quinta-feira, abril 03, 2008

Os jornalistas de serviço e a lógica dos seqüestradores

Reinaldo Azevedo

É preciso que vocês saibam: a imprensa é o principal alvo do petralhismo. Embora ela também esteja infiltrada pela Al Qaeda comuno-negociante, ainda é o território em que algum aporte crítico tem voz ativa. Desde o primeiro momento, o jornalismo esteve entre as prioridades do PT: dominá-lo, domesticá-lo, fazê-lo mera correia de transmissão das vontades do partido. A canalha tentou isso pelas vias legais. Não deu certo. Então recorreu às penas de aluguel; àqueles pagos para elogiar e para tentar fazer das versões oficiais uma espécie de resistência. Não se trata de uma conspiração. É jornalismo de serviços: o governo paga, o cabra vai lá e executa a encomenda.

Parte importante dessa estratégia é acusar de brutalidade, de dureza excessiva, de agressividade desmedida os que não se vergam. Não quero dar a essa resistência um tom pateticamente heróico. É que há gente sem vocação para o nariz marrom. O que eles querem? A resposta é simples: QUEREM QUE O CRÍTICO SE INTIMIDE. Caso isso aconteça, há, então, a concórdia, certo?

Não! Caso eles sejam bem-sucedidos na investida, exigirão sempre mais, com a lógica peculiar dos seqüestradores. Os que se especializaram em negociar com os bandidos que “roubam pessoas” sabem disso: ceder a uma exigência é expor-se a novas exigências. Se você condescende aqui e ali, eles pedirão sempre mais. Querem fazer com que a servidão imposta se confunda com a servidão voluntária.

Os meliantes morais que mobilizam não estão em busca da verdade, mas de lemas e chavões. A mídia que a canalha chama “golpista” é, de fato, a do contragolpe. Antes que um ou outro dos contragolpistas reagissem aos ataques, houve a tentativa de silenciar a dissonância. Falo em meu próprio nome: ignorava certas (pequenas) reputações até que elas começassem a se incomodar com o sucesso do meu blog e partissem para a difamação. Bato, sim. Às vezes, bato pesado. Mas não saio rastejando solidariedade, qualidade que sempre compõe o perfil de um canalha.

É claro que o poder percebeu que essa gente “de serviço” estava por aí, dando sopa, vivendo o auge de sua decadência, se me permitem a antítese. Aconselham mal, pensam mal, escrevem mal. Vale dizer: estão talhadas para o trabalho sujo. Dêem-lhes trinta dinheiros, e defenderão qualquer coisa.

Nunca antes nestepaiz um governo se meteu tanto em disputas empresariais, usando o estado onipresente para impor a sua vontade por intermédio da chantagem e da prática de criar dificuldades para vender facilidades. Ora, isso requer propagandistas, que mal disfarçam a defesa de interesses privados em textos confusos, eivados de anacolutos, disfarçados, no entanto, de análise econômica ou política. O nome disso é lobby. Seus promotores são lobistas. A alguns, no esplendor da decadência, não restou senão ser o serviçal de plantão, o ordinário sem nenhum amor próprio, capaz de vender três versões diferentes em três dias. Porque, afinal, a chefe mandou.

Como sempre, José Dirceu conta tudo, não é? Vejam o que publiquei neste blog no dia 14 de junho de 2007 (em itálico – íntegra aqui):

José Dirceu falou ontem num congresso de metalúrgicos da CUT. Ele também não gosta da imprensa. Como Lula. Segundo disse, “nunca foi tão possível como agora” democratizar os meios de comunicação, usando a “regulação e a concorrência do setor”. Este democrata vê uma "profunda divisão dos formuladores de comunicação no Brasil". E convida: "Há uma possibilidade real de aproveitarmos esse momento". A “divisão" a que ele se refere deve ser o jornalismo áulico, que vive às custas da papa fina das estatais.

O governo a que pertence o Lula que não quer violência no jornalismo e o Zé que pretende usar as leis de regulação — como Chávez, na Venezuela, mas com mais suavidade — é o mesmo que pretende criar a TV oficial e reintroduzir a censura prévia no país, com a concordância cúmplice de alguns idiotas da própria mídia. “Aproveitar”, como diz o Zé, as divergências do campo democrático para impor a sua agenda é uma prática clássica da esquerda — mesmo sendo o esquerdismo petista.

Como se vê, tudo devidamente explicado. O petismo queria mais do que certa adesão preguiçosa de boa parte dos jornalistas ao PT. Queria, e está construindo, a sua própria mídia. O diabo é que essa gente faz isso com o nosso dinheiro. Se você procurar a origem da grana que sustenta os áulicos, chegará fatalmente ao dinheiro público.

A difamação produzida pelo jornalismo a soldo, como se vê, nada tem de heróica. É apenas a expressão mais deprimente e apalhaçada de um projeto de Brasil. O Davi, nesse caso, são os que resistem ao Golias que assaltou o estado. E, para manter a virtude dessa metáfora, cumpre dizer: vão perder. Se continuarmos vigilantes.