Adelson Elias Vasconcellos
Na matéria abaixo de Fabiano Klostermann, no Invertia Notícias, é feita uma avaliação sobre os efeitos que o grau de investimento atingido por apenas uma das agências de avaliação de risco, poderá provocar na economia do país.
Aliás, há questão de um mês, ou um pouco mais, reproduzimos aqui uma análise semelhante feita sobre estes efeitos na economia mexicana. Também o México viveu uma euforia momentânea e passageira que, logo após, verificou-se que a “promoção” não acrescentara nada de positivo ao país.
No caso do Brasil ainda mantenho minhas reservas sobre o investment grade, e pela simples razão com que a agência analisou a nossa situação. Há no relatório inúmeras reservas e ressalvas. E, considerando-se os critérios com que a economia são avaliadas, o grau obtido pelo Brasil mais nos deveria alertar do que nos deixar eufóricos.
Na prática significa dizer que o caminho que temos pela frente para nos tornarmos merecedores de investimentos não especulativos em doses maciças, é muito, mas muito longo mesmo. E o primeiro obstáculo a vencer é justamente a questão fiscal. Depois, há um complexo emaranhado de armadilhas e, em conseqüência, de impedimentos, para que os grandes investidores se sintam atraídos com toda a segurança para apostarem no Brasil. A começar pela insegurança jurídica. E nem se precisa ir muito longe no tempo, basta que recordemos duas declarações no mínimo infelizes tanto de Lula quanto de muitos de seus ministros, na semana passada. De Lula, sua crítica patética tanto aos ministros do TCU que os acusou de “governarem o país”, quando na verdade cumprem apenas o papel que lhes cabe de impedir que políticos de todos os gêneros tratem o dinheiro público com descasos e irresponsabilidade, e dele e muitos ministros, com relação ao veredicto que inocentou, num segundo julgamento, o fazendeiro suspeito de ser o mandante pelo assassinato da missionária americana, Dorothy Stang. E a isso se acrescente a altíssima carga tributária, irreal e absurda se comparada com as principais economias emergentes do planeta, os altos juros internos praticados, a burocracia asfixiante imposta pelo Poder Público aos agentes econômicos, a falta de segurança proveniente do jogo político nas agências reguladoras, o excessivo apetite do atual governo na sua intromissão na atividade econômica, a corrupção, a insegurança pública, os péssimos níveis de educação, o excessivo descontrole dos gastos públicos, o peso mastodôntico do Estado sobre a Sociedade, e fruto deste quadro horroroso fica difícil acreditar que alguém com bom senso, seguindo as leis mercado e as regras do jogo, possa se aventurar a investir no Brasil a não ser se não lhe for oferecido “aquelas vantagens” costuradas nas pocilgas do poder. Em condições normais, de temperatura e pressão, até os investidores brasileiros estão se sentindo mais confortáveis em investir lá fora do aqui dentro.
Fora tudo isso, vejam as condições gerais dos serviços públicos, e mais ainda, a deterioração lastimável e vergonhosa da infra-estrutura do país. E não se vê neste cipoal medonho, ações governamentais para correção de rumos.
Portanto, tem razões de sobra os analistas para se mostrarem cautelosos em relação ao Brasil, quando se tenta buscar cenários de expectativa para o grau de investimento recém conquistado. É preciso ver que outras economias do continente, com muito menor potencial em suas economias, chegaram bem antes do que nós. Assim, vale o alerta para que nossos governantes se dêem conta do imenso caminho que precisamos seguir para, de fato, sermos vistos pelos investidores como um país atraente para seus capitais, e não como uma terra de alto risco, apesar dos avanços obtidos nos últimos anos.
A seguir, a matéria do Invertia.
A conquista do grau de investimento (investment grade, em inglês) pelo Brasil na semana passada fez com que a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) batesse consecutivos recordes de alta e derrubou o dólar quase 3% só em um dia. Contudo, analistas prevêem que, se o governo não promover algumas mudanças estruturais na economia brasileira, esta euforia, que já arrefeceu, pode acabar.
Quanto ao mercado de câmbio, o diretor da NGO corretora de câmbio, Sidnei Moura Nehme, afirmou que o grau de investimento já estava precificado antes mesmo do anúncio. "Aquilo foi euforia e se criou a perspectiva de que os investidores estrangeiros iriam vir pra cá e colocar muito dinheiro. Mas, quando aconteceu o investment grade, os efeitos já estavam precificados no mercado".
"A minha percepção é que o investment grade repercutiu muito mais no ambiente interno do que no externo. O fluxo todo não vem se confirmando. A enxurrada (de recursos) não aconteceu", completou Nehme.
