quarta-feira, maio 14, 2008

Renúncia da Marina mudará a política ambiental do país.

Adelson Elias Vasconcellos

O governo Lula resolveu partir para a ofensiva. Depois de ficar na defensiva quanto ao dossiê FHC e vendo que o discurso do PAC já não cola mais com tanta facilidade em razão dos indiscutíveis números que comprovam que, de fato, o programa está empacado, numa espécie de reminiscência dos anos 70, o Planalto ressuscitou antiga fórmula de um programa industrial, privilegiando alguns setores que considera estratégicos e esquecendo-se do resto. E, ainda, vendo definhar a cada dia o resultado da balança comercial e diante de medidas que não impactaram como ele desejava, apareceu com um tal Fundo Soberano de discutível resultado no caso brasileiro.

Porém, dia imediato, o senhor Luiz Inácio foi surpreendido com a carta de demissão de Marina Silva, do Meio Ambiente. Dizem que ele ficou irritado não pela demissão em si, mas pela forma como Marina Silva agiu. Mandou entregar sua carta por um assessor a um outro assessor no Planalto.

Bem, o fato é que a agora ex-ministra Marina já vinha segurando vários abacaxis ou resistências ao seu trabalho e às suas idéias. Já de algum tempo, a oposição maior partia da Casa Civil, da dona Dilma, que reclamava na demora da concessão de licenciamentos para a execução de obras indispensáveis ao país. No fundo, a Dilma até tinha razão: nada se justifica que uma hidrelétrica leve mais de 10 anos para ter a licença para a sua construção (ou não) liberada. Nos últimos tempos, contudo, juntou-se a reclamação da Casa Civil, também o ministro da Agricultura. A ex-ministra continua inamovível nas suas idéias e na sua conduta.

Claro que o país, e não apenas o governo Lula, perde uma colaboradora de enorme prestígio internacional, e num dos momentos mais inoportunos, em razão da resistência de parte de algumas vozes quanto à nossa política do bio-combustíveis.

Fala-se em Jorge Viana ou Carlos Minc para substituí-la. O primeiro, quando governador do Acre, foi o rei do desmatamento. E o segundo, foi guerrilheiro e terrorista ao lado de Dilma Rousseff. O primeiro há muito tempo é um nome que Lula tenta emplacar em sua equipe. Entre um e outro, acredito que o peso da amizade e cumplicidade com Dilma acabará pesando mais a favor de Carlos Minc. E, neste caso, o ministério do Meio Ambiente passará por profundas reformas. No plano dos licenciamentos, provavelmente se terá muito menos burocracia, e no plano de fiscalização, talvez se tenha muito maior agilidade.

Na verdade, em razão de sua personalidade, a ex-ministra Marina jamais teve do governo grande apoio. Nunca seu ministério teve disponíveis os recursos a tempo e no volume necessários para que a ação do ministério pudesse atingir os resultados que dele se esperavam. E hoje a Câmara aprovou um projeto que acabará aumentando ainda o desmatamento. Veja post abaixo matéria do Estadão sobre mais esta patetice.

De qualquer forma, a gota d’água foi Lula ter encarregado Mangabeira Unger de coordenar o Plano recém lançado da Amazônia Sustentável, ao invés da ex-ministra, como seria de se esperar. Ao proceder desta forma, e sem ao menos dar a menor satisfação para a Marina Silva, o presidente não poderia esperar dela outra reação senão sua demissão por carta entregue por um assessor.

De qualquer forma, fosse a ex-ministra intransigente nas suas idéias, e conduzisse sua pasta de forma exageradamente burocrática, por sua postura, acabou por ganhar prestígio fora de nossas fronteiras e a admiração, carinho e respeito até de seus críticos mais ferrenhos.

Sua saída, por certo, fará com que a política ambiental do país sofra profundas alterações, e estas, por certo, doravante, deverão sintonizar-se com os critérios da Casa Civil.