domingo, outubro 10, 2010

A campanha pegou fogo

Villas Bôas-Corrêa

Com a velocidade de água de morro abaixo, a campanha que vinha morna e insossa na conversa de compadres entre os candidatos do governo, ou mais exatamente do presidente Lula, a sua ex-ministra Chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff e o candidato tucano de oposição José Serra, pegou fogo e promete um incêndio de assustar com a série de cinco debates entre os cinco debates nas redes de televisão.

E a candidata e presidente do Partido Verde, a acreana Marina Silva, com os surpreendentes 20 milhões deslocou Dilma para o segundo turno, alçou às alturas de fiel da balança: se não apoiar nenhum candidato, liberando o seu eleitorado, a eleição do sucessor de Lula, só será decidida no olho mecânico. Mas, se o PV decidir por um dos candidatos, o felizardo ou a Dilma podem encomendar a beca para a posse.

Enfim, teremos amanhã, pela TV-Bandeirante, o primeiro debate político da campanha, com os dois classificados no primeiro turno, Dilma Rousseff e José Serra, no clássico modelo de governo contra a oposição, com tempo livre para perguntas, respostas e o bate-boca que ajuda o eleitor indeciso a fazer a sua escolha ou a mudar de opinião.

O que se viu no primeiro turno, além do inqualificável desfile de aspirantes a um dos melhores empregos deste país, com a orgia de mordomias, vantagens e quase nada para fazer, não foi um debate, mas programas de auditório ou encaixes nos noticiários das redes de TV, com o disparate do sorteio dos temas e o rigor de segundos nos tempos para as respostas.

O eleitor salvou a campanha com a surpresa dos milhões de votos para Marina Silva, a presidente do Partido Verde (PV) e que fez o favor de emplacar o segundo turno entre os dois mais votados.

E a conversa mudou da água barrenta para a esperança de um segundo turno para valer. Sobre a candidata Marina Silva paira a dúvida sobre a sua decisão, com a dança das muitas hipóteses entre o apoio a Dilma ou Serra e a mais improvável omissão escapista de liberar o voto, o que não faz o seu gênero.

Na indecisão, todos se declaram amigos de infância da acreana que tem nas mãos a chave da vitória. Não é bem assim. Em impecável artigo Trilhas Opostas, na edição de quinta-feira, dia 7, na sua coluna de O Globo, Miriam Leitão conta a longa trajetória dos desacertos entre Dilma e Marina. Elas nunca se entenderam, garante a ilustre colega. E desfia o novelo de picuinhas. A BR-319 que liga Porto Velho a Manaus foi um dos motivos de azedos debates entre a candidata Dilma e a presidente do Partido Verde. Marina coordenou com o ministro Ciro Gomes, o projeto para a rodovia Cuiabá-Santos, com a previsão de várias providências para a preservação ambiental. Marina ganhou a parada, mas ficou a ver navios. O projeto foi detonado pelo governo do presidente Lula.

Mas, a novidade deste segundo turno é a cambalhota do candidato José Serra que caiu em si, purgando autocrítica sobre o seu pífio desempenho no primeiro. E promete ser um outro candidato no bis para valer. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, alvo das críticas diárias do presidente Lula, foi retirado do armário para participar da campanha. Ainda não se sabe exatamente como. Mas, é uma tacada arriscada. E que indica que o tucano José Serra partiu para o tudo ou nada.

Só há uma certeza: a campanha deve melhorar neste segundo turno. Em todos os níveis.

Lula salta de lá para cá. Em Angra dos Reis (RJ) na cerimônia de inauguração da política de segurança pública do governador Sérgio Cabral, o presidente Lula traçou o modelo para a atuação da polícia nas favelas: “Não vamos mandar a polícia para cá só para bater. A polícia só bate em quem deve bater”.

Pelo visto, um bom mote para a campanha.