Segundo ele, a moeda americana não deverá ser afetada e continuar sua trajetória normal, apresentada antes do investment grade. " (O dólar) vai ficar patinando nessa cotação, de R$ 1,69, R$ 1,70, chegando talvez até R$ 1,75. Ou seja, tudo como era antes".
Para o economista e professor da PUC-SP Antonio Corrêa de Lacerda, os mercados acionário e cambial já se beneficiavam só com a perspectiva do grau de investimento. "Os investimentos estrangeiros diretos que não tinham restrição estatutária (impedidos de investir em países que não tivessem grau de investimento) já estavam por aqui".
Lacerda apontou a elaboração de uma política industrial como fator importante para manter o ciclo virtuoso da economia brasileira. "Crescimento e investment grade não estão diretamente relacionados. Se não tiver um projeto próprio de desenvolvimento, não vamos para frente. A política industrial (que será anunciada na próxima segunda-feira), pelo que foi antecipado, vai na direção correta. Mas, ela sozinha também não pode resolver tudo", afirmou.
Mercado financeiro
O analista Fausto Gouveia, da Win Home Broker, afirmou que a forte alta da Bolsa de Valores de São Paulo nos três pregões pós-investment grade foi uma forma de o mercado ajustar seu preço ao novo "selo de qualidade" que recebeu. "Nós encaramos como um selo de garantia. Só pelo fato de você se qualificar a isso, seu preço sobe e há um ajuste interno para atingir esse patamar", explicou.
Marcelo Voss, economista-chefe da corretora Liquidez, diz que o fluxo mais intenso de investimentos deve demorar algum tempo para acontecer esperando justamente as ações do governo após a concessão da nota. "Em termos de bolsa, esse fluxo de recursos mais intenso vai acontecer em 2009. O fluxo ocorre mais de seis meses depois da concessão, porque é o tempo para os investidores verem o que o País faz com o investment grade. Alguns, como a Hungria, tomaram medidas ruins e quase perderam o selo". Para ele, a burocracia estatal e a estrutura tributária são exemplos do que deve ser aperfeiçoado para o País manter a euforia dos últimos dias.
Mesmo com ajustes a serem feitos, os analistas crêem que ainda este ano mais uma agência deve conceder o grau de investimento ao País. "A Fitch deve colocar o Brasil como grau de investimento ainda este ano", previu Voss.
Na matéria abaixo de Fabiano Klostermann, no Invertia Notícias, é feita uma avaliação sobre os efeitos que o grau de investimento atingido por apenas uma das agências de avaliação de risco, poderá provocar na economia do país.
Aliás, há questão de um mês, ou um pouco mais, reproduzimos aqui uma análise semelhante feita sobre estes efeitos na economia mexicana. Também o México viveu uma euforia momentânea e passageira que, logo após, verificou-se que a “promoção” não acrescentara nada de positivo ao país.
No caso do Brasil ainda mantenho minhas reservas sobre o investment grade, e pela simples razão com que a agência analisou a nossa situação. Há no relatório inúmeras reservas e ressalvas. E, considerando-se os critérios com que a economia são avaliadas, o grau obtido pelo Brasil mais nos deveria alertar do que nos deixar eufóricos.
Na prática significa dizer que o caminho que temos pela frente para nos tornarmos merecedores de investimentos não especulativos em doses maciças, é muito, mas muito longo mesmo. E o primeiro obstáculo a vencer é justamente a questão fiscal. Depois, há um complexo emaranhado de armadilhas e, em conseqüência, de impedimentos, para que os grandes investidores se sintam atraídos com toda a segurança para apostarem no Brasil. A começar pela insegurança jurídica. E nem se precisa ir muito longe no tempo, basta que recordemos duas declarações no mínimo infelizes tanto de Lula quanto de muitos de seus ministros, na semana passada. De Lula, sua crítica patética tanto aos ministros do TCU que os acusou de “governarem o país”, quando na verdade cumprem apenas o papel que lhes cabe de impedir que políticos de todos os gêneros tratem o dinheiro público com descasos e irresponsabilidade, e dele e muitos ministros, com relação ao veredicto que inocentou, num segundo julgamento, o fazendeiro suspeito de ser o mandante pelo assassinato da missionária americana, Dorothy Stang. E a isso se acrescente a altíssima carga tributária, irreal e absurda se comparada com as principais economias emergentes do planeta, os altos juros internos praticados, a burocracia asfixiante imposta pelo Poder Público aos agentes econômicos, a falta de segurança proveniente do jogo político nas agências reguladoras, o excessivo apetite do atual governo na sua intromissão na atividade econômica, a corrupção, a insegurança pública, os péssimos níveis de educação, o excessivo descontrole dos gastos públicos, o peso mastodôntico do Estado sobre a Sociedade, e fruto deste quadro horroroso fica difícil acreditar que alguém com bom senso, seguindo as leis mercado e as regras do jogo, possa se aventurar a investir no Brasil a não ser se não lhe for oferecido “aquelas vantagens” costuradas nas pocilgas do poder. Em condições normais, de temperatura e pressão, até os investidores brasileiros estão se sentindo mais confortáveis em investir lá fora do aqui dentro.
