terça-feira, setembro 11, 2007

Os riscos da manobra - Renan

por Augusto de Franco, site Diego Casagrande
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A resiliência de Renan - que se transformou numa afronta à democracia brasileira - tem uma explicação. É uma conseqüência do esquema de poder montado por Lula e pelo PT.

É simples. Em artigo na Folha de São Paulo no início de agosto deste ano afirmei que "o governo não tem visão, não tem proposta e não é capaz de inspirar confiança. Na ausência desses fatores, aglutinantes indispensáveis de qualquer coalizão minimamente estável de governo, o PT foi obrigado a comprar uma base de apoio com dinheiro (às vezes de forma criminosa, como no mensalão), cargos e outras prebendas, ficando nas mãos de todo tipo de oportunista, predador, corrupto e meliante que veio à política para fazer negócios. Uma base assim conformada é um problema, não uma solução".
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É isso. Renan faz parte do problema.

Como abandoná-lo sem causar mais insegurança ainda nas dezenas de outros que, como ele, participam do esquema?

Sei que soa um pouco arrogante ficar lembrando "Viram como eu tinha razão?", mas tudo isso foi previsto com grande antecedência. Em outro artigo na mesma Folha, publicado no início de maio, cantei a pedra: "se a imprensa permanecer livre, o atual governo tem grandes chances de acabar mal. Ainda que as oposições tentem, mais uma vez, salvá-lo da ruína, os aliados fisiológicos de Lula se encarregarão (em parte involuntariamente, por razões de sobrevivência) da tarefa de corroê-lo. Ontem foi o "banditismo (e a corrupção) de Estado" que veio à tona com Waldomiro-Dirceu e o mensalão. Amanhã, a natureza degenerada do governo se manifestará em outras coisas. Tanto faz. A política não é feita de coisas, mas de relações de forças. Construído sobre o discurso inverídico e inteiramente baseado na popularidade de um líder incapaz de investir no sucesso alheio, o governo Lula ainda não tem força própria para se sustentar nem capital social suficiente para aglutinar forças externas de modo duradouro. Não precisaremos esperar muito. Basta que o (falso) governo de coalizão deste segundo mandato comece a funcionar para que apareçam os sintomas de putrefação".

É isso de novo! Renan é um dos sintomas de putrefação.

Agora o governo não sabe mais o que fazer. Está dividido. Se não salvar Renan, abre um precedente perigoso (pois os outros participantes da aliança bandida vão cobrar mais caro face ao aumento do risco). Se salvar Renan, também abre um precedente perigoso (pois aumentará a sensação de inimputabilidade - que Lula deve reservar apenas para ele - incentivando um aumento em escala do assalto aos recursos públicos e todo tipo de crime). Além, é claro, de ficar mal - muito mal - com a opinião pública (a qual, apesar do que dizem as pesquisas de opinião, feitas a partir da soma das opiniões privadas da população, já está contra o governo).

Lula será obrigado, mais uma vez, a tentar dar um nó em pingo d'água. Nos bastidores vai continuar trabalhando pela absolvição de Renan. Em público vai dar a impressão de que nada tem a ver com o caso (apesar de já ter hipotecado várias vezes sua solidariedade ao acusado). Mas trata-se de manobra de tão difícil execução que exige, além de votação secreta, reunião secreta, fechada. Tudo para dificultar o cálculo de como votaram os petistas. Mesmo assim, se os oposicionistas tiverem um mínimo de vergonha na cara e declararem publicamente seu voto (como sugeriu indiretamente Lula, cometendo, aliás, um erro grave), vai ficar claro quem queria sustentá-lo.

A manobra-Renan é tão arriscada que Lula já "plantou" um falso motivo na imprensa: a necessidade de aprovar a CPMF (sem a qual haverá um caos na saúde, o bolsa-família não poderá ser ampliado, enfim, o Brasil desabará). Faz sentido. Sem Renan, ficaria mais difícil manter o injustificado imposto. No entanto, o verdadeiro motivo é outro, é político e já foi explicado acima.

Acrescento dois comentários de leitores que tiveram acesso à versão original deste artigo:

Primeiro comentário: "O elo perdido de Garanhuns paga hoje para permanecer vivo amanhã. Breve o pagamento diário será insuficiente" (Vinci).

Segundo comentário: "José Sarney, Nelson Jobim e Walfrido dos Mares Guia, entre outros, estão envolvidos até o pescoço na manobra-Renan. Enquanto isto o "Eu só sei que nada sei", que é "o chefe", faz o que mais sabe fazer: fingir que não sabe de nada. Caso o homem dos bois voadores seja absolvido pelo PT na votação secreta e haja uma certa indignação com isto, ele virá a público para dizer que nem sequer conhece bem o Renan, que nunca teve nada a ver com ele e nem moveu uma palha sequer para salvá-lo. Se precisar, ele diz que não tem nada a ver com o PT também, como já fez antes. E subirá mais alguns pontinhos nas próximas pesquisas de opinião. Sempre deu certo, por quê não haveria de dar agora?" (Carlão).