos 100 postos no topo da hierarquia, de gerente-geral a presidente. Desde abril de 2006, nove membros dessa elite (ou quase 10%) saíram, e mais desligamentos estão a caminho. Nesse estrato da companhia, é uma revoada inédita. Até recentemente, saídas como a de João Carlos de Luca, que em 1998 trocou a diretoria de exploração e produção da Petrobras pela presidência da espanhola Repsol, ou a de Jorge Camargo, que deixou de ser diretor internacional para presidir a norueguesa Statoil, em 2003, não só eram comentadas por anos como também costumavam ser acordadas com a própria Petrobras, sócia dessas multinacionais no Brasil. "Nos anos de monopólio, contratar um profissional da Petrobras era como negociar o resgate de um seqüestro, tantas as condições e ameaças", diz um headhunter que participou dessas negociações.
Fuga de cérebros
A forte concorrência no mercado de petróleo, o crescimento da economia e o boom das energias renováveis são os motores da diáspora na estatal. Dos nove executivos que deixaram a Petrobras, sete foram para empresas novas. Capitalizadas por investidores estrangeiros ou pelo mercado de ações, elas oferecem salários muito acima dos da estatal, além de pacotes de remuneração variável bastante agressivos. De acordo com o balanço da empresa, seu presidente, Gabrielli, recebe 45 000 reais por mês. O salário dos diretores é 40 000. Todos os programas de bônus por desempenho foram extintos em 2003 e restou apenas a participação nos lucros, que proporcionalmente remunera mais os funcionários que ganham menos. Tudo isso somado, os salários dos diretores da Petrobras ficam entre 700 000 e 800 000 reais por ano. É pouco se comparado às outras empresas brasileiras, de energia ou não. Segundo levantamento do Hay Group, o salário anual médio de um presidente de uma grande empresa brasileira é 2,5 milhões de reais. A gerente de planejamento de recursos humanos da Petrobras, Mariângela Mundim, diz que o movimento não preocupa, mas reconhece que a empresa tenta acelerar o desenvolvimento de lideranças. "Estamos atentos a essa situação, que realmente é incomum. Mas não temos solução ainda", diz Mariângela.
O problema é que, além dos atraentes pacotes financeiros, o setor privado oferece algo que esses executivos não vêem mais na Petrobras: a perspectiva de alcançar postos mais altos. "As pessoas estão desmotivadas por ver a meritocracia ir para o espaço. Gente que passou anos acreditando em mérito, transparência e governança hoje se dedica apenas a impedir que os indicados políticos façam besteira", diz um dos ex-Petrobras, que pede para não ser identificado. As disputas políticas na estatal estão realmente mais explícitas e disseminadas. Há alguns dias, o diretor da área de gás, Ildo Sauer, ligado ao PT, teve uma ríspida discussão com Gabrielli numa reunião da diretoria. Sauer estava revoltado com a possibilidade de perder o cargo para a presidente da BR, Maria das Graças Foster, ligada à ministra Dilma Rousseff, e questionou duramente o presidente da empresa na frente de outros cinco diretores. O diretor de abastecimento, Paulo Roberto Costa, também anda uma pilha e discutiu com jornalistas no dia em que foi divulgado que poderia perder o cargo para um apadrinhado do PTB de Walfrido dos Mares Guia, ministro de Lula. Enquanto isso, as empresas de Eike Batista já atraíram quatro ex-Petrobras. Executivos como Rodolfo Landim, ex-presidente da BR Distribuidora, e Nelson Guitti, que era diretor financeiro da BR, não só ganham um salário bem maior como se tornaram sócios da MMX, a empresa de Eike. "Procuro executivos qualificados e dou a compensação adequada. Não estou desafiando a Petrobras, pelo contrário. Tenho 30 milhões de reais em ações da estatal e adoraria que ela fosse três vezes maior que a Vale do Rio Doce", diz Eike.
