quarta-feira, novembro 04, 2009

A festa acabou

Por Carlos Chagas

Estão em festa o Clube dos Otimistas, a Associação dos Sonhadores, a Escola de Samba “Me Engana que Eu Gosto”, a Sociedade dos Amigos do Dr. Pangloss e outras entidades dedicadas a visualizar o planeta como se fosse a morada apenas de anjos, arcanjos e querubins. É bem verdade que nas próximas horas cairão todos em estado de prostração e frustração, com o fim da festa.

Fala-se da entrada em pauta, hoje, na Câmara Federal, do projeto de lei estendendo a todos os aposentados o mesmo reajuste anual dado àqueles que recebem o salário mínimo. Um aumento acima da inflação, da ordem de 16.5%. Além do mais, retroativo a 2008.

É claro que as bancadas oficiais, lideradas pelo deputado Michel Temer, preparam-se para sabotar a votação e seus resultados. O presidente Lula não admite o benefício. Segundo os tecnocratas, custaria mais de seis bilhões de reais aos cofres públicos. Como o primeiro-companheiro não quer ser obrigado a vetar o projeto, se aprovado, o remédio é adiar a votação, obstruir os trabalhos, pedir verificação de quorum ou adotar qualquer outro expediente capaz de evitar a gritaria dos velhinhos contra o primeiro-companheiro, a menos de um ano das eleições.

A proposta, já aprovada no Senado, faria justiça a milhões de aposentados sendo gradativamente nivelados por baixo, a cada ano recebendo menos do que quando deixaram de trabalhar. Como os aposentados votam, a estratégia do Lula é deixar que o ônus do adiamento caia sobre a Câmara. Salvaria Dilma Rousseff de perder algumas centenas de milhares de votos.

O diabo é que a maioria dos deputados sabe que o eleitorado tem memória. Ficariam bem posicionados para a reeleição quantos votassem a favor do projeto, mas tomariam o rumo das profundezas os que tivessem seus nomes divulgados como algozes do benefício. A briga, assim, é para saber quem levará a culpa, se o Congresso ou o palácio do Planalto. De qualquer forma, uma coisa é certa: a Câmara não votará hoje, nem amanhã, nem depois, o reajuste dos aposentados. A festa acabou...