sábado, setembro 15, 2007

O vôo teórico de Marxilena Oiapoque

Reinaldo Azevedo


Marxilena Oiapoque, a mãe da teoria do golpe da mídia — o pai é Wanderley Guilherme dos Santos — concedeu uma entrevista à revista argentina Debate. Pela primeira vez, esta especialista na fusão do pensamento de Spinoza com a capacidade operativa de Delúbio Soares, reconheceu que pode, sim, ter havido algo parecido com mensalão, mas voltou a insistir que a “mídia” (a não-petista, é claro) manipulou o caso para provocar o impeachment de Lula. E refletiu: “Nenhum governante governa sem fazer alianças e negociações com outros partidos. Essa negociação tende à corrupção. Essa compra e venda ocorreu sistematicamente nos governos José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, sem que os meios se manifestassem sobre o assunto".

Viram só?

Premissa maior: nenhum governante governa sem fazer alianças e negociações;

Premissa menor: alianças e negociações tendem à corrupção;

Conclusão inescapável: é impossível governar sem ser corrupto.

Nunca ninguém tinha tido a coragem de dizer isso antes com tanta e tão escancarada clareza. Os petistas já estão dando um passo a mais na sua célere evolução para a delinqüência pura e simples, que vai perdendo até mesmo aquela fantasia socialista. Antes, o PT era o partido dos “donos da ética” — segundo um leitor, ontem, no Programa do Jô, Tarso Genro disse que essa pregação era um erro. Depois, o PT avançou para outra posição: “Roubo, mas todo mundo rouba, embora a gente não ache isso correto”. Agora, atinge o estado da arte: “Roubo, todo mundo rouba, e é assim mesmo que se faz. Ou não se governa”.

Em tempo: é uma mentira vergonhosa, deslavada, estúpida, a afirmação de que a mídia não deu espaço às denúncias havidas durante o governo FHC. Eduardo Jorge Caldas Pereira que o diga. É o caso emblemático. Foi esmagado, dona Marxilena. E era inocente, como fez questão de provar em todas as instâncias. Até Josef Dirceuyevitch admitiu a má-fé petista — infelizmente comprada por boa parte da imprensa. Com o caso dos mensaleiros, é diferente. Há confissões. Há provas. Recupere-se, por exemplo, o noticiário à época das privatizações. Ou tudo o que se publicou sobre a tal “venda de votos”. A imprensa jamais foi condescendente com o governo FHC. Ao contrário: foi implacável. E, é óbvio, foi ainda mais dura com Collor. Ele, afinal, caiu. Marxilena mente aos argentinos, mente aos brasileiros, mente ao mundo. Mas duvido que minta a si mesma.

Falei que Marxilena Oiapoque fundiu Spinoza com Delúbio? Pois é. Do filósofo holandês, não sobrou nada. Restou só a teórica do petismo, com sua retórica emporcalhada. Mas ela foi adiante. E, desta feita, não copiou nenhuma tese de seu amiguinho Claude Lefort. Não! Pegou carona num artigo escrito por Rosemarie Muraro na Folha de 12 de setembro do ano passado. O que escreveu, então, a decente senhora? Leiam o que vai em vermelho (quem estiver de estômago cheio, cuidado):

A boa novidade no Brasil é que essas maiorias elegeram um presidente oriundo da classe dominada, de quem não se esperava que transgredisse a lei da honestidade e da moralidade. E quando ele se viu obrigado a jogar o jogo da classe dominante para continuar no poder, houve uma grita a partir da classe média, sinceramente honesta, contra a corrupção e a fraude que esse mesmo presidente antes condenava. E os pobres, que sabem desde o nascimento que são expropriados de quase tudo, crêem, também sinceramente, que, já que são sempre roubados pelos dominantes, pelo menos darão o seu voto a quem reparte com eles alguma fatia desse roubo.”

Num texto postado às 8h51 daquele dia (podem ver no arquivo), esculhambei Rosemarie e disse que ela era tudo o que Marxilena sempre quis ser, mas tinha vergonha de confessar. Não é que a danada perdeu também essa vergonha? Eu sabia. Para mim, era questão de tempo. Vejam o que ela afirmou à revista argentina e depois comparem com o texto de sua companheira de partido (também em vermelho):

“Há indícios de que alguns membros do primeiro governo de Lula negociaram com parlamentares, de acordo com essa mesma tradição. Mas o PT e seu presidente operário??? Como ousam fazer o mesmo que os partidos da classe dominante??? Que ousadia absurda!!! Resultado: os meios de comunicação transformaram a situação em um caso único, nunca visto antes, e construíram a imagem do governo mais corrupto da história do Brasil".

Pontuei as frases de Marxilena com três interrogações e três exclamações porque ela está tentando ser irônica, entendem? Ela está tentando debochar daquele que seria o espanto dos não-petistas quanto confrontados com os métodos do tal “partido operário”. E notem que a filósofa é o primeiro membro da legenda que atribui também a Lula a “negociação”.

Qual a diferença entre a tese desta senhora e a dos anões? Nenhuma. O que os diferencia é só o fato de ela ter ainda alguma credibilidade, ao menos nas madraçais acadêmicas. Eles já não têm mais nada — a não ser o salário pagos por seus estranhos patrões, que financiam suas momices.

E acreditem. A mulher não fez por menos. Lembrou-me Renan Calheiros negando o óbvio. Leiam isto: para Marxilena, “o falso moralismo ocupou o lugar de uma discussão de ética republicana porque permite atacar o PT naquilo que é seu ponto de honra: a ética na política".

Sim, já assisti a aulas desta senhora. Ela faz isso também em classe; isto é, atua com essa lógica que se vê. Acompanhem com Tio Rei:

1 - O PT, na melhor das hipóteses de Marxilena, fez o que todo mundo supostamente faz;

2 - Todo mundo, ela mesma diz, só governa com corrupção; logo, o PT também;

3 – A ética na política é um “ponto de honra” para o PT;

4 - Logo, mesmo quando está sendo corrupto, o PT está sendo ético.

O que a gente faz com ela? Manda prender, manda internar ou dá uma tigela de sopa?