terça-feira, maio 20, 2008

Fazenda e BC divergem sobre inflação

Sheila D'amorim, Valdo Cruz, Folha de São Paulo

Sem considerar alimentos, Mantega calcula alta acumulada de 3% no IPCA em 12 meses; Meirelles prefere projetar índice de 6%
Fazenda diz que pressão vem de choque de oferta no exterior, e não de consumo forte no país, e defende aperto monetário mais suave

Na queda-de-braço travada entre o ministro Guido Mantega (Fazenda) e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, por causa da trajetória de inflação, até mesmo a regra matemática de que dois mais dois são quatro é colocada sob dúvida. A partir do mesmo índice de preços, o IPCA, Meirelles e Mantega retiram o impacto da alta dos alimentos e vêem uma inflação completamente diferente. Com isso, traçam cenários opostos.

Nos cálculos de Mantega, retirando a alta do "feijãozinho" -que nesse caso representa o grupo alimentação e bebidas-, chega-se a uma inflação de 3,03% nos últimos 12 meses. Isso tem dado suporte à argumentação do ministro de que a pressão atual vem de um choque de oferta, puxado pelo comportamento dos preços no exterior, e não de um consumo excessivo no país.

Meirelles, do seu lado, gosta de tratar os números de outra forma. Por exemplo, exclui alimentos e preços administrados do IPCA e chega a uma inflação acumulada nos últimos 12 meses de 4,67%.

O presidente do BC prefere, porém, projetar a inflação no futuro, o que daria o dobro do previsto por Mantega, excluindo alimentos e preços administrados como energia e telefonia: 6,10% anualizados.

O número dá fôlego à defesa dele da atuação do Copom (Comitê de Política Monetária), que, em abril, iniciou um ciclo de alta das taxas de juros de tamanho e duração indefinidos, o que tem gerado apreensões e instabilidade no mercado financeiro.

A matemática do ministro da Fazenda considera o IPCA acumulado no período de 12 meses terminado em abril, abate a alta de 12,62% apenas dos alimentos e bebidas considerando o peso que esses itens têm no índice e chega aos 3,03%.

A do Banco Central contém vários cálculos. No acumulado de 12 meses, por exemplo, prefere excluir não só alimentos como preços administrados. No anualizado, a regra é também excluir esses itens do IPCA acumulado nos quatro primeiros meses deste ano e projetar o resultado no ano: chega aos 6,10%.

Se retirar desse mesmo período as 20% maiores altas e baixas e ainda diluir itens que têm um reajuste sempre naquele período, como educação, a inflação de Meirelles ainda chega a 4,62% anualizados.

Mantega e os técnicos da Fazenda argumentam ainda que itens como carne, leite e derivados, cereais, leguminosas e oleaginosas (em que estão classificados o feijão e o arroz) respondem pelo aumento de 1,32 ponto percentual na inflação total do período, que acumulou 5,04%.

Pão francês
Também destacam a alta de 23,1% do pão francês, que tem um peso de cerca de 1% no IPCA e contribuiu com 0,23 ponto percentual do índice, e a disparada do feijão-preto, que subiu 125%. Com isso, a Fazenda sustenta a tese de que o Brasil sofre o efeito de um choque de commodities agrícolas que se somou aos produtos energéticos (como petróleo) e minerais (cobre e ferro).

Mantega reconhece a necessidade de combater os efeitos secundários que essas elevações podem ter na economia. É o que pode fazer, por exemplo, com que a alta do aço, das tintas e dos plásticos impulsione uma onda de reajustes no setor automotivo, que já opera no limite da capacidade de produção.

No entanto, Mantega e sua equipe negam que isso já esteja ocorrendo, citam a inflação do setor de automóveis, que está em 2,29% nos últimos 12 meses, e defendem um aperto monetário mais brando.

***** COMENTANDO A NOTICIA: É preciso sabermos que, o controle da inflação se deve, sobretudo, a ação do Banco Central muito mais do que por ações do Ministério da Fazenda. Assim, esta discussão não terá fim nunca. Um quer arrecadar o mais que puder para gastar o quanto puder. Já o outro,mais responsável, sabe que gastança tem limite, arrecadação idem. E que nem todo o gasto público é justificável. Gasta-se muito além do que se poderia em ostentação, e muito pouco, ou quase nada, naquilo que é necessário, no melhoramento dos serviços públicos. Assim, não tendo espaço para redução da carga tributária que penaliza a população, que, pelo menos, ela não seja punida pela gastança desenfreada do governo e possa conviver com um certo grau de estabilidade econômica.

Apesar do Plano Real não ser tão velho assim, alguns “especialistas” deveriam ainda ter em mente que a inflação é um fenômeno proveniente da má gestão do dinheiro público e das inconseqüentes políticas populistas, como é o caso do Brasil. Retroajam a três anos e analisem a expansão brutal do crédito que ocorreu em níveis muito além da expansão na capacidade de produção do país. Ou seja, há mais moeda circulando para comprar a mesma quantidade de bens e serviços. É o caso dos automóveis, em que, a depender de certos modelos, a fila de espera é de 6 meses e, claro, mediante o devido ágio.

E para quem nos acompanha sabe que estamos levantando este alerta já faz tempo. O consumo do país aumentou muito além da conta, muito além do que o crescimento da produção de bens e serviços. Se, de um lado isto não provocou escassez, de outro elevou a procura muito além da oferta. Os gastos públicos também sofrem com políticas populistas e não menos irresponsáveis.
E, neste aspecto, o governo Lula está, pode-se dizer, perdendo o controle. Há um sentimento de profundo “desespero” de se querer apresentar “números” e “estatísticas” para serem vendidos no balcão dos palanques eleitorais. E, quando a política passa a interferir na boa racionalidade econômica, acabamos comprometendo a própria estabilidade no longo prazo. E esta é a razão principal para não haver redução nos juros básicos nem tampouco da carga tributária. O resto, é fantasia. A propósito: leiam o artigo a seguir do Ubiratan Iorio para o Jornal do Brasil. Ele volta a ensinar aos nossos “especialistas” os conceitos principais do que seja inflação que, ao que parece, muito gente esqueceu.
Por mais que Mantega tente vender sua "fantasia", o fato é que a inflação, considerados os últimos doze meses, se aproxima da marca de 5%. E querer simplesmente ignorar a alta no preço dos alimentos, é no mínimo cretinice. Vejam lá: "(...) Se retirar desse mesmo período as 20% maiores altas e baixas e ainda diluir itens que têm um reajuste sempre naquele período, como educação, a inflação de Meirelles ainda chega a 4,62% anualizados(...)". E sem este expurgo, a inflação real estaria, então, em que faixa, 6%, 8%? O que Mantega precisa entender é que o tempo em que os governos manipulavam estatísticas para vender a idéia ao mercado de que "tudo está sob controle" já passou. Voltou a repetir: a questão dos juros básicos aplicados internamente, não são e nunca foram "agentes inflacionários" ou impeditivos do crescimento. Eles são a consequência das políticas públicas e, neste caso, já se vê, de políticas ruins, as quais são geridas justamente pela Fazenda.