Luiz Carlos Mendonça De Barros, Folha de São Paulo
A desaceleração dos países emergentes é a bola da vez na cadeia de eventos que podem acomodar a inflação mundial
A questão da inflação -no exterior e aqui no Brasil- ganhou definitivamente o centro de interesse da mídia no mundo.
A desaceleração dos países emergentes é a bola da vez na cadeia de eventos que podem acomodar a inflação mundial
A questão da inflação -no exterior e aqui no Brasil- ganhou definitivamente o centro de interesse da mídia no mundo.
Tenho escrito de forma recorrente sobre esse tema neste meu espaço semanal. Aproveito a minha volta, depois de duas semanas ausente do país, para resumir como vejo essa questão hoje. Nesse período, muita água passou debaixo da ponte, principalmente no chamado mundo emergente. Os bancos centrais, pressionados por taxas de inflação muito acima de suas metas -formais ou não-, têm acelerado o processo de ajuste dos juros para reduzir o crescimento econômico. Isso está acontecendo principalmente na Ásia, com exceção ainda da China.
Outra mudança importante na política econômica dos países em desenvolvimento tem sido a redução gradual dos subsídios dos preços da energia, principalmente dos produtos ligados ao petróleo. Embora esse movimento garanta uma elevação dos índices de inflação nos próximos meses, o resultado será uma redução no ritmo de crescimento do consumo e, portanto, da demanda final nessas economias.
Sem essa desaceleração, será muito difícil estabilizar os preços do petróleo e dos metais e, portanto, caminhar no sentido da redução da inflação no mundo.O outro canal de aceleração dos preços -as commodities agrícolas- tem uma dinâmica mais complexa em razão do ciclo de produção desses produtos. Em uma situação de estoques muito baixos e com a demanda refletindo um aumento generalizado de renda no mundo emergente, os preços estarão ainda, nos próximos meses, sensíveis a eventuais problemas climáticos.Mas certamente haverá um aumento importante nos níveis de produção, como é o caso da safra brasileira em 2008/2009.
Outro fator que tem influenciado o comportamento dos preços das principais commodities tem sido o valor do dólar nos mercados de câmbio, principalmente em relação ao euro. Esse movimento está ligado, no curto prazo, ao descompasso entre a política monetária nessas duas regiões. Não acredito que o Fed terá condições de elevar os juros nos Estados Unidos em 2008 e ao longo do primeiro semestre de 2009. Portanto, a redução do diferencial de juros americanos e na zona do euro só vai ocorrer quando a recessão na Europa levar o mercado a acreditar em um início do afrouxamento monetário por parte do BCE.
Portanto, na cadeia de eventos que podem levar a uma acomodação na inflação mundial que vivemos hoje, a desaceleração do mundo emergente é a chamada bola da vez. A economia americana já sofre de uma queda na atividade muito forte e que deve durar por mais alguns trimestres pelo menos.
A Europa começa a perder seu dinamismo, com queda da atividade industrial em vários países, como Espanha, Irlanda, Itália e França. Mesmo a locomotiva alemã dá sinais de desaceleração forte, sob o impacto do câmbio e dos juros elevados. Se o mundo emergente realmente caminhar na direção de uma atividade menor, mesmo com a China mantendo seu crescimento entre 9% e 10% ao ano, poderemos ter um ajuste na demanda global suficiente para estabilizar os preços de commodities.
Resta saber se essa desaceleração global será suficiente para estabilizar também os chamados núcleos da inflação, que têm subido na maioria dos países. Nos próximos meses, esse é o movimento que deveremos monitorar prioritariamente.