sexta-feira, dezembro 11, 2009

Arruda exibe o perfil do político brasileiro

Adelson Elias Vasconcellos


O governador do Detrito Federal, ooopps!, Distrito Federal, José Arruda, foi pego como se dizia antigamente, com a boca na botija. Os vídeos que foram exibidos até aqui (há muito mais) são bastante eloquentes, falam por si (apesar de Lula ter afirmado que não, mas isto é Lula, né), não deixam nenhuma suspeita de que, o que o governador praticava, ia muito além de simples "doações de panetones".

Apenas para ilustrar, seu patrimônio cresceu no tempo em que lá está, em mais de 1.000% o que já seria suficiente para alimentar qualquer investigação sobre este crescimento tão desproporcional.

Não há truque que o livre da guilhotina, não, pelo menos, de seu partido. E isto ele já sabe. Há histórico no próprio DEM de expulsão sob simples suspeita de dois parlamentares, e não faz muito.

A tentativa de Arruda é tentar se manter no poder. Insiste que as acusações são fruto de perseguição política, só não explica porque ele haveria de perseguir a si mesmo, já que as imagens que o país inteiro assistiu, são de Arruda metendo a mão na massa, sacaram, né?

Este comportamento de desespero em se apegar ao cargo e ao mandato, é bem o perfil do político brasileiro. Eles se consideram donos daquilo que, no fundo, não lhes pertence, nunca pertenceu. E neste sentido, se utilizam de todos os meios e estratagemas para "conservarem" o poder, mesmo que este poder seja apenas de cunho legislativo. Inveja-me ver em nações onde a política é levada um pouco mais a sério que, políticos quando flagrados em delito, a primeira coisa que fazem é renunciar a cargos e mandatos. Aqui, até pela cultura da impunidade vigente na classe política verde-amarela, se tenta vencer a barreira das leis e do decoro, por intermédio de bravatas e ações ainda mais delituosas.

Pegue-se o exemplo do projeto que aguarda votação no Congresso sobre os fichas-sujas. Ele só está lá, aguardando votação, por ter sido de iniciativa popular. E, mesmo assim, o senhor Michel Temer teme colocá-la em votação, e tem se utilizado de todos os artifícios para não inseri-la na pauta. Na última, sob a desculpa lambuzada de indecência, é a de empurrar para fevereiro de 2010, porque há a votação dos projetos do pré-sal, assunto que só vai valer mesmo para daqui uns dez anos, enquanto as eleições, bem, estas acontecerão no próximo ano. Qual a estratégia? É fazer com que o projeto dos fichas sujas só passe a valer em 2012, 2014, ou nunca. Ou seja, é o próprio Congresso, se utilizando das prerrogativas que a lei lhe concede, lutando para manter o privilégio da impunidade em favor de seus pares.

Quanto ao Arruda defendi no dia do escândalo e defendo agora: deve ser expulso do partido, e ao menos, afastado do cargo. Se for instaurado processo de impeachment, que responda ao processo fora do cargo. É assim que se faz justiça, é assim que agiria um político sério. Mas esta máxima no Brasil, lamentavelmente, ainda não faz a cabeça de nossos "políticos".

No caso do projeto dos ficha-sujas, e isto defendo desde 2006, e já que os partidos são incompetentes em filtrar os candidatos, e a lei eleitoral além de muito branda e permissiva, é vagarosa que chega a doer, temos que criar meios para que se barre todo e qualquer candidato que responda a processos judiciais. É como se fosse um imenso SPC político: primeiro, limpe o nome, depois concorra. Se isto já é exigido para qualquer concursado a servidor público, quanto mais seria indispensável para aquele que lidará com verbas públicas!

Claro que o projeto não retirará da vida política todas as suas mazelas, não impedirá os roubos, os desvios, a corrupção endêmica que nos assola desde o descobrimento. Mas é preciso fazer alguma coisa desde já, e este é o primeiro passo. Importante primeiro passo, mesmo que Michel Temer tente empurrar com a barriga.

