quinta-feira, setembro 20, 2007

Parece coisa de García Márquez

Augusto Nunes, Coisas da Política, Jornal do Brasil

O Brasil nasceu por engano. Porque buscavam o caminho das Índias, não terras à espera de visitantes vorazes, as três caravelas que em abril de 1500 perderam o rumo tão espetacularmente que acabariam perdidas no outro lado do planeta se não tivessem topado, no meio da rota equivocada, com aquele mundão de praias infinitas, areias brancas lambidas por ondas verdes ou azuis, matas e flores espantosas, muita fruta sumarenta e, melhor que tudo, todo mundo nu.

O Brasil nasceu predestinado à safadeza, avisava aquela gente cor de cobre, sem roupas no corpo nem pêlos nas partes pudendas, os homens prontos para trocar preciosidades por quinquilharias, as mulheres prontas para abrir as pernas e o sorriso para qualquer forasteiro, pois nenhum nativo sabia que havia pecado do outro lado do grande mar, e portanto não eram tementes a um Deus que desconheciam.

O Brasil nasceu carnavalesco. Nem um Joãosinho Trinta em transe com o baticundum juntaria na Sapucaí um padre de batina erguendo o cálice sagrado, navegantes fantasiados de soldados medievais, marinheiros em trajes de domingo, índios com a genitália desnuda, a cruz dos cristãos contrastando com arcos, flechas e bordunas. Foi essa a paisagem da primeira missa no Brasil, coreografada involuntariamente pelo frei Henrique Soares.

O Brasil balançou no berço da maluquice desde o primeiro minuto. Marujos ainda mareados pela travessia do Atlântico e perturbados pela visão do paraíso decidiram que aquilo era uma ilha das boas, e deveria chamar-se Ilha de Vera Cruz, e assim a chamaram até perceberem, incontáveis milhas depois, que era muita orla para uma ilha só, e pareceu-lhes sensato rebatizar o lugar com o nome de Terra de Santa Cruz, porque disso ninguém duvidava: era firme a terra em que haviam pisado.

O Brasil nasceu com muita preguiça e pouca pressa. Passou a infância na praia, e demorou 200 anos para enfim animar-se a escalar o paredão que separava a orla do Planalto, e esperaria mais um século até aventurar-se pelos sertões estendidos por trás das cortinas de mata virgem, porque sempre deixou para depois o que podia ser feito agora.

Passados mais de 500 anos, a geléia geral brasileira só não merece o estigma da incoerência, pois o Brasil parido pelo equívoco hostilizou os civilizadores holandeses para manter-se sob o jugo do império português, o Brasil amalucado teve como primeira e única rainha uma doida de hospício, o Brasil da safadeza forjou a dupla Pedro Primeiro e Chalaça, o Brasil preguiçoso foi o último a abolir a escravidão, o Brasil sem pressa foi o último a virar República, o Brasil carnavalesco inventou a primeira-dama por uma noite e sem calcinha.

A troca de regime não mudou a essência da geléia geral brasileira, informa o cortejo dos presidentes do Brasil republicano, que parece coisa de doido mesmo aos olhos de napoleões de manicômio por incluir, entre tantos destaques, um cinqüentão caduco, um doido de carteirinha, um general com radinho de pilha no coldre, outro que não resistia ao cheiro de cavalo, um topete sem cérebro, um cérebro sem neurônios e um criminoso vocacional.

O país nascido sob o signo da insensatez teve um imperador com 5 anos de idade e hoje é governado por um presidente que freqüentemente lembra um menino. Com um órfão no trono, o país não sentiu medo. Com um sessentão no comando, o Brasil que pensa se sente sem pai nem mãe