Razões da revoada
Por que alguns altos executivos da Petrobras estão deixando a empresa
Mercado Aquecido
A onda de IPOs e o bom momento do setor de energia vêm aumentando a demanda por talentos e propiciando melhores salários aos executivos
Mercado aquecido, brigas políticas e um programa de remuneração ultrapassado provocam revoada de altos executivos na estatal
Para os que se preocupam apenas com balanços financeiros, os recentes anúncios da Petrobras são eloqüentes. A empresa tem caixa de 10 bilhões de dólares, previsão de investimentos de 112 bilhões em cinco anos, lucros crescentes e títulos negociados na bolsa de Nova York em ritmo de blue chip americana. Em tempos de petróleo em alta e desmandos da PDVSA de Hugo Chávez, a Petrobras tem sido freqüentemente aplaudida por sua história de sucesso entre as petrolíferas estatais, como notou recentemente o diário econômico americano The Wall Street Journal. Seu presidente, José Sérgio Gabrielli, faz planos grandiosos: quer vê-la passar de 14a a quinta maior companhia de energia do mundo até 2020. Tudo muito bom, ótimo mesmo. Mas a extraordinária performance da estatal esconde um aspecto, no mínimo, inquietante. Para sustentar sua expansão, a Petrobras terá de resolver um problema que os grandes números não mostram, mas que pode fazer a diferença num futuro próximo -- a falta de gente qualificada. Nos últimos meses, alguns dos melhores talentos da Petrobras passaram para o setor privado. O movimento, que começou discretamente em 2006, está ganhando força incomum para uma empresa pouco acostumada a perder executivos. E, até agora, não há reação à vista.
O último a deixar a Petrobras foi o gerente executivo de relações com investidores, Raul Campos, que assumiu no dia 27 a diretoria financeira do Sinergy Group, do empresário German Efromovich. Com negócios em aviação, exploração de petróleo e indústria naval, o grupo fatura 1,3 bilhão de dólares e está construindo plataformas e navios para a própria estatal, com a qual trava, inclusive, disputas judiciais sobre valores de contratos. "O desafio na Petrobras agora é de longo prazo, algo com que não me identifico mais", diz Campos, que entrou na empresa duas vezes por concurso público, a última delas há 14 anos. Campos faz parte de uma geração cujos cargos, respeitado o plano de carreira da companhia, só se alcançam após 20 anos de casa. Hoje, na Petrobras, dos 68 000 funcionários, apenas 1 000 atendem aos requisitos para assumir um dos 100 postos no topo da hierarquia, de gerente-geral a presidente. Desde abril de 2006, nove membros dessa elite (ou quase 10%) saíram, e mais desligamentos estão a caminho. Nesse estrato da companhia, é uma revoada inédita. Até recentemente, saídas como a de João Carlos de Luca, que em 1998 trocou a diretoria de exploração e produção da Petrobras pela presidência da espanhola Repsol, ou a de Jorge Camargo, que deixou de ser diretor internacional para presidir a norueguesa Statoil, em 2003, não só eram comentadas por anos como também costumavam ser acordadas com a própria Petrobras, sócia dessas multinacionais no Brasil. "Nos anos de monopólio, contratar um profissional da Petrobras era como negociar o resgate de um seqüestro, tantas as condições e ameaças", diz um headhunter que participou dessas negociações.
Fuga de cérebros
A forte concorrência no mercado de petróleo, o crescimento da economia e o boom das energias renováveis são os motores da diáspora na estatal. Dos nove executivos que deixaram a Petrobras, sete foram para empresas novas. Capitalizadas por investidores estrangeiros ou pelo mercado de ações, elas oferecem salários muito acima dos da estatal, além de pacotes de remuneração variável bastante agressivos. De acordo com o balanço da empresa, seu presidente, Gabrielli, recebe 45 000 reais por mês. O salário dos diretores é 40 000. Todos os programas de bônus por desempenho foram extintos em 2003 e restou apenas a participação nos lucros, que proporcionalmente remunera mais os funcionários que ganham menos. Tudo isso somado, os salários dos diretores da Petrobras ficam entre 700 000 e 800 000 reais por ano. É pouco se comparado às outras empresas brasileiras, de energia ou não. Segundo levantamento do Hay Group, o salário anual médio de um presidente de uma grande empresa brasileira é 2,5 milhões de reais. A gerente de planejamento de recursos humanos da Petrobras, Mariângela Mundim, diz que o movimento não preocupa, mas reconhece que a empresa tenta acelerar o desenvolvimento de lideranças. "Estamos atentos a essa situação, que realmente é incomum. Mas não temos solução ainda", diz Mariângela.
