sexta-feira, outubro 30, 2009

Em depoimento, Chinaglia confirma que Jefferson avisou Lula sobre mensalão

Diego Abreu Do Portal G1

“A primeira reação é não acreditar”, disse o deputado do PT.
Ele disse que estava presente na reunião com Lula e Roberto Jefferson.

O ex-presidente da Câmara Arlindo Chinaglia (PT-SP) confirmou nesta quinta-feira (28), em depoimento à Justiça, que estava presente na reunião em que o presidente do PTB, Roberto Jefferson, revelou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que acreditava existir um esquema de compra de apoio ao governo no Congresso, antes de o caso vir à tona, conhecido como mensalão.

Em conversa com jornalistas, após o depoimento, Chinaglia disse ter certeza que Lula não sabia do mensalão antes da denúncia de Roberto Jefferson. “A primeira reação é não acreditar em uma história dessa. O presidente pediu para que eu e Aldo [Rebelo, então presidente da Câmara] verificássemos”, disse. “Foi uma conversa inoportuna. Não era assunto para tratar com o presidente”, completou Chinaglia, lembrando que a pauta da reunião era a tratativa de assuntos políticos do governo.

O G1 entrou em contato com Palácio do Planalto e aguarda resposta. Em 2005, quando foi ao programa "Roda Viva", da TV Cultura, Lula falou sobre o escândalo e Roberto Jefferson: "ele [Jefferson] foi cassado exatamente porque não provou a denúncia que ele fez no que diz respeito, por exemplo, aos mensalões. O José Dirceu [ex-ministro da Casa Civil] foi acusado de ter montado uma quadrilha. E sobretudo, uma quadrilha para pagar mensalão. (...) Teve ou não mensalão? Tenho certeza que não teve," disse o presidente.

Dois momentos
Chinaglia, que na época dos fatos, em 2005, era líder do PT na Câmara, disse ter tomado conhecimento do suposto esquema em dois momentos. Primeiro, segundo ele, quando Jefferson teria alertado o presidente Lula sobre a existência do esquema, em reunião na qual Chinaglia confirmou que estava presente. Depois, o deputado disse ter tomado conhecimento por meio da imprensa. Foi aí que, segundo Chinaglia, surgiu o termo “mensalão”, que indicava um esquema no qual parlamentares supostamente recebiam dinheiro em troca de apoio a projetos do governo no Congresso.

“O momento principal [foi] quando a imprensa divulgou aquilo que o então deputado Roberto Jefferson denunciou. E faço referência a esse momento como principal, porque lá ele apelidou de mensalão. E ainda que ele fez um comentário ao presidente da República e, entre outros, eu estava presente”, afirmou Chinaglia.

Ele disse que, depois da reunião com Lula, a imprensa chegou a divulgar uma matéria em que denunciava um suposto esquema de compra de votos no Congresso, sem o uso do termo “mensalão”. Segundo ele, a Câmara abriu uma sindicância, mas como nenhum deputado se manifestou, a denúncia acabou arquivada.

Questionado sobre se tem conhecimento da existência de fato do mensalão, Chinaglia sugeriu acreditar que o caso nunca existiu. “Não soube de qualquer denúncia de que houve compra de votos”. Perguntado se já ouviu falar em reuniões do Diretório Nacional do PT de que existia um esquema de oferta financeira em troca da aprovação de projetos do governo, ele foi categórico. “Não”, respondeu.

O ex-presidente da Câmara afirmou também que não conheceu o empresário Marcos Valério, apontado como o operador do mensalão. Disse ainda não ter tratado de questões financeiras na época em que era líder do PT com o então presidente do partido, José Genoino.

Depoimento
Ele prestou depoimento à juíza Pollyana Kelly Martins Alves, da 12ª Vara Federal do Distrito Federal, na condição de testemunha de defesa de cinco réus na ação penal do mensalão: Roberto Jefferson; o ex-tesoureito do PT, Delúbio Soares; ex-lider do PP, José Janene (PR); deputado João Paulo Cunha (PT-SP); e o ex-líder deputado Pedro Corrêa (PP-PE).

Segundo Chinaglia, também participaram do encontro com Lula o ex-ministro do Turismo Walfrido Mares Guia, o então presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), e o ex-líder do PTB José Múcio Monteiro, hoje ministro do Tribunal de Contas da União.

O Ministério Público Federal (MPF) classifica o mensalão como um esquema que se especializou em “desviar dinheiro público e comprar apoio político”, com o objetivo de “garantir a continuidade do projeto de poder” do PT. O MPF foi o órgão responsável por denunciar o esquema – a denúncia foi aceita em agosto de 2007 pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que abriu uma ação penal para julgar o caso. O relator do processo no Supremo é o ministro Joaquim Barbosa.

EM TEMPO:


Deputado do PTB diz que sabia do mensalão
Da Folha Online:

O deputado federal Alex Canziani (PTB-PR) também reforçou em depoimento à Justiça Federal nesta quinta-feira que a bancada do PTB na Câmara tomou conhecimento do mensalão antes da divulgação do esquema pela imprensa.

A existência do suposto esquema foi revelado por Roberto Jefferson --presidente do partido e deputado federal cassado-- para Renata Lo Prete, editora do "Painel" da Folha.

Canziani, que foi ouvido como testemunha, sustentou que Roberto Jefferson --presidente do partido e deputado federal cassado-- disse em encontro dos parlamentares do PTB que avisou o presidente Lula de que havia uma compensação financeira para que os deputados apoiassem as votações de interesse do Executivo no Congresso, como as reformas da previdência e tributária.

"Houve uma reunião da bancada. Antes já se falava isso no Congresso de que algumas bancadas recebiam dinheiro em troca da aprovação de projetos. Ele [Jefferson] comentou que teria falado com o presidente Lula sobre essa questão, que estaria havendo no Congresso a troca de votos por pagamento. Ele [Roberto Jefferson] disse que não iria aceitar [a compra de votos]", disse.

O deputado disse ainda que a orientação do partido era para que a questão de recursos financeiros fossem tratada diretamente com Jefferson e não com o ex-primeiro-secretário do PTB, Emerson Palmieri os dois são réus no processo do mensalão.

"Em relação a recursos [financeiros] não se falava com ele. Se falava com o tesoureiro ou com o presidente [Roberto Jefferson]", disse.

Na segunda-feira, o ministro do TCU (Tribunal de Contas da União) José Múcio Monteiro afirmou que o PTB "em hipótese nenhuma" participou do mensalão.

Ex-coordenador político do governo Lula e ex-líder do partido na época do escândalo, Múcio disse que a parceria entre o PTB e o governo não envolveu vantagem financeira em troca de apoio durante as votações no Congresso. A denúncia do mensalão partiu do presidente do PTB, deputado cassado Roberto Jefferson.