Fora tudo isso, vejam as condições gerais dos serviços públicos, e mais ainda, a deterioração lastimável e vergonhosa da infra-estrutura do país. E não se vê neste cipoal medonho, ações governamentais para correção de rumos.
Portanto, tem razões de sobra os analistas para se mostrarem cautelosos em relação ao Brasil, quando se tenta buscar cenários de expectativa para o grau de investimento recém conquistado. É preciso ver que outras economias do continente, com muito menor potencial em suas economias, chegaram bem antes do que nós. Assim, vale o alerta para que nossos governantes se dêem conta do imenso caminho que precisamos seguir para, de fato, sermos vistos pelos investidores como um país atraente para seus capitais, e não como uma terra de alto risco, apesar dos avanços obtidos nos últimos anos.
A seguir, a matéria do Invertia.
A conquista do grau de investimento (investment grade, em inglês) pelo Brasil na semana passada fez com que a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) batesse consecutivos recordes de alta e derrubou o dólar quase 3% só em um dia. Contudo, analistas prevêem que, se o governo não promover algumas mudanças estruturais na economia brasileira, esta euforia, que já arrefeceu, pode acabar.
Quanto ao mercado de câmbio, o diretor da NGO corretora de câmbio, Sidnei Moura Nehme, afirmou que o grau de investimento já estava precificado antes mesmo do anúncio. "Aquilo foi euforia e se criou a perspectiva de que os investidores estrangeiros iriam vir pra cá e colocar muito dinheiro. Mas, quando aconteceu o investment grade, os efeitos já estavam precificados no mercado".
"A minha percepção é que o investment grade repercutiu muito mais no ambiente interno do que no externo. O fluxo todo não vem se confirmando. A enxurrada (de recursos) não aconteceu", completou Nehme.
Segundo ele, a moeda americana não deverá ser afetada e continuar sua trajetória normal, apresentada antes do investment grade. " (O dólar) vai ficar patinando nessa cotação, de R$ 1,69, R$ 1,70, chegando talvez até R$ 1,75. Ou seja, tudo como era antes".
Para o economista e professor da PUC-SP Antonio Corrêa de Lacerda, os mercados acionário e cambial já se beneficiavam só com a perspectiva do grau de investimento. "Os investimentos estrangeiros diretos que não tinham restrição estatutária (impedidos de investir em países que não tivessem grau de investimento) já estavam por aqui".
Lacerda apontou a elaboração de uma política industrial como fator importante para manter o ciclo virtuoso da economia brasileira. "Crescimento e investment grade não estão diretamente relacionados. Se não tiver um projeto próprio de desenvolvimento, não vamos para frente. A política industrial (que será anunciada na próxima segunda-feira), pelo que foi antecipado, vai na direção correta. Mas, ela sozinha também não pode resolver tudo", afirmou.
Mercado financeiro
O analista Fausto Gouveia, da Win Home Broker, afirmou que a forte alta da Bolsa de Valores de São Paulo nos três pregões pós-investment grade foi uma forma de o mercado ajustar seu preço ao novo "selo de qualidade" que recebeu. "Nós encaramos como um selo de garantia. Só pelo fato de você se qualificar a isso, seu preço sobe e há um ajuste interno para atingir esse patamar", explicou.
Marcelo Voss, economista-chefe da corretora Liquidez, diz que o fluxo mais intenso de investimentos deve demorar algum tempo para acontecer esperando justamente as ações do governo após a concessão da nota. "Em termos de bolsa, esse fluxo de recursos mais intenso vai acontecer em 2009. O fluxo ocorre mais de seis meses depois da concessão, porque é o tempo para os investidores verem o que o País faz com o investment grade. Alguns, como a Hungria, tomaram medidas ruins e quase perderam o selo". Para ele, a burocracia estatal e a estrutura tributária são exemplos do que deve ser aperfeiçoado para o País manter a euforia dos últimos dias.
Mesmo com ajustes a serem feitos, os analistas crêem que ainda este ano mais uma agência deve conceder o grau de investimento ao País. "A Fitch deve colocar o Brasil como grau de investimento ainda este ano", previu Voss.