quinta-feira, março 27, 2008

Facilidades, Severino e a sujeira para debaixo do tapete: a delinqüência explícita.

Adelson Elias Vasconcellos

No discurso em Pernambuco, Lula referiu-se ao Severino Cavalcanti, que era presidente da Câmara de Deputados, e que foi acusado de receber mensalinho de um administrador de restaurante naquela Casa, como se o "aliado" fosse uma vítima injustiçada.Coitado, né? Lembram-se do caso ? Sabem quem participou das investigações e dos acusadores que fizeram com que o Severino caísse fora? Pois, a turma do PT.

Esquecendo-se do passado, o que não é novidade e também não será a última vez que Lula assassinará a história invertendo-se os fatos para a construção de uma falsa verdade, ele afirmou que Severino caiu por conta das elites paulistas e paranaenses.

Primeiro, que acho uma cafajestada alguém se referir sempre a uma “entidade etérea”, vaporosa, por pura covardia de dar nomes aos bois. Sabem aquele coisa “Eu soube” ou do tipo “me contaram”, ou ainda “tão falando por aí” ? Quando você pergunta “soube por quem?”, ou “quem contou” ou ainda “quem está falando”, o sujeito desconversa e sai pela tangente. Pois foi exatamente assim, de forma covarde e canalha, que no discurso o Luiz Inácio acusou as “elites” paulistas e paranaenses pela queda do Severino, sem citar um único nome. Nossos males ? Culpem as "zelite! Nossa violência? Culpem as "zelite" .

Ora, ora, Severino caiu por si mesmo, por lambuzar-se demais no doce e não saber limpar-se direito. E não foi apenas por causa do mensalinho que ele cobrou e que, segundo a acusação, lhe rendeu módicos R$ 117,0 mil reais.

Também, dois procuradores da República no Distrito Federal pediram ao Tribunal de Contas da União que Severino fosse investigado por suspeita de prática de nepotismo, haja vista ter empregado diversos parentes em seu gabinete quando era o presidente da Câmara dos Deputados.

No dia 5 de setembro de 2005, Severino Cavalcanti viajou para a cidade de Nova York para participar de uma conferência na sede da Organização das Nações Unidas (ONU). A viagem coincidiu com as denúncias do mensalinho, suposto esquema de pagamento de propina em que estaria envolvido, donde as suposições de que ele estaria aproveitando essa viagem para esquivar-se das acusações. De fato, chegou-se a mostrar em rede nacional uma cópia ampliada do cheque compensado, utilizado para pagar-lhe o mensalinho.

Em 21 de setembro, Severino Cavalcanti renunciou a seu mandato de deputado federal em decorrência das denúncias de esquemas de pagamento de propina em que estaria envolvido. Sebastião Buani, o dono do restaurante da Câmara, acusou Severino de cobrar-lhe a mensalidade de 10 mil reais sob a ameaça de fechá-lo e ainda exibiu para todo mundo, cópia de cheques cujo recebimento foi assinado pela assessora de gabinete do Severino. Pergunta-se: onde está o dedo da oposição nisso ? Onde estão as digitais das “elites” nesta sordidez toda?

Nas eleições de 2006, Severino tentou eleger-se deputado federal novamente por Pernambuco, mas não obteve os votos necessários. É atualmente é suplente.

Outra questão: a qual elite Lula referiu-se ? A econômica ? A empresarial? A social? A cultural? A política? Ou a sindical que agora tomou conta do país? Qual elite afinal, e dentro dela, quais pessoas foram responsáveis, senhor Luiz Inácio?

Como sempre disse, a arma dos canalhas quando confrontados com a verdade, é desconversar e fugir como o diabo da cruz!!!

Lula falou em facilidades para elegerem e derrubarem o Severino. Primeiro, que Severino renunciou para não ter seu mandato cassado em plenário, o que o tornaria inelegível por oito anos e, segundo, que sua eleição se deu com votos da base governista, dividida que foi pela disputa pelo mesmo cargo de dois parlamentares do próprio PT. De novo pergunto: cadê os dedos da oposição ou as digitais das elites nesta trama toda?

Lula, se não fosse o cafajeste que é, poderia com um pouco mais de equilíbrio emocional, ter a decência de respeitar ao menos a história do país, aos fatos, as realidades do que acontece à sua volta, e não ficar manipulando “versões” conforme as conveniências de ocasião.

Mas, o dia não poderia realmente terminar “normal”. Aquele que patrocinou a chanchada em Pernambuco, deprimente por sinal, antes de embarcar, se encarregou de deixar um documento que foi entregue a todos os integrantes da base governista participante do circo chamado CPI dos Cartões. É a típica intromissão indevida de um Poder nos trabalhos independentes de outro poder.

E o documento dizia o quê ? Instruía como a base governista deveria votar, quais requerimentos de convocação de testemunhos deveria aprovar e quais deveria negar. Ou seja, aquele que diz não “temer CPI”, é justamente aquele que age para impedir investigações. Desafiado a abrir seu sigilo, quis compor um dossiê contra FHC e D.Ruth de forma infame e indecente, e quando confrontado com a autorização do ex-presidente de abrir seu sigilo, tratou de se esquivar e, num autoritarismo arrogante e criminoso, tenta agora obstruir a investigação que, se feita com retidão, equilíbrio e transparência, provavelmente demonstraria quanta sujeira está sendo cometida com os tais cartões corporativos.

E, pra variar, o Luiz Inácio, de quebra, também bateu na oposição (quando falou sobre o Severino), e mandou a oposição tirar o cavalinho da chuva porque, em 2010, ele elegerá seu sucessor.

