terça-feira, setembro 14, 2010

Expansão econômica do Brasil pode estar perdendo fôlego, diz OCDE

Daniela Fernandes, BBC Brasil

Indicadores econômicos do Brasil ficaram abaixo de patamar

O Brasil começa a dar “sinais mais fortes” de que sua expansão econômica está perdendo o fôlego e já pode ter atingido o seu pico, afirma a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), em um estudo divulgado nesta segunda-feira.

No relatório sobre o Indicador Composto Avançado (ICA, LCI na sigla em inglês), a organização também afirma que a desaceleração no ritmo de crescimento nos próximos meses é observada de maneira mais forte na maioria dos países ricos.

O ICA analisa mensalmente as tendências econômicas para os próximos seis meses.

“No Canadá, na França, na Itália, na Grã-Bretanha, na China e na Índia, uma desaceleração no ritmo de crescimento para os próximos meses é verificada de maneira mais forte em relação ao último estudo”, diz a OCDE.

“Sinais mais fortes também emergiram no Japão, nos Estados Unidos e no Brasil, mostrando que a expansão pode perder o fôlego”, afirma o relatório.

Para os cálculos do ICA, a OCDE se baseia em diferentes indicadores econômicos de curto prazo ligados ao PIB, como a produção industrial.

O nível de 100 pontos é utilizado como referência para classificar a intensidade da atividade econômica dos países.

Os países que sofreram queda em relação ao último estudo e ficaram abaixo de 100 pontos recebem a classificação de “desaceleração”. Os que também tiveram diminuição do índice, mas permaneceram acima da barreira de 100 pontos, são considerados como em “leve desaceleração”.

Abaixo do patamar
Dos 31 países da OCDE e quatro grandes economias emergentes analisados no estudo, o Brasil é o único que ficou abaixo do patamar de referência de 100 pontos.

O ICA do Brasil em julho, divulgado nesta segunda-feira, foi de 99,4 pontos, registrando uma diminuição de 0,8 ponto em relação ao de junho, anunciado em agosto.

A queda do ICA brasileiro é também a maior entre os países analisados. Mas na comparação com os últimos 12 meses, o indicador do Brasil registra um aumento de 4,3 pontos, o que levou a organização a definir a expansão da atividade econômica brasileira como tendo “possivelmente atingido o pico”.

Na zona OCDE, o ICA diminuiu 0,1 ponto em julho, totalizando 103,1 pontos e a expansão da economia também atingiu possivelmente o ápice, diz o estudo.

Os Estados Unidos sofreram queda de 0,2 ponto em julho e registraram 102,5 pontos. Na comparação com os últimos 12 meses, o ICA americano teve aumento de 8 pontos.

Após o Brasil, a segunda maior queda do Indicador Composto Avançado foi da China, que perdeu 0,4 ponto, totalizando 102,1 pontos. Mas, na comparação anual, a China registra diminuição de 0,1 ponto.

Alemanha e Rússia em expansão
Os únicos países que registraram aumento do indicador em julho foram a Alemanha e a Rússia, com 0,2 e 0,1 ponto, respectivamente.

Como esses países já se situavam acima do patamar de referência de 100 pontos, foram os únicos classificados em “expansão” econômica pela OCDE.

Na última sexta-feira, a OCDE já havia anunciado previsões que indicam uma forte desaceleração do crescimento econômico do G7, que reúne os sete países mais ricos do planeta.

Segundo a organização, o crescimento das economias do G7 deve atingir 1,4% no terceiro trimestre deste ano e 1% no quarto. No primeiro trimestre o crescimento havia sido de 3,2% e, no segundo, de 2,5%.

“É difícil ainda saber se essa perda de fôlego da retomada do crescimento é temporário ou se ele é o sinal de uma fraqueza mais acentuada”, havia declarado na sexta-feira Pier Carlo Padoan, economista-chefe da OCDE.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Ontem postamos um artigo sob o título "A falta de qualificação e a educação em descompasso com o desenvolvimento",  clique aqui, no qual apontamos uma série de razões que, entendemos, serão capazes de conter o ímpeto do atual impulso de crescimento do país. É preciso deixar bem claro o seguinte aspecto: ninguém está torcendo "contra" o país, como Lula tentou desqualificar a oposição há poucos dias atrás. Até pelo contrário. Mas o que não podemos fazer é fechar os olhos e achar que, apesar da situação favorável, nada mais será preciso realizar. Ledo engano. O momento atual é positivo por várias questões que, no citado artigo, fizemos questão de ressaltar. Porém, há umja enormidade de fatores externos que nos proporcionam a atual condição.
 
O que se quer, na verdade, é preservar esta fase positiva, daí porque os alertas no sentido de nossas autoridades conscientizarem-se de que é preciso tomar inúmeras medidas para a manutenção da situação presente. Não fosse assim, por quais razões teria o governo Lula retomado as elevações da taxa SELIC?  Porque ficou claro que nosso crescimento, nas taxas que vinham acontecendo, era insustentável. E o é por conta das reformas que o país deixou de lado desde 2003, reformas que hoje nos fazem falta, e que no texto do artigo, foram apontadas a partir de um estudo em que perdemos posições no ranking de competitividade. 

Enquanto a economia mundial "bombou" em ritmo frenético, no período 2002/2008, e o consumo de comodities foi elevado, conduzindo seus preços às alturas, o Brasil se beneficiou enormente. Porém, é preciso ter sensibilidade para perceber que aquele momento passou, e que a situação da economia mundial vive, agora, situação bastante adversa. Claro que nós ainda tiramos proveito porquanto os países em desenvolvimento ainda conseguem manter seus níveis de consumo interno em níveis que nos favorecem. Contudo, sabe-se, que tal ritmo não se manterá por muito mais tempo, razão pela qual devemos acelerar as reformas que nos faltam e, se possível, estimular a poupança interna, justamente para, em qualquer circunstância de dificuldade exterior, o país não ser atingido, ou se for, para que os efeitos não sejam danosos à saúde econômica do Brasil.