terça-feira, maio 20, 2008

E Lula insiste em mentir

Adelson Elias Vasconcellos

Ao longo do dia, Lula voltou a mentir duas vezes sobre o mesmo assunto. Vamos a eles, para comentá-los depois.

O primeiro, por Eduardo Cucolo, na Folha de São Paulo.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou hoje que os ministros da área econômica e os senadores que votaram contra a CPMF precisam visitar as novas creches "PAC da Educação' para entender que é preciso mais dinheiro para que o governo possa oferecer serviços de qualidade para a população.

"Quando a gente fizer essas creches, na primeira que começar a funcionar, a gente vai pegar os ministros da área econômica, a gente vai pegar os senadores que votaram contra a CPMF e a gente vai levar e eles vão perceber que é preciso mais dinheiro", disse Lula durante comemoração de um ano do Programa de Desenvolvimento da Educação, o "PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) da educação".

"Eles vão perceber o que é que nós poderíamos fazer com R$ 40 bilhões a mais por ano no Orçamento", afirmou o presidente.

Lula afirmou que a falta de recursos estaria atrasando o lançamento do Programa Saúde na Escola. Disse também que ao chegar ao poder, ao contrário do que acontecia quando era da oposição, percebeu no governo que não é possível "ter tudo de boa qualidade e de graça".

"Quando a gente ganha, a gente percebe que a única possibilidade que a gente tem de oferecer coisa de qualidade é você ter dinheiro para bancar ou você tem de cobrar. Não tem milagre."

Creches de São Paulo
Durante o evento, no qual o ministro da Educação, Fernando Haddad, mostrou uma maquete de como serão as creches do programa, Lula falou sobre a cidade de São Paulo.

"Quando o Fernando Haddad me faz a apresentação daquela maquete, eu fiquei vendo esses dias na televisão, na cidade de São Paulo tem 100 mil crianças que não têm creche, e várias mães dizendo que estão apavoradas porque não sabem como sair para trabalhar de manhã e onde deixar a criança", disse Lula.

"Eu estou dizendo São Paulo que é a cidade mais rica do nosso país. Se lá não tem, eu fico imaginando em tantas quantas cidades brasileiras não tem creche."

***** COMENTANDO A NOTÍCIA: Vamos logo ao ponto. A questão básica deste governo não é falta de dinheiro, até porque, conforme vimos em matéria do Estadão, o caixa do Tesouro será engordado, só neste ano, em 15 bilhões a mais do previsto, afora o fato de que a arrecadação continua batendo recordes atrás de recordes. O que falta é projeto efetivo, onde aplicar e como aplicar. Apenas para se ter idéia da mistificação lulista, neste ano, não se chegou a aplicar sequer 1% do previsto no tal PAC, que até saiu da propaganda oficial para não pagar mais vergonha. E quanto as creches, me socorro do jornalista Reinaldo Azevedo que informa em seu blog: “(...) Já o capítulo das creches em São Paulo é muito interessante. Nada como a aritmética para pôr fim à empulhação petista. Quando Marta deixou a Prefeitura, o défict de vagas era de 130 mil vagas. Com recursos do Orçamento, a atual gestão encerra o ano com 54 mil vagas criadas. E já foi publicado o edital para a construção de 40 mil por meio de Parcerias Público-Privadas(...)”.

Com a verdade reposta em seu devido lugar, vamos ao segundo ponto. Na semana passada, o governo plantou na imprensa a idéia de recriar a CPMF. O que os áulicos pretendiam? Medir a temperatura da sociedade para ver se ela já havia esquecido o assunto. Tentou-se, desde o início do ano, vender-se a idéia de que a CPMF era essencial para a Saúde, de que com ela “talvez” a epidemia de dengue não tivesse acontecido, e de que o atendimento hospitalar na rede pública seria um paraíso, etc. Hoje, como vimos acima, o Luiz Inácio ainda tentou aplicar a falácia de que a CPMF garantiria creches de primeira qualidade. Mentira, é claro, mas ao menos tentaram criar um clima. Pois bem, a reação de empresários e políticos foi brutal, e a tal ponto que Lula desistiu de tomar a iniciativa, mas não de recriar a contribuição. Assim, combinou-se que a base aliada no Congresso fará o papel de “laranja” para este projeto do governo. Ou seja, Lula quer o bônus de arrecadar R$ 40 bilhões a mais para gastar, mas não aceita o ônus político de recriar a CPMF. Assim é fácil, né?