O problema é que, além dos atraentes pacotes financeiros, o setor privado oferece algo que esses executivos não vêem mais na Petrobras: a perspectiva de alcançar postos mais altos. "As pessoas estão desmotivadas por ver a meritocracia ir para o espaço. Gente que passou anos acreditando em mérito, transparência e governança hoje se dedica apenas a impedir que os indicados políticos façam besteira", diz um dos ex-Petrobras, que pede para não ser identificado. As disputas políticas na estatal estão realmente mais explícitas e disseminadas. Há alguns dias, o diretor da área de gás, Ildo Sauer, ligado ao PT, teve uma ríspida discussão com Gabrielli numa reunião da diretoria. Sauer estava revoltado com a possibilidade de perder o cargo para a presidente da BR, Maria das Graças Foster, ligada à ministra Dilma Rousseff, e questionou duramente o presidente da empresa na frente de outros cinco diretores. O diretor de abastecimento, Paulo Roberto Costa, também anda uma pilha e discutiu com jornalistas no dia em que foi divulgado que poderia perder o cargo para um apadrinhado do PTB de Walfrido dos Mares Guia, ministro de Lula. Enquanto isso, as empresas de Eike Batista já atraíram quatro ex-Petrobras. Executivos como Rodolfo Landim, ex-presidente da BR Distribuidora, e Nelson Guitti, que era diretor financeiro da BR, não só ganham um salário bem maior como se tornaram sócios da MMX, a empresa de Eike. "Procuro executivos qualificados e dou a compensação adequada. Não estou desafiando a Petrobras, pelo contrário. Tenho 30 milhões de reais em ações da estatal e adoraria que ela fosse três vezes maior que a Vale do Rio Doce", diz Eike.
Razões da revoada
Por que alguns altos executivos da Petrobras estão deixando a empresa
Mercado Aquecido
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Ingerência política
Para uma geração que passou de 15 a 20 anos brigando por espaço na hierarquia da empresa, a disseminação das nomeações políticas sepulta de vez a chance de chegar ao topo
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Fim dos bônus
A Petrobras extinguiu o bônus por desempenho em 2003, e a participação nos lucros obedece a uma lógica comunista: os menores salários recebem mais
A recente revoada de executivos só deve se intensificar, a julgar pelo depoimento de 20 profissionais ouvidos por EXAME -- entre ex-funcionários, headhunters e executivos que ainda estão na empresa. "É importante que essas saídas sirvam de alerta, porque serão cada vez mais freqüentes", diz Cláudio Costa, do Hay Group, que já participou de várias reformas do plano de carreira da empresa. "O mercado privado de petróleo e gás ainda tem muito espaço para crescer." E, por mais que a empresa argumente que as saídas não a afetarão no curto prazo, elas abastecerão os concorrentes no futuro -- levando conhecimento e informações sobre os planos da Petrobras. A empresa de petróleo e gás de Eike Batista, a OGX, prepara-se para disputar várias áreas exploratórias no litoral brasileiro no próximo leilão da Agência Nacional do Petróleo, em novembro, e pretende concorrer por campos de gás na Bolívia e no Equador. A Brenco, do ramo de etanol e dirigida pelo ex-presidente da Petrobras Henri Philippe Reichstul com a colaboração de dois executivos recém-saídos da Petrobras, está investindo 2 bilhões de dólares na implantação de dez usinas de etanol para exportação. Nos dois casos, eles concorrerão diretamente com a estatal -- com o devido auxílio de executivos criados dentro da gigante do petróleo.