Sebastião Nery
RIO - Não faz muito tempo contei esta história aqui. Mas voltou a ficar atualíssima. Bartolomeu Barbosa, Bartô, oficial de gabinete do governador Agamenon Magalhães, em Pernambuco, ficou tão chocado com a morte do chefe, em 1952, que arrumou as trouxas e aterrissou em São Paulo. Em 1965, estava na “Última Hora”, fazendo cobertura política.
Uma tarde, Carlos Laino Júnior, diretor da redação, manda-o à Assembleia Legislativa:
- Vá lá entrevistar o Chiquito Franco.
Francisco Franco, presidente da Assembleia, amigo de Adhemar, era uma “barra-pesada”, que comandou durante anos os bastidores legislativos de São Paulo. Bartô foi, fez a entrevista. Na saída, Chiquito pôs alguma coisa no bolso de Bartô:
- Pode ir, meu filho. Jornalista que e entrevista não perde tempo.
Lá fora, Bartô conferiu. Eram Cr$ 50. Entregou a Carlos Laino:
- O deputado pôs esses Cr$50 no meu bolso. O que é que eu faço? Na hora fiquei sem jeito de olhar. Vou devolver. Ele disse que jornalista que o entrevista não perde tempo.
- Amanhã, recorte a entrevista, ponha num envelope, bote o dinheiro junto e mande tudo para ele. Ele precisa aprender que jornalista não é boy da Assembleia para ele ficar dando dinheiro.
Meu amigo Bartô mandou de volta os Cr$50. Ganhava Cr$60 por mês na “Última Hora” e vivia duro.
Friedman
Chiquito Franco achava que “não há entrevista grátis”. Milton Friedman, chefe da “escola “monetarista de Chicago”, Premio Nobel de Economia de 1976, também achava que “não há almoço grátis”. E qualquer político sabe que também “não há pesquisa grátis”.
Mas algumas são excessivamente estapafúrdias, escalafobéticas. Nas campanhas eleitorais passadas, o Datafolha fazia pesquisas mensais. Quando chegava o ultimo mês, passavam a ser semanais. Na véspera da eleição, saia a ultima. E jactava-se, para diferenciar-se dos outros institutos:
- “Não fazemos pesquisas para partidos políticos.”
E por isso sempre foi considerada a pesquisa mais confiável. Justiça se lhe faça: o Datafolha nunca disse que não fazia pesquisa para governo.
Datafolha
Nesta eleição, não sei se por causa da morte do velho e sábio Frias, a rua Barão de Limeira endoideceu. As “pesquisas” do Datafolha eram mensais, sempre com mais de 10 mil entrevistados durante quatro dias da semana, “encomendadas pela Rede Globo de Televisão”.
A ultima tinha sido entre 9 e 12 de agosto, um mês e meio antes da eleição. Em 20 de agosto, surpreendem com “nova pesquisa, realizada em um dia só, sexta-feira, com 2.727 entrevistados, em 171 municipios”.
- “Dilma dispara, com 19 pontos na frente de Serra, dobra vantagem e venceria Serra no primeiro turno”.
Não disse quem pagou o almoço, quer dizer, a pesquisa. Não foi a TV Globo. Mas estavam garantidas para o governo e a campanha de Dilma as manchetes de TV, rádios e jornais durante todo o fim de semana.
Dilma
Acharam pouco. Três dias depois, quinta-feira, 26, a primeira pagina da Folha era uma farra só : - “Dilma Abre 20 Pontos Sobre Serra”.
Outra vez não disseram quem pagou o almoço,quer dizer, a pesquisa. Jornalisticamente, não tinha sentido. Manchete e primeira pagina para uma pesquisa tres dias depois, “com 10.948 (?) entrevistados” (em quantos municípios?) só para dizer que “Dilma abriu mais um ponto de frente”?.
O gringo Friedman não sabia que pesquisa é mais barato que almoço, comício, showmício, foguete, camiseta e cabo eleitoral.
Se esta semana a pesquisa Datafolha foi de três em três dias, na próxima será de dois em dois e em setembro deverá ser diária. Do contrario, os velhos e fieis assinantes de anos e anos, como eu, vamos pensar que outro candidato segurou o galope pesquisitorio do Datafolha.
Moreno
De quando em quando, os jornalões têm instantes de lucidez. Por exemplo, “O Globo”, agora, criando a coluna “Historias do Moreno”, onde ele tem relembrado historias antigas e desenhado perfis magistrais, como o do farsante general Castelo Branco cassando JK e o do sábio Tancredo.
De quando em quando, tropeça. Mas está perdoado. De tanto correr atrás da Mariana Ximenes e da Dilma, às vezes ele perde o fôlego e se perde. Falando do livro de Ulysses Guimarães, “Rompendo o Cerco”, “o único que escreveu”, “logo no prefacio (sic) inocenta Roberto Santos”.
O prefacio não é de Ulysses, Moreno. Para honra minha, é meu, a pedido dele. Está lá, na abertura, paginas 11 e 12. Que inveja é essa? E o
“Pacote de Abril”,de Geisel, não foi dia 13 de abril de 77. Foi dia 1º para 2.
Michel
Michel Temer sempre pareceu uma pessoa normal. Nem precisava repetir o saudoso humorista na TV : - “Eu sou normaaaallll”!
No debate Folha/UOL, Michel falou como se estivesse “normal”:
- “O que o PMDB vai fazer é colaborar. Não há fisiologismo, não há troca de cargos. O PMDB repudia (sic) essa coisa de fisiologismo”.
Deus te perdoe, Michel Temer!