Vamos dividir esta questão em duas partes: inicialmente, é de se perguntar se aqueles 40 bilhões fazem falta para o governo, e se faz, seria importante saber que destino tem sido dado aos excedentes de arrecadação que somam bem mais do que o que se arrecadaria com a CPMF. Este é um dado que precisa ser esclarecido. O outro, o que o governo Lula fez com o volume arrecadado de CPFM, durante cinco anos, os quais não corrigiram as distorções e o mau funcionamento do sistema. E diga-se: a recente epidemia de dengue que atormentou os cariocas e agora atormenta os nordestinos, poderia ter sido evitada, já que o governo investiu pouco mais de 50% do total previsto no programa de prevenção. Com CPMF e tudo.

Sempre que é confrontado com problemas de gestão em alguma área de seu governo, Lula tem usado a estratégia de empurrar a culpa para a oposição que não aprovou a prorrogação da CPMF, como se ele não tivesse uma base parlamentar, tanto no Senado quanto na Câmara, suficientemente ampla para aprovar o que bem entendesse. Quem derrubou a CPMF, portanto, não foi a oposição, e sim sua própria base política.

Fica claro, assim, que Lula ainda não conseguiu aprender que, para qualquer governante, é preciso dizer a verdade para não cair no perigoso limbo do ridículo. Continua apostando na desinformação da maior parcela da população já que, a parte informada, já provamos aqui, não passa de 15%. Assim, além do clientelismo, e por conta da desinformação, tudo o que Lula lhes disser será tido como verdade inquestionável. Até porque não lhes chega a voz da oposição para contestar aas mentiras e bravatas do presidente.

Quanto a precisar de mais dinheiro é preciso que Lula pague o preço político disto, ou seja, que o Executivo envie ao Congresso projeto específico recriando a famigerada contribuição, ou outro qualquer elevando a carga tributária. Se ele tem “toda” esta aprovação de que falam as pesquisas, terá cacife suficiente para suportar o ônus político da iniciativa. Não precisa agir pelos meandros do poder, empurrando a solução dos problemas de governabilidade para alguns “laranjas” seus no Congresso. Seja sincero ao menos uma vez na vida e diga ao povo que precisa do dinheiro e pronto.

Mas inadmissível para Lula é “saber” que alguma medida sua não agradou ao povão! Ele só é presidente para dias de festa, não para crises. Apenas como exemplo, vale aqui relembrar o acidente aéreo com o Airbus da TAM, em São Paulo. Nem por quinze segundos que fosse, ele se dignou visitar o local da tragédia, ou visitar as pessoas feridas nos hospitais. De outro lado, todo o alto comando do partido único da China, visitou hospitais e locais da tragédia da semana passada. Nas recentes inundações no Nordeste, Lula nem mostrou a cara, assim como já fizera no auge da epidemia de dengue no Rio de Janeiro em que as pessoas morriam muito mais por falta de atendimento nos hospitais da rede pública do que propriamente por culpa da picada do inseto.
Em resumo, se a CPMF é “indispensável” como Lula nos quer fazer crer, que tome as seguintes providências: primeiro, que preste contas do total arrecadado durante cinco anãos, sob o mesmo título. Segundo, que nos informe o que faz e o que fez com excedente de arrecadação de impostos ocorrido todos os anos de seu governo. E terceiro, que assuma publicamente o ônus político de criar a CPMF e de PROVAR que a dinheirama seja, de fato, investida na Saúde. Sem isto, é bom esquecer. Até porque, para quem paga mais de R$ 160 bilhões anuais pelo serviço da dívida pública, e arrota que investe bilhões no tais pacs da vida, R$ 40 bilhões não são nada. No fundo, não são nada mesmo, porque todos sabemos que os bilhões arrecadados todos os anos da sociedade poderiam transformar-se em serviços públicos de qualidade, e isto não acontece. E não acontece por má gestão, corrupção e falta de projetos. Com este tripé, sem dúvida, nunca haverá dinheiro suficiente.