segunda-feira, maio 26, 2008

Um sotaque ameaça a floresta

Augusto Nunes, Jornal do Basil

"Esse moço é um crânio!", derramou-se o vice-presidente José Alencar depois de meia hora de convívio com Roberto Mangabeira Unger. Mineiro sabido, nem pediu a algum intérprete que o ajudasse a decifrar o palavrório asfixiado pelo sotaque de quem foi transferido de Boston para Brasília sem escalas num curso de português. Para reconhecer um gênio, Alencar não precisa saber o que pensa.

Há coisas mais relevantes, e nenhuma faltava a Mangabeira. Os óculos de primeiro da turma. A sobrancelha magnificamente arqueada no espetáculo da superioridade. A boca franzida de quem luta para conter o aparte cruel mas luminoso. O queixo empinado que intimida ignorantes. A pose do especialista em tudo que não vê a hora de começar outra aula magna. Um crânio, sussurrava ao vice essa procissão de singularidades.

É de gente assim que o PR precisa, emocionou-se Alencar. E o crânio virou figurão do partido. É de gente assim que o Brasil precisa, recordou-lhe a veia patriótica. E, por insistência do vice, virou ministro um homem que acusara o presidente Lula de chefiar "o governo mais corrupto da História".

Até o fim de abril, Lula tinha na ponta da língua o discurso preparado para escapar de cobranças constrangedoras. A culpa fora de Alencar, argumentava. Só promovera o antigo desafeto a ministro de Assuntos Estratégicos para não ofender o amigo. Mas o Brasil não tinha motivos para insônia: o ministério não tinha funções definidas.

O prazo de validade dessa discurseira expirou no começo deste maio, quando o presidente nomeou o ministro do Nada para o comando do Plano Amazônia Sustentável, o PAS. Anunciada a escolha, o que fora coisa de José Alencar tornou-se coisa de Lula. A demissão da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, avisou que Lula errara.

Mais que um erro, foi um desastre, constatou-se nos dias seguintes. A nomeação de Mangabeira atestou que a escolha de auxiliares não é o forte de Lula. Candidato à Presidência por 13 anos, montou um "núcleo duro" tão consistente quanto um prédio de Sérgio Naya. Quem erra quando o tempo sobra não melhora ao agir sob pressão.

No mesmo dia em que foi surpreendido pela altivez de Marina, escolheu Carlos Minc para sucedê-la. Demorou poucas horas para compreender que lidaria com uma Marina que diz o que pensa. Com a sem-cerimônia de quem entra só de colete no gabinete presidencial, Minc denunciou o avanço do desmatamento em Mato Grosso, enquadrou o governador Blairo Maggi, revelou que as verbas prometidas ao ministério ficam no papel e deixou claro que Mangabeira é um sotaque perdido no meio da selva.

O governo não tem uma política ambiental, inquietou-se o país. Se tivesse, Lula não entregaria a Amazônia aos cuidados de uma dupla inconciliável. Minc quer combater os exterminadores da floresta. Mangabeira quer "vincular a Amazônia à indústria" para garantir empregos aos moradores da região – que, aliás, desconhece. "Mato Grosso não é só Amazônia, é também Centro-Oeste", acaba de descobrir. Logo saberá que o Amazonas não é só Amazônia, é também Noroeste, ou que o Pará não é só Amazônia, é também Norte. O Brasil já sabe faz tempo que Mangabeira não é só ministro. É também meio bobo.

Ele vai fazer falta
A bancada dos senadores decentes, que há tempos cabe sem apertos na mais acanhada mesa de botequim, tornou-se ainda menor depois da morte do amazonense Jefferson Péres. Na sexta-feira, o Congresso ficou ainda menos respeitável. E o PDT, a que Péres estava filiado, muito mais cafajeste.

Bonita, a amizade
E o desempenho do PSDB e do DEM na Câmara e no Senado, hein? E a comovente troca de afagos entre o presidente da Lula, o governador Serra e o prefeito Kassab, hein? O Brasil acaba de inventar a democracia sem oposição. Não é pouca coisa.

Manual da malandragem
Consumada outra invasão de terra, funcionários do Incra aparecem no acampamento com o questionário forjado para saber quem está precisando de cesta básica. "É o cadastro da bóia", começa o texto do MST que ensina a companheirada a conseguir comida de graça com cinco truques. Confiram:

1. Dizer que não tem bem familiar e não tem renda.
2. Se faltar documento, dizer que a Brigada roubou.
3. Se tem passagem na Polícia? Não.
4. Já era agricultor? Sim.
5. Tempo de acampamento? Mais de um ano...

Muito edificante.

O meigo Mantega e o rude Rands
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, explicou há semanas que, como um pai de família que entesoura no cofrinho os centavos economizados, o governo quer guardar num certo Fundo Soberano os bilhões que vêm sobrando da bolada tributária. Há dias, o deputado pernambucano Maurício Rands, líder do PT na Câmara, explicou que, sem a ressurreição da CPMF, não haverá dinheiro para cuidar direito da área da saúde.

O Brasil com juízo sugere ao rude Rands que apresente ao meigo Mantega uma idéia singela: repassar ao Ministério da Saúde o dinheiro do Fundo.

A mudez do boquirroto
Depois do ataque do Exército colombiano à estalagem administrada pelas Farc no lado equatoriano da fronteira, o chanceler Celso Amorim achou pouco o pedido de desculpas apresentado pelo governo de Álvaro Uribe. O presidente deveria suplicar ao vizinho que perdoasse e jurar que nunca mais faria aquilo.
Autenticados pela Interpol, documentos extraídos dos computadores do terrorista Fred Reyes acabam de provar que a Venezuela de Hugo Chávez e o Equador de Rafael Correa são cúmplices e financiadores das Farc.

Peça desculpas, Amorim.

Apelido é prova
Acusado de ter planejado o assassinato da missionária americana Dorothy Stang, o fazendeiro paraense Regivaldo Pereira Galvão deveria estar preso há muito tempo só pelo apelido: Taradão. Para conquistá-lo, fez muito mais que matar religiosas. Merece gaiola. Algum dia ele confessa tudo.

Isto é o Brasil
Nos países lógicos, corruptos federais gastam parte do roubo com prostitutas de luxo. No país tropical, um bordel cinco estrelas financiou viagens do assessor corrupto a serviço do deputado Paulinho da Força. Tom Jobim tem razão: o Brasil não é para amadores.