domingo, agosto 29, 2010

Lições que ficam para o PSDB e seus aliados

Adelson Elias Vasconcellos

No UOL há uma interessante declaração de José Serra, que teria afirmado: “"O nosso partido faz, mas não é muito bom de marketing”.

Se o diagnóstico de Serra, para sua iminente derrota no pleito em outubro, for apenas este, então, parece-me que a oposição vai amargar sua terceira derrota consecutiva (2002, 2006 e 2010) sem ter, ainda, aprendido a lição que o pleito lhe oferece.

A primeira lição básica seria a de que a batalha política tem de começar logo após a proclamação do resultado. Juntar os cacos, as pessoas, discutir estratégias e determinar que cada um atue com vigorosa força no papel que estarão representando, ou seja, que sejam oposição, sem tréguas, sem concessões, fiscalizando e, principalmente, criticando sempre. É preciso por de lado a frescura e esquisitice da tal “oposição responsável”. Sempre que PSDB vem com esta conversa fiada, a primeira pergunta que faço é: E quando o PT foi oposição, agiu do mesmo modo? Sua atuação não se caracterizou sempre em boicotar todos os governos desde 1985? Querer agora aliviar o garrote, corresponde em premiar o PT por uma atuação que nunca teve.

A segunda é que eleições não se ganham apenas no período de campanha. É preciso ter um projeto de país para oferecer, de um lado, e, de outro, nunca ser leniente com o governismo. Mesmo que o PT voltasse à oposição a partir de 2011, sua atuação não seria diferente da que teve até 2002. Aliás, se o PSDB observar bem, durante o tempo de Lula no poder, outra coisa ele não fez senão oposição à oposição. Difícil de entender? Não, é até bem simples: Lula negou todas as obras que encontrou prontas de seus adversários, alterou o nome de todos os programas que estavam em curso, manteve os programas que realmente lhe interessava mas deu-lhes outro rótulo, cravando seu made in PT.

Ora, por que deveria o PSDB deixar de fazer oposição? Por que não partir para o confronto, mesmo diante da imensa aprovação de Lula nas pesquisas, criticando e condenando com veemência as mazelas do governo?

Tivessem feito isto e, por certo, não estariam na situação em que se encontram.

Mais: se há um governo que teve muito para mostrar de bom e de conquistas, e se orgulhar de suas obras este, por certo, foi o período de FHC. E o que os tucanos fizeram? Primeiro, fugiram miseravelmente da comparação, oportunidade ímpar que tiveram para confrontar o governo Lula e suas clonagens. Isto daria gancho para um processo de desmistificação do atual presidente. Ao evitarem o confronto, deixaram Lula livre para entoar todas as ladainhas possíveis de sua glorificação, além de desfilar um rosário de mentiras contra as quais o PSDB jamais se posicionou.

Portanto, não se trata de ser bom ou ruim de marketing, se trata, efetivamente, de aprender a praticar a boa e velha política. Claro que a campanha na TV, e na qual Serra apostou muito, também foi de um ridículo atroz. Manter o mesmo marqueteiro que já em 2006 naufragara com conceitos semelhantes na campanha de Alckmin, foi um absurdo que Serra poderia ter evitado.

A terceira lição é que, sem uma unidade nacional em prol do partido, ninguém vai a lugar algum. Não basta apenas ser conhecido e reconhecido, como era o caso de Serra. Precisava mostrar que era diferente e que podia fazer todos os acertos sobre todos os erros do atual governo. Ou seja, ele precisava ser uma alternativa melhor para melhorar todas as coisas ruins que o governo Lula fez (e não foram poucas). Precisava torpedear os inúmeros escândalos, as inúmeras falhas, relembrar aos brasileiros o drama que se vive nas estradas e nos aeroportos (falar sobre apagão aéreo e suas centenas de vítimas, além do escândalo da VARIG), mostrar a quantidade de pessoas que morrem por falta de atendimento hospitalar, mostrar o drama dos agricultores diante de infraestrutura deficiente, de um real supervalorizado, e a ameaça constante que representa o MST e congêneres que são financiadas pelo governo Lula para praticarem um terrorismo no campo. Mostrar o quanto a criminalidade prosperou no governo Lula apesar dos inúmeros programas que lançou e nunca saíram do lugar. Deveriam ter entrado de cabeça no PNAD e de lá retirarem todos os indicadores que mostram o quanto o governo deixou de fazer, seja no saneamento, na saúde ou na educação. E mostrar que todos aqueles números que Lula e Dilma agora exibem com tanta empáfia seriam mentirosos. Deveriam tê-los, enfim, desacreditados antes que começassem a mentir. Deveriam confrontar seus fatos e estatísticas ao discurso vazio e mentiroso do governo.

