Por Roberta Paduan, Revista Exame
O ex-economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos diz que o Banco Central deve agir para impedir a cobrança de juros tão altos no país
O economista Roberto Luis Troster, sócio da Integral Trust, consultoria especializada no setor financeiro, e ex-economista-chefe da Febraban, afirma que há prática de juros abusivos no Brasil e diz que o país teria problemas com ou sem crise externa.
O ex-economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos diz que o Banco Central deve agir para impedir a cobrança de juros tão altos no país
O economista Roberto Luis Troster, sócio da Integral Trust, consultoria especializada no setor financeiro, e ex-economista-chefe da Febraban, afirma que há prática de juros abusivos no Brasil e diz que o país teria problemas com ou sem crise externa.
1) O consumidor e as empresas poderiam pagar juros reais menores, mesmo sem a redução da taxa básica, a Selic?
Sem dúvida. Houve uma "selicada" da conjuntura do país. Discute-se apenas se o Banco Central vai baixar a Selic e quanto. Mas, enquanto a taxa Selic estava em 13,75%, a taxa média de empréstimos a pessoas físicas e jurídicas estava em 54%. Há modalidades de crédito que chegam a 175%. Portanto, no caso brasileiro, não é só baixando a Selic que o problema será resolvido.
2) O que mais deveria ser feito?
Para começar, o BC deveria acompanhar a oferta de crédito e tomar ações contundentes quando notasse taxas não justificadas. Os compulsórios (depósitos exigidos pelo BC aos bancos) deveriam ser eliminados. Fora isso, é fundamental eliminar a tributação sobre o crédito, o que é um despautério.
3) Essas medidas ajudariam a melhorar a oferta de crédito?
Certamente. São medidas possíveis e importantíssimas para evitar que a crise se agrave. Olhar apenas para a Selic é negar o verdadeiro problema do crédito, que são os gargalos da tributação e a falta de pulso do BC.
4) Qual o peso da crise internacional na desaceleração da economia brasileira?
É claro que a crise piorou tudo, mas o fato é que, com ou sem crise externa, o Brasil teria problemas. Agora, vão pôr a culpa nos gringos, mas desde o começo de 2008 as expectativas para o crescimento de 2009 estavam em queda. O enxugamento do crédito externo agravou a situação. O cenário piorou ainda mais com o comportamento de alguns bancos daqui, que apertaram o crédito bruscamente, especialmente para o pequeno tomador.
5) Esse aperto não faz sentido?
Não. É preciso diferenciar o que é aumento por risco maior do que é aumento por abuso de poder de mercado. Os bancos prestam um serviço fundamental ao país, mas isso não quer dizer que podem fazer tudo o que querem.
6) Onde estão os abusos por parte dos bancos?
No spread, a diferença entre a taxa que as instituições pagam na captação do dinheiro e a taxa a que emprestam, que subiu desproporcionalmente à deterioração da conjuntura. Em 2008, as linhas de hotmoney subiram 14 pontos percentuais, os descontos de duplicatas, 15, e o cheque especial, 30. É muito. E o pior é que esse é um comportamento imediatista, pois taxas tão altas não são sustentáveis. A inadimplência já está subindo e, em breve, terá consequências para o próprio crédito e para toda a economia.
7) Não seria intervencionismo demais o Banco Central controlar as taxas praticadas pelas instituições?
Não. Livre concorrência é isso. É preciso evitar cartéis, cláusulas draconianas em contratos, dumpings e outros abusos do poder econômico. Bancos centrais no mundo inteiro atuam em caso de excessos. O presidente do BC inglês, por exemplo, liga para o presidente de uma instituição que esteja cometendo excessos e manda que ele baixe a taxa abusiva.