sexta-feira, outubro 05, 2007

Vendo chifres em cabeça de cavalo...

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

O ex-deputado federal, e ex-ministro todo poderoso do tempo da ditadura militar, é bom que se diga para não cair no esquecimento, publicou na Folha um artigo intitulado “Malthusianismo”, em que tenta mostrar ao mundo que todos os críticos aos programas de bio-combustíveis, quando fazem alerta para a possibilidade de que a expansão do programa pode reduzir a plantação de alimentos estão errados, e somente os apóstolos do bem, sentados em cima de imensos canaviais, estão certos.

Ao tempo em que Delfim mandava e desmandava, dava as cartas para um governo inteiro, ele adorava brincar com estatísticas. Como somente ele tinha acesso aos dados, se punha a despejar aos ouvidos de seus interlocutores, uma montanha de números que tinham o dom de aquietar os críticos. Mas neste tempo, é bom lembrar, o país vivia o império da censura. Portanto, não se podia contrariar os “números oficiais’ sob pena e risco de não se ter uma segunda chance. Ou se concordava, ou se concordava. Nada além disso.

Hoje, com o advento tanto da redemocratização do país e o fim da censura, como as maravilhas que a internet nos permite em relação `pesquisa de dados, fica mais difícil para os embromões despejarem suas teorias sem base alguma. Hoje, já podemos contestar números falsos, mesmo que eles sejam apresentados pelo mago Delfim.

No seu artigo ele se coloca contrariado com os críticos do etanol, principalmente aqueles que teimam em dizer que a expansão do combustível derivado da cana de açúcar, reduzirá o volume de alimentos plantados, sejam em quantidade seja em área plantada. E lá se3 põe Delfim a desfiar uma infinidade de números. Contudo, ontem mesmo suas ‘informações” foram desmentidas pelo excelente publicado na mesma Folha, e que aqui reproduzimos, escrito por Aparecida de Moraes e Silva, demonstrando claramente que já está ocorrendo redução nas áreas plantadas e destinadas à produção de alimentos. A conseqüência, nem é difícil de se chegar até ela, será, em futuro breve, que os preços dos alimentos tenderão a subir, isto se o tempo ajudar e não vier provocar, além da elevação dos preços, a escassez, aumentando ainda mais o custo ao consumidor.

Além disso, o que se lê nos alertas feitos por especialistas e ambientalistas não são previsões apocalípticas. Tratam-se apenas de alertas para uma possibilidade real. Se de parte de alguns o viés ideológico pode pautar a opinião deste ou daquele, isto em nada invalidade que outros estudiosos possam prever uma possibilidade bastante concreta sim de que a expansão no uso de bio-combustíveis por inúmeras razões de mercado, de lucratividade, de ocupação de espaço, e até pelos inúmeros incentivos como forma de atração tem sido lançados no mundo todo, tudo isto pode reduzir a oferta de alimentos, com conseqüente redução de área plantada. O que, conforme vimos acima, e também no excelente artigo de Aparecida de Moraes já ficou evidenciado.

Deste modo, seria oportuno que Delfim Neto, antes tão cuidadoso em suas análises, parasse de ver chifres em cabeça de cavalo, e até procurasse melhor se informar a respeito. Ficaria surpreso em ver que o “viés ideológico” que ele imagina, tem cores muito mais de realidade do que de ficção.

Além disso, seria importante que o ex-deputado se inteirasse melhor e se detivesse em analisar o caso dos bio-combustíveis no campo da pesquisa. Ficará surpreso em constatar que já estamos ficando para trás. Neste campo está faltando investimento. E ele é importante já que é a tecnologia que permite reais ganhos numa atividade em que os produtores historicamente é quem menos recebe compensação por sua atividade.

A seguir o artigo do Delfim.

Malthusianismo

Uma grave ameaça pesa sobre a produção dos biocombustíveis. Movimentos sociais com objetivos ideológicos, ambientalistas honestos, mas desinformados, analistas bem-informados, mas com viés malthusiano, chefes de governo prisioneiros de sua situação e até a ONU insistem na falsa idéia de que eles vão reduzir a oferta de alimentos. No caso brasileiro, a ameaça é claramente falsa. A área total do Brasil é de 851 milhões de hectares, dos quais 463 milhões (54%) são ocupados por áreas preservadas (inclusive a floresta amazônica); 220 milhões (26%) são ocupados por pastagens; 72 milhões (9%) são áreas cultivadas (6 milhões de hectares pela cana) e 96 milhões (11%) são potencialmente cultiváveis.

É preciso enxergar um fato importante: a agricultura é o único setor da economia onde milhões de produtores, individualistas e desorganizados, enfrentam uma estrutura oligopolista de compra, o que significa que transferem potencialmente para os consumidores todos os seus ganhos de produtividade. Isso explica a secular redução dos preços agrícolas com relação aos preços industriais. Apenas potencialmente porque, por outro lado, a estrutura oligopolista enfrenta milhões de consumidores, o que lhe dá um enorme poder na formação dos preços.

Os ganhos de produtividade do setor agrícola são o resultado do desenvolvimento da seleção genética, dos transgênicos, das técnicas de cultivo e da eficiência dos fertilizantes, e não há menor sinal de que tais avanços vão arrefecer. Pelo contrário, em alguns setores, como o do etanol e do biodiesel, os avanços genéticos que aumentam a produtividade por área e os avanços dos processos químicos e biológicos para o aproveitamento de toda a biomassa na extração de combustível estão à vista.

É claro que o aparecimento de um novo "produto" tende a alterar todos os preços relativos. Isso aconteceu, por exemplo, quando o ex-presidente do Banco do Brasil Nestor Jost, em 1968, convenceu o governo de que o feijão-soja tinha futuro. É ridículo imaginar que, num mercado livre, a alteração dos preços relativos possa ser a causa da inflação (que exige preços crescendo). Os ganhos de produtividade por área na agricultura e na pecuária vão liberar terra sobre a qual avançarão as novas culturas. Concretamente: o Brasil usa hoje 1/3 da terra que usava há 30 anos para produzir a mesma quantidade de álcool. Daqui a 30 anos, usará, provavelmente, menos de 1/9...

O único risco real que corre o projeto de Lula é a ameaça do seu próprio governo, se não se entender que há um claro conflito de interesse entre a Petrobras e os biocombustíveis.