Quanto a Arruda, bem, nada justifica que o DEM não o tenha expulsado do partido, tampouco que os distritais tentem abafar e proteger o rufião do dinheiro público. Um mau político, como no caso de Arruda, é apenas um mau político quando a sigla partidária o expulsa diante de ações delinquentes. Maus políticos existem em todos os partidos políticos, o DEM não seria exceção. Mas, se este partido ficar alimentando sua permanência, protelando uma tomada de decisão enérgica e firme, ,aí quem se contamina é o próprio partido, é a instituição, por conivência e omissão. Mas isto só não basta: Arruda deve responder na justiça e, se condenado, devolver aos cofres a dinheirama desviada.

E toda esta monumental palhaçada deve servir de gancho para outras medidas: uma delas, é o fortalecimento dos Tribunais de Contas. Já discutimos isto aqui. Hoje, os ministros são escolhas dos executivos federal e estaduais. Errado. Estas escolhas por terem cunho político, afasta a credibilidade dos próprios julgamentos. Segundo, devem ser dotados de melhor estrutura para investigarem, se possível em tempo real, o uso dado ao dinheiro público, e, terceiro, deve ser mantida a autoridade de , a qualquer tempo, diante de fato real de mau uso, interromper obras e suspender contratos. Ninguém tem o mínimo direito sequer de se utilizar do dinheiro público para benefício próprio. Já nos basta o enorme custo das casas legislativas e seus privilégios imorais ! Já nos basta o desperdício sem conta em despesas de pura ostentação de toda as estruturas de poder, em seus mais diferentes níveis. O Estado brasileiro tornou-se o maior assaltante da Nação, porque lhe toma tudo o que pode, apenas para proveito próprio dos que nele se encastelaram, e nada devolve a esta mesma Nação. Basta de Estado irresponsável, perdulário e vigarista.

Portanto, para Arruda e todos aos que a ele se assemelham, é rua mesmo. A tolerância em casos de corrupção explícita deve ser ZERO, a punição deve ser a mais dura e exemplar possível, porque o dinheiro que esta cambada desvia em seu proveito próprio, é exatamente aquele que falta para melhorar o atendimento médico dos que morrem à porta de um hospital público por falta de assistência, assistência que não se realiza por falta de verba, como se alega comumente. É o mesmo dinheiro que falta para cobrir os telhados das escolas caindo aos pedaços por todo o país. É o mesmo dinheiro que falta para cobrir a defasagem vergonhosa e imoral das aposentadorias dos trabalhadores da iniciativa privada. É o mesmo dinheiro que se alega faltar para cobrir os buracos das estradas federais, onde morrem cerca de 30 mil brasileiros todos os anos. Este dinheiro pertence à sociedade, e não aos seus políticos canalhas, e deve à mesma sociedade retornar com a qualidade de serviços dignos, e não para aumentar ilicitamente o patrimônio desta corja de delinquentes.

Um último recado: é de se esperar que, em 2010, durante as campanhas eleitorais, o assunto ÉTICA NA POLÍTICA, seja um dos temas dominantes. E, que o povo não se deixe seduzir pelas campanhas profissionais dos marqueteiros, e venha, assim, escolher seus representantes com lupa. É uma oportunidade de limpa e renovação. Se é para continuarem a praticar a bandalheira que temos assistido nestes últimos anos, que os deixemos em casa para "refletirem". O que temos visto não autoriza a reeleição destes políticos "profissionais", e pela simples razão de se tratarem de "profissionais" do crime organizado. Esta é a hora da sociedade fazer a sua parte.

Hoje, ao pedir sua desfiliação, disse que sua decisão era para defender a honra. Só se for dos demais colegas do partido, porque no que diz respeito ao próprio Arruda, ninguém defender aquilo que nunca teve. Já vai tarde. Pena que vai sozinho, poderia acompanhá-lo uns 5 mil, 10 mil, ou até mais. Juro que a política nacional jamais sentiria falta destes trambiqueiros. Até pelo contrário. Pelo menos por um tempo, respiraria um ar bem mais saudável.