E que tal um pouco de política externa onde este governo só colecionou derrotas e se juntou à escória?

Mostrar ao país o quanto o PT tem lutado para legalizar as drogas, o aborto, a censura à liberdade de expressão, o quanto é deficitário o patrulhamento de nossas fronteiras e o perigo que esta vulnerabilidade representa para a sociedade pelo contrabando quase liberado para entrada de drogas e armas que vão alimentar a violência nos grandes centros. Mostrar o quanto de dinheiro se gastou em doações para ONGs picaretas, em gastos correntes, para depois garrotearem os aposentados de forma tão infame, com a alegação de “falta de recursos”.

Mas isto tudo teria  receptividade se o PSDB tivesse adotado o discurso de oposição há mais tempo, e não às vésperas da eleição, deixando o segundo mandato de Lula inteiramente livre para ele ditar as regras da política brasileira.

Importante também que mostrasse o Lula crítico da elite política, no passado, e agora de braços dados ao que existe de pior. O Lula crítico dos programas sociais de Fernando Henrique e o que ele dizia na época, e a mudança de discurso quando chegou ao poder. O operário que se dizia humilde e pobre, para o elitista gastador a mãos cheias na presidência onde os gastos foram multiplicados por 10 vezes, e o que é pior: determinando que os mesmos não fossem mostrados à sociedade.

Ah, senhores, o que não faltou e nem tampouco faltam são motivos para bater duro no governo Lula. Se o PSDB e aliados quiserem se enganar, estejam à vontade. Vão penar ainda um bocado para voltarem ao poder, porque sem abraçarem as verdadeiras causas de sua derrota e a adoção de uma nova postura, não conseguirão se tornar relevantes aos olhos da sociedade.

Claro que o TSE foi inquietante e absurdamente omisso em relação à propaganda antecipada que Lula pratica há pelo menos dois anos. Claro que o TSE tanto quanto o Ministério Público foram quase totalmente irresponsáveis ao permitirem o uso da máquina pública e dos recursos públicos em proveito eleitoral. Mas até a oposição poderia ter se  utilizado desta munição, porque o PT chegou ao poder procedendo exatamente deste jeito.

Vejam acima: quanto material e munição a oposição desperdiçou, as quais uma vez bem empregadas e com estratégias adequadas, poderia estar hoje em vantagem. Tentar ser agora o que não foram ao longo de quatro ou até de oito anos, creio ser meio tarde.

A oposição precisa, enfim, guardar a quarta e última lição: a gente conquista alguma coisa na vida, mediante transpiração pessoal. Em 2006, acharam que Lula, por conta do mensalão, chegaria fragilizado diante da opinião pública, e agora, acharam que Dilma se desmantelaria sozinha diante do eleitorado. Só que Lula em 2006, ganhou o espaço e o tempo para se recuperar, e Dilma neste ano, ganhou o espaço e o tempo para melhor se preparar. Não que tenha se tornado alguma coisa brilhante. Longe disso. Mas soube atenuar seus defeitos e até escondê-los, contando com o guarda chuvas de seu padrinho e mentor. Quem tinha que ter agido em 2006 e agora, em 2010, era a oposição, para ocupar os espaços vazios. Ao não fazê-lo, comeu mosca e deixou que o governismo tomasse conta do discurso.

Contudo, e independente de qualquer resultado, muito embora uma virada seja missão quase impossível, pode ser que o PSDB e seus aliados tirem as duras lições que 2010 está lhes oferecendo: é preciso fazer e atacar sempre, seja no governo ou fora dele. Dar campo ao adversário, é permitir que ele dite o ritmo do jogo. Ou seja, é preciso que façam e apliquem a verdadeira ciência política, sem a qual, o melhor que terão a fazer é largarem a política e mudarem de ramo de atividade.