Ele disse isto no 26 de março de 2008. Em 29 de outubro de 2006, no discurso que fez logo após a reeleição, pediu uma espécie de “trégua” à oposição. Disse que voltaria a falar em eleição somente em 2010. Afirmou que não iria mais bater no governo anterior, que dali para frente iria apenas comparar-se consigo mesmo (referia-se ao primeiro mandato). Já se vê, pelo tom e temas de seus discursos de uns três meses para cá, que ele esqueceu a promessa. Sua arrogância sobre o pleito que ainda irá acontecer daqui aproximadamente dois anos, e para os quais sequer se tem candidatos a candidatos, me faz lembrar de um exemplar pensamento do grande Ruy Barbosa:

"Eu não troco a justiça pela soberba. Eu não deixo o direito pela força. Eu não esqueço a fraternidade pela tolerância. Eu não substituo a fé pela superstição, a realidade pelo ídolo".

Assim, de palanque em palanque, desfilando um rancor tremendo contra os “adversários” políticos, instruindo sua base governista para empurrar a sujeira que se esconde em seu guarda-roupas para debaixo do tapete, a chantagem imoral e extorsiva com contas que sequer foram feitas em sigilo, sigilo que foi uma invenção dele próprio para sonegar a obrigatória prestação de contas dos entes públicos que gastam dinheiro público, sob a ridícula farsa de uma “segurança nacional” de um país sem guerras e sem ameaças terroristas, faz com a delinqüência explícita não se esconda em seus discursos e na sua ação de subterrâneo, demonstrando o quanto, do ponto de vista institucional, o país vem regredindo.

A eleição não é garantia de institucionalidade em país algum: a Alemanha de Hitler tinha eleições, a China de Mao tinha eleições, como a URSS de Stalin também as tinha, a Cuba de Fidel também tem as suas. A garantia a que me refiro é a relação de respeito mútuo entre os Poderes, e este respeito implica não invadir as prerrogativas legais garantidas a cada um deles. É relação normativa e ética entre o Estado e a Sociedade, é a aplicação no interesse público e não no particular do montante de riqueza que se extrai da sociedade e, na execução da tarefa de governar, não usar de subterfúgios para sonegar desta sociedade, da forma mais transparente possível, a obrigatória e indispensável prestação de contas. E, acima de tudo, é colocar-se sempre, e não infringir jamais sob qualquer pretexto, o regime de leis que regula os atos tanto do coletivo quanto do individual.

O discurso de hoje, bem como o documento que se fez circular instruindo a base governista em “submeter-se genuflexa” na falta de prestação de contas e no impedimento de uma investigação do uso do dinheiro público sob o qual recaem suspeitas de malversação, são, indubitavelmente, a transgressão em seu grau mais elevado de todos os postulados aos quais nos referimos acima que, em última análise, deveriam rotular a garantia definitiva de um regime democrático fundamentado em princípios magnos.

Portanto, a delinqüência explícita não é sequer novidade no comportamento do senhor Luiz Inácio, nem surpresa no seu modo íntimo de pensar. Logo após a reeleição em 2006, em 30 de outubro para ser mais preciso, sob o título “Lula reeleito, e daí?”, escrevemos um artigo do qual extraímos um trecho para encerrarmos este e que representava lá atrás, o mesmo pensamento que caracteriza o momento atual. Dizia o seguinte:

(...) Eis aí o contraponto exato do que fez Lula ganhar: abandonando todos escrúpulos capazes de limitar as ações de um político, o petista passou para a sociedade de que a ética não enche barriga. Claro que isto não está colocado desta forma, mas o sentido exato e o tom de toda a sua campanha visou este enfoque. Primeiro, fez a sociedade entender de que todos são iguais. Igual por igual na seara da honestidade ou falta dela, fique-se com quem já está lá. Nisto, a propaganda transpareceu de que ele não destoou nem um pouco de todos os outros. Em seguida, se era para eleger corrupto, que fosse um que se parece com o povo e com ele dividisse parte do tesouro. Simples ? Sim, sem tirar nem pôr(...)”.

“(...) Quem perdeu ? Quem ganhou ? Agora, já não interessa mais saber do dossiê, das cartilhas, dos cartões corporativos, dos superfaturamentos, mensaleiros, sanguessugas, vampiros, valeriodutos, caixa 2, etc. Por quê ? Porque agora o batalhão de choque jogará o resultado na mesa e dirá: eis a vontade do povo. Quem irá contra ? E em cima do resultado ainda quente das urnas, quem se aventurará em tentar apear Lula do poder ? Ora, a sociedade já está dividida conforme inúmeras vezes alertamos aqui. Não foi a eleição que promoveu esta divisão, foi o governo de Lula que sempre se esmerou nesta divisão. O Estado foi aparelhado desde antes da eleição de Lula em 2002. Os militantes aos poucos foram se entranhando pelos serviços públicos em todas as direções. Mas isto não elimina os crimes cometidos, nem sua investigação, nem que se identifique os culpados e, após justo julgamento, se condenados, que paguem na forma da lei pelos “erros” cometidos. E este é o esforço que o PT também tentará impor como sendo “vontade das urnas”. Se começar por aí, começa errado e irá mal até o fim(...)”.

E a lembrar Murilo Mendes; “Não vale, entretanto, a captação de votos pela demagogia eleitoreira, que os compra barato, “numa” forma hedionda de vilipêndio da vontade. O cúmulo da miséria moral é explorar a miséria alheia.”

Pergunta final: em que outubro de 2006 mudou para o nosso atual março de 2008, além da folhinha?