sexta-feira, outubro 05, 2007

Por que o Brasil de Lula não pode dar certo

por Paulo Moura, cientista político, site Diego Casagrande
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Se a próxima eleição para presidente da República fosse hoje, e Lula fosse candidato a mais um mandato, o petismo se reelegeria. O PT aposta no que há de mais atrasado na sociedade brasileira e se dá bem. Num cenário de instabilidades permanentes, instauradas pelas transformações de uma sociedade que se globaliza e atropela as estruturas de sustentação da sociedade do passado recente, o medo do novo aterroriza quem não entende o que se passa e não está preparado para se libertar das amarras escravizantes do paternalismo estatal. O Brasil patrimonialista preserva a cultura do Estado-pai desde os tempos do mercantilismo vigente quando da sua descoberta pelos portugueses, no início do século XVI.

A força do Estado brasileiro decorre das circunstâncias que marcaram a chegada dos portugueses aqui. Um imenso território quase desabitado e cheio de riquezas naturais oferecia enormes oportunidades para o saque e o enriquecimento rápido de indivíduos que, por força da abundância de matérias primas em estado bruto, não precisavam manufaturar e agregar valor ao que extraíam da natureza para enriquecer. Bastava-lhes saquear e revender na Europa as riquezas aqui abstraídas. A população nativa da América tropical também padecia desse mal e não se desenvolveu como as culturas andinas, pois não havia frio que lhes ameaçasse a subsistência fácil com base na coleta, na caça e na pesca, apenas. Herdeiros dessas facilidades, permanecemos deitados eternamente em berço esplêndido ao som do mar e sob o azul do céu profundo, a espera de que a prosperidade nos seja concedida como benesse, por um Deus que pensamos ser brasileiro, apesar de as escrituras sagradas dizerem que o povo escolhido é outro.
Sem espírito empreendedor e vivendo do extrativismo, o Brasil nasce como empreendimento do Império mercantilista português, que dá início pela fundação do Estado à estruturação de uma sociedade no território recém descoberto e não desbravado. Assim nasce, também, a cultura do menor esforço que, até hoje, atrasa o desenvolvimento nacional. Ocupar posições no Estado colonial era – e é até hoje - atalho para o enriquecimento rápido. As elites econômicas e políticas nacionais nascem do vício e não da virtude. E a plebe também. Para que trabalhar se podemos coletar, caçar e pescar uma bolsa esmola e um seguro desemprego?

A permissividade com esse tipo de conduta está arraigada na mentalidade do brasileiro de tal forma, que a ruptura com a cultura mercantilista é empreitada hercúlea. Uma teia de interesses compartilhados pela elite e pela plebe se articula para preservar a teta que lhes sustenta à custa de quem escolhe a liberdade e busca a prosperidade pelo trabalho. Transitamos das origens agrárias e extrativistas do período colonial para um modelo urbano e industrial patrocinados pela ditadura do Estado Novo fundado pelo "pai dos pobres", Getúlio Vargas, em quem Lula se espelha com orgulho e soberba. JK e os militares de 1964 deram novo impulso e atualidade ao modelo perene, que Lula se encarrega de recauchutar para a sobrevida no mundo da economia globalizada, aberta e competitiva.

O novo paradigma de produção e comunicação subjacente às transformações da sociedade contemporânea é incompatível com o capitalismo tardio e de perfil mercantilista e patrimonialista vigente e revigorado pelo poder sindical petista. Tal como na Alemanha da transição do século XIX para o século XX, no Brasil, não é a "burguesia" que comanda os destinos políticos da nação, segundo prescrevia o fracassado engodo marxista. Aqui é a corporação burocrática do setor público quem comanda a sociedade e o mercado a partir do Estado.

A lógica comportamental das corporações burocráticas está presente em todas as organizações originadas no modelo de gestão nascido com o trabalho especializado da era industrial, geridas por complexos organogramas cheios de escaninhos comandados por especialistas em intermediação. Max Weber, criador do conceito de patrimonialismo, preocupado com o poder da burocracia prussiana que comandava a sociedade alemã de seu tempo, desenvolveu uma Teoria da Burocracia na qual mapeou as distorções e danos que esse modelo pode causar à sociedade. Ao longo do século XX as corporações burocráticas expandiram seus tentáculos em direção ao controle das organizações públicas e privadas. O nazismo, o fascismo e o comunismo foram expressões do poder estatal total e totalitário das corporações burocráticas sobre a sociedade industrial moderna.

Essa matriz sistêmica é incompatível com os modelos de gestão das organizações contemporâneas. A lógica que rege o funcionamento dos sistemas tecnológicos de produção e comunicação não se coaduna aos organogramas e fluxogramas burocráticos. A compressão da relação tempo-espaço provocada pela comunicação em tempo real, acelera a circulação das informações no sistema. A alta capacidade de armazenamento e processamento dos computadores aumenta exponencialmente o volume das informações em circulação.

Com isso, a competição pelo poder e pela riqueza transferiu-se das mãos de quem tem matérias primas baratas e mão-de-obra inculta, para as mãos de quem pesquisa e descobre conhecimentos novos e corre na frente para vendê-los. Criatividade, velocidade para inovar a responder demandas e flexibilidade para adaptação a uma realidade cambiante e veloz são imprescindíveis à competição pelo poder e pela riqueza sob essa realidade.

Desconcentrar e distribuir poder, eliminar a distância e os obstáculos entre os decidem e os que fazem, conferir autonomia aos nodos das redes de produção e comunicação cobrando-lhes criatividade e conhecimento tornou-se regra nas organizações privadas. Cabe ao Estado adaptar-se a essas mudanças. Aliás, a incapacidade dos regimes socialistas acompanharem essa mudança é uma das principais causas do seu fracasso.

O "programa de governo" que Lula aprofunda nesse segundo mandato caminha a passos largos e em ritmo acelerado na contramão dessas mudanças. Mas os beneficiários de curto prazo da compra generalizada de apoios que Lula patrocina junto à maioria ignorante que o apóia, e a burrice de outros tantos membros da elite empresarial, impede-os de perceber o prejuízo de médio e longo prazo dessa escolha errada.