quarta-feira, outubro 03, 2007

A cesta básica dos aliados

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil

O presidente Lula está encontrando uma grande dificuldade na arrumação da cesta básica para a distribuição aos aliados, dos antigos, veteranos fundadores e filiados do PT, aos aderentes da última safra, com reforços diários dos cooptados pela generosidade e a urgência do maior governo de todos os tempos.

Há diferenças evidentes entre o sucesso retumbante do programa assistencialista da distribuição de cestas básicas aos milhões de pobres nos bolsões de miséria e aos profissionais da militância política. A fome dos que nada têm é saciada com quilos de feijão, de arroz, farinha e alguns agrados ou com a distribuição de 11 milhões de vales do Bolsa Família. Mas a gula dos profissionais da política é insaciável.

As dificuldades se multiplicam quando a articulação é mal conduzida, aos trancos e barrancos, por um presidente que ocupa a maior parte do tempo em viagens domésticas e vôos internacionais, na inauguração de qualquer coisa, em solenidades que assegurem o palanque para a maratona oratória de dois, três ou mais improvisos por dia.

Lula cuida de si, de olho pregado nos três anos e dois meses restantes do mandato bisado e na eleição do sucessor que não repita o seu costume de cutucar o antecessor a propósito de tudo ou de coisa nenhuma.

Não tem mãos a medir nem constrangimento que o embarace. Estamos em pleno vale-tudo, mesmo quando a urgência do interesse atropela a lógica e o bom senso.

Entre as grandes sacadas da temporada, a mais recente é a cambalhota do enquadramento do inchaço doentio do funcionalismo público mal pago como "choque de gestão". No rolar das décadas republicanas, governar já foi abrir estradas, construir escolas, acabar com a inflação, com os marajás, 50 anos em cinco, construir Brasília. Lula encontrou o seu slogan, que soa nos ouvidos de parlamentares como um samba de Chico Buarque: governar é contratar, é nomear servidores aos milhares, para fortalecer a máquina administrativa.

O novo lema da bandeira presidencial, na verdade oficializa e justifica a perdulária barganha de ministérios, secretarias, autarquias e da jóia da coroa das diretorias da Petrobras para reforçar a base parlamentar e garantir a prorrogação da CPMF até 2011, na segunda votação na Câmara e nas votações pelo Senado.

O choque de gestão não chega a ser novidade. Pois "contratar mais gente" tem sido uma das mais intensas atividades oficiais. Desde 2003 foram criadas 94.765 vagas nos órgãos do Executivo, preenchidas por concurso público. Mas a grande atração da barraca da feira livre são os cargos de comissão que dispensam o concurso e adubam a gratidão do pistolão dos apadrinhados. E que dispararam dos 17.559, em 2003 para 19.724 até fevereiro. Para o próximo ano eleitoral, a proposta orçamentária prevê a realização de concurso para 40.032 vagas no Executivo.

O custo das novas contratações nos cinco anos do atual governo bate na lua dos R$ 53 bilhões. E o governo promete inflacionar o gasto com a folha do pagamento do funcionalismo público com o salto de R$ 118 bilhões, este ano, para R$ 130 bilhões em 2008.

A mágica da multiplicação dos servidores é da exclusiva criação do governo. E não chegou a contar com os palpites da finada Secretaria de Planejamento de Longo Prazo, confiada ao mago Mangabeira Unger e fulminada com a rebelião dos mansos do PMDB, no Senado. Mas renascerá das cinzas, em anunciada medida do inconformado presidente.

De surpresa em espanto, Lula coleciona perplexidades. Encantou-se com o vice-campeonato na Copa do Mundo, na China, da nossa seleção feminina de Marta. E doutrinou: "Eu acho que nós temos que nos preparar para outros embates". Adiante: "É preciso que a gente dê mais atenção ao futebol feminino".

A gente, quem? Quem sabe, o presidente da República?