sexta-feira, outubro 30, 2009

Série B do mundo

Editorial, O Globo

Materialização de antigo e ansiado projeto de integração regional, o Mercosul começou a se tornar viável com a redemocratização dos regimes.

Desconfianças geopolíticas, quase atávicas, entre militares brasileiros e argentinos foram sepultadas quando a vida política passou a fluir no Cone Sul sem amarras.

O próprio processo de internacionalização das economias — uma tendência mundial — serviu de motor de integração dos sistemas produtivos dos países.

Há tempos, porém, e muito em função de erros de política econômica cometidos pelos vizinhos, o desbalanceamento entre as economias brasileira e argentina conspira contra a existência efetiva de um mercado comum no futuro.

Medidas protecionistas baixadas pelos argentinos passaram a ser respondidas na mesma moeda pelos brasileiros, e isto corrói as bases do Mercosul como união de livre comércio — que na prática já não tem sido.

Não fossem suficientes os problemas técnicos, há outra grave ameaça ao Mercosul, esta de origem político-diplomática, devido à pressão do governo brasileiro para que a Venezuela do caudilho Hugo Chávez seja aceita como sócia plena no acordo de comércio regional.

Referendada na Câmara e em votação na Comissão de Relações Exteriores do Senado, a proposta recebeu parecer contrário do relator Tasso Jereissati (PSDB-CE).

A principal razão: porque o país sob Chávez não é uma democracia, como exigem os estatutos do acordo firmado entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.

É simples. Será um erro o senador tucano aceitar rever o relatório, para concordar com a admissão da Venezuela “sob condições”.

Ora, Chávez já deu inúmeras demonstrações de que não é confiável. Lembre-se que ele perdeu um plebiscito, mas colocou em prática, como queria, parte da Constituição rejeitada nas urnas, pois controla a Assembleia venezuelana.

É risível o argumento destilado em Planalto segundo o qual o acordo será com o “Estado” venezuelano, e não com o “governo”.

Se fosse assim, os Aliados não teriam rompido relações com Alemanha e Itália, constatado que Hitler e Mussolini seriam menos importantes que os respectivos Estados.

Tudo balela para justificar o afago em Chávez, por afinidades ideológicas, a fim de ajudá-lo enquanto a Venezuela naufraga em funda crise — por culpa do caudilho.

Do ponto de vista da diplomacia comercial brasileira também será um desastre: com o histriônico Chávez à mesa de negociações, o Mercosul não conseguirá fechar qualquer acordo comercial importante com qualquer país minimamente sério e de peso.

É ilusório achar que o caudilho se curvará aos estatutos do Mercosul, de que consta a ”cláusula democrática“.

Ao contrário, ele tentará redesenhar o acordo comercial à imagem e semelhança da Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas), um anacrônico grupo “anti-imperialista”, cujos principais inquilinos são ele próprio e os irmãos Castro, um projeto sem passado e futuro.

O Senado poderá colocar o Brasil na Série B do mundo, e ainda tornar irreversível a falência do próprio acordo de livre comércio.

Tão logo fique evidente o isolamento do Mercosul, ele tenderá a se dissolver.