Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa
Absolutamente fantástico. Reportagem de Henrique Gomes Batista, "O Globo" de 28/05, com base nos dados do próprio Banco Central, revela que o volume de crédito no País atingiu 1 trilhão e 17 bilhões de reais, no início de maio, superando a massa salarial do País que, praticamente um terço do PIB, oscila entre 700 bilhões e 750 bilhões de reais por ano. O crescimento da oferta de crédito é considerável, pois em dezembro de 2007 atingia 936 bilhões.
O que já era um patamar dos mais elevados ficou ainda mais alto. O próprio presidente Lula, há poucos meses, apresentou este processo como destinado a incluir as camadas de menor renda no mercado de consumo. Por sua vez, a maior elasticidade financeira parte de crediários fixados em maior números de meses. O caso dos automóveis, por exemplo. O presidente do Banco Central, Henrique Meireles, acentua a reportagem, considerou a expansão do crédito um fator de inclusão social.
Poderia haver esta interpretação, não fossem os juros tão altos como são. Os aplicados ao mercado de carros até que são os mais baixos, mas, mesmo assim, estão em torno de 1,2 por cento ao mês para uma taxa inflacionária que o IBGE calcula em 5 por cento para os últimos doze meses. A diferença é grande, como se constata. Mas que dizer dos juros mensais de 5 ou 6 por cento, cobrados pelos bancos e pelo comércio com crédito pessoal ou no crédito chamado direto. Neste caso, os juros, como são compostos, juros em cima de juros, atingem mais de 80 por cento ao ano.
Dezesseis vezes a inflação oficial. Ou então, traduzindo-se de outro modo, na estratosfera de 1.600 por cento reais. O mercado consumidor continua usando o crédito. É irresistível, sem dúvida, pois, no fundo da questão, todas as sociedades estão sempre intensamente voltadas para o consumo. Existe também a influência lógica da publicidade. Mas até quando poderá ser assim como está sendo hoje?
Enquanto os juros - não vamos nem citar os dos cheques especiais e do refinanciamento dos cartões de crédito, que vão a 150 por cento ao ano - são dez vezes maiores que os índices de atualização monetária, os percentuais que corrigem os salários apenas empatam com a inflação. E como o consumo prossegue, o endividamento continua também no mesmo ritmo que marca a expansão do crédito. Chegou aos supermercados.
Quantas vezes vi pessoas de menor renda fazendo compras com a moeda de plástico, que gira sempre na direção do futuro. Tem que haver um limite para as dívidas. Elas não podem se eternizar. Tem um ponto de partida, outro de chegada. Onde estará este? É pergunta que se impõe, sobretudo porque os salários passaram a empatar com o IBGE no governo Lula, digo os salários dos trabalhadores particulares e das empresas estatais. Faço a ressalva porque o funcionalismo federal continua não vendo a cor de aumento nominal que seja. E se não há aumento nominal, evidentemente não existe acréscimo real.
Ao contrário. Há decréscimo, pois um meio de se reduzir vencimentos - está claro - é não reajustá-lo ao nível inflacionário. A situação dos servidores públicos do Estado do Rio de Janeiro ajusta-se à que domina os funcionários federais. O processo de declínio, portanto de retrocesso, começou a partir de janeiro de 95, quando FHC assumiu a presidência da República. Os prejuízos acumulados são enormes. Não há perspectiva, muito menos hipótese, de recuperação. O funcionalismo tenta sair em busca do tempo perdido. Fica na intenção. Fica na promessa eleitoral dos candidatos.
Se alguém quiser comprovar o que estou dizendo, é só acessar a série histórica inflacionária registrada pelo IBGE de janeiro de 95 até hoje. Vai se deparar com uma verdadeira torrente acumulada de perdas. Diluída no tempo e anestesiada pelas injeções de crédito. Mas, de fato, não representa uma inclusão social efetiva. Dívidas têm que ser pagas. Hoje ou amanhã. Amanhã ou depois. Mas são pagas. O consumo pode, com isso, seguir em frente aquecido, mas os degraus de um avanço sócio-econômico concreto permanecem congelados.
Os assalariados que se endividam pagam a conta da estabilização monetária que realmente está acontecendo. Para o futuro próximo, nem tanto. Basta examinar o Índice de Preços Por Atacado, da FGV, na escala de 12 por cento de maio de 2007 a maio de 2008. Se houver aumento de preços no atacado, evidentemente ele vai ser repassado ao varejo. E do varejo, final de linha, a todos nós, consumidores. Reflete nos aluguéis. E existem aproximadamente 7 milhões de imóveis alugados no País. O indexador das locações é o IGPM, também da Fundação Getúlio Vargas.
Os locatários, portanto, que se preparem. As tarifas públicas encontram-se indexadas a algum termômetro de reposição inflacionária. Eu disse todos? Então errei. Há um que não possui indexação alguma: o contrato de trabalho. Com isso a dualidade e a contradição entre capital e trabalho prosseguem. E não há saída. Sobretudo porque existem no Brasil pelo menos duas moedas dividindo nitidamente os campos.
Uma, a destinada ao capital, que até supera a inflação oficial. Outra, a destinada ao salário, que perde para esta taxa. A diferença entre um lado e outro reflete-se na favelização, na falta de saneamento, na carência dos serviços públicos de saúde, na escalada da violência. Por falar em violência, ela está cada vez maior.