sexta-feira, março 21, 2008

O Bolsa Família para adolescentes

Gustavo Ioschpe, Veja online

O governo amplia agora o Bolsa Família para adolescentes de 16 e 17 anos. Dentro da lógica do programa, a extensão faz todo o sentido. Dentro da lógica econômica, também – se esses jovens estão abandonando a escola para adentrar o mercado de trabalho, é provável que um incentivo financeiro à continuação na escola tenha efeito positivo. Acusam a medida de eleitoreira, mas é uma redundância: tudo que se faz em política é para dar voto. O problema é quando as medidas enganam o eleitor – uma ponte que cai depois da votação, o hospital que é inaugurado na véspera do escrutínio e depois fecha etc. Não parece ser o caso com essa medida. Digo “parece” porque, em primeiro lugar, é preciso que a condicionalidade (a presença do aluno na escola) seja efetivamente verificada, que as famílias só recebam o dinheiro se o filho estiver efetivamente indo à escola. E, em segundo lugar, porque é preciso testar empiricamente se diminuiu a evasão dos recebedores do auxílio – coisa que só será possível asseverar depois da iniciativa ser implementada. A lógica, a priori, existe.

O problema de medidas como essa é que não tocam no cerne do problema, que é a qualidade da educação brasileira. Nossos jovens não estão fora da escola por conta da falta de vagas ou de transporte escolar, mas sim porque a educação brasileira é muito ruim. O problema não é financeiro. A educação brasileira proporciona uma das mais altas taxas de retorno do planeta. Segundo estudo recente de Fernando Barbosa e Samuel Pessoa, a vantagem salarial de quem cursa o ensino médio no Brasil é de 16% sobre aqueles que só terminaram o fundamental. Multiplique isso pelo salário de uma pessoa, mesmo um salário mínimo, e pelo número de anos que ela ficará no mercado de trabalho, e nota-se que esse é um incentivo várias ordens de grandeza superior aos R$ 30 que o Bolsa Família concederá por mês. Apesar desse incentivo do mercado de trabalho, nossos jovens abandonam as escolas. Porque não aprendem nada, ou muito pouco. Quando a escola consome tempo e não ensina, a relação custo-benefício se inverte, e estudar deixa de ser investimento para virar fardo. O impacto do Bolsa Família deverá ser, portanto, marginal. Nossos esforços deveriam estar focados na melhoria da qualidade do ensino – o que implica melhorar a formação dos nossos professores e a gestão das nossas escolas. Missões bem mais difíceis e espinhosas do que o envio de alguns reais para a família no fim do mês.