quinta-feira, outubro 07, 2010

A caça aos votos verdes

Villas-Bôas Corrêa

Com esta nem a Marina Silva, a presidente do Partido Verde (PV) e a terceira mais votada no primeiro turno, que estragou a festa da favorita Dilma Rousseff e respingou esperanças em José Serra, classificado para o segundo turno: com a onda verde que varre o país, petistas e tucanos que nunca plantaram um pé de couve, acordaram com o susto virados pelo avesso, como defensores históricos do meio-ambiente. E amigos de infância da acreana, apesar de atritos e demissões esquecidas pela amnésia eleitoral.

Ora, nem o presidente Lula ou a sua candidata manifestaram algum dia o mínimo interesse pela devastação da Amazônia ou pelos riscos impostos ao rio São Francisco pela sangria para atenuar a seca que castiga o Nordeste com a praga das estiagens.

Em vários improvisos de um dos maiores oradores da história deste país ou em declarações à imprensa, Lula se queixou dos embaraços criados pelos ambientalistas para a realização de obras, como pontes e desvios de rios. Os sapos que retardam as obras do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC), o veto a desvios de rios são considerados picuinhas da oposição ou ranzinzice de ambientalistas.

Nem baixou a poeira da decepção e a humildade no reconhecimento dos erros táticos mobiliza todo o governo. O presidente Lula e a candidata Dilma reuniram no Palácio da Alvorada, em Brasília, governadores, senadores, deputados e o comando da campanha para a análise crítica dos erros na campanha. E jogaram a culpa no “salto alto”, no caso de Dilma calçado apenas no pé esquerdo, para a conclusão óbvia que para o segundo turno é preciso humildade para cooptar os votos de Marina Silva e do seu eleitorado.

O PT calçará as sandálias havaianas de humildade, num açodamento que denúncia o medo de novo insucesso. De resto improvável, pois o candidato José Serra não foi além de 32,6 de votos, contra os 46,9% de Dilma Rousseff, a 3,1% da classificação. Claro que com o apoio de Marina Silva e os 19,3%% dos votos dos verdes, a parada estaria decidida antes mesmo da contagem dos votos.

A pressa não é boa conselheira. No açodamento para dar boas notícias, o presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra encheu o peito para anunciar que já fizera o primeiro contato com a presidente do Partido Verde, Marina Silva e dela obtiveram a aceitação do convite para uma conversa. O afobado come cru. Marina Silva divulgou nota negando já ter aceitado o convite para conversar com o PT ou sobre o eventual apoio à candidata Dilma. Esclareceu que “a sua candidatura é maior que o próprio PV e, nos próximos dias estará envolvida em processo decisório baseado na escuta às parcelas da sociedade civil que se integram ao seu projeto e às instâncias do próprio partido”. Trocando em miúdos, uma nota que adia a decisão para o fim da campanha.

A presidente do PV está sendo assediada por lideranças do seu partido, favoráveis a uma aliança com o PT, com todas as vantagens do apoio ao governo. E, também pelo candidato José Serra que deposita nos votos verdes a única e remota possibilidade de ser eleito presidente no segundo turno.

A lenga-lenga vai rolar